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Um rio vermelho na Espanha guarda um mineral de Marte

Em Huelva, o Rio Tinto desce ácido sobre a pirita e deixa na margem a jarosita, um sulfato amarelo achado pela sonda Opportunity.

Água vermelha do Rio Tinto correndo entre pedras alaranjadas perto de Nerva, em Huelva, na Espanha.

Rio Tinto perto de Nerva, em Huelva

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A água bate nas pedras com um som raso, e o cheiro de ferro molhado sobe da margem como o de uma moeda velha apertada na mão. Sob a corrente, o leito tem cor de vinho escuro; nas bordas, onde a água seca, a pedra fica laranja, amarela e ocre, em faixas finas como as de um bolo cortado.

Quem enfia o dedo sente a água fria e, depois de um minuto, uma ardência leve na pele rachada. Não há peixe, nem sapo, nem girino escondido entre as pedras. Os juncos da margem crescem afastados da corrente, como se evitassem encostar nela.

O trecho fica a poucos quilômetros da cidade de Nerva, na província de Huelva, no sul da Espanha. A paisagem em volta parece de outro planeta: morros sem árvore, montes de escória preta, barrancos cortados em degraus vermelhos e roxos.

Uma ponte de ferro antiga atravessa a corrente, e os trilhos de uma ferrovia mineira seguem rente à água. Os dormentes têm manchas cor de ferrugem até onde a cheia chegou no último inverno, e a madeira de baixo parece tingida a pincel.

A cor não sai de tinta nem de esgoto. Ela vem do ferro dissolvido, e o ferro só continua dissolvido porque a água é ácida, mais ácida que vinagre e perto da acidez do suco de limão.

Os vizinhos chamam o rio pelo que ele mostra: Tinto, como o vinho. Os romanos o conheciam como Urium, e mineiros de quase todas as épocas tiraram cobre, prata e ouro das encostas que ele corta.

Nos anos 2000, cientistas ligados à NASA desceram até essas margens com sondas de perfuração e cadernos de campo. Eles não queriam cobre. Vinham procurar, na Andaluzia, pistas sobre um mineral amarelo que um robô tinha acabado de encontrar em Marte.

Para ligar uma ponta à outra, primeiro é preciso seguir o rio no mapa, da nascente na serra até a foz no Atlântico.

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

“If I were a farmer, I would absolutely use AI.” 

That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

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I  O mapa do dia

Da serra de pirita ao porto de Colombo

Da Sierra Morena até a ria de Huelva.

O Rio Tinto nasce na Sierra Morena, na comarca (região administrativa) da Cuenca Minera, perto de Nerva e de Minas de Riotinto, e corre uns 100 km para o sudoeste até a ria de Huelva, onde encontra o Atlântico.

A bacia inteira fica dentro da província de Huelva, a mais ocidental da Andaluzia, colada na fronteira com Portugal. O rio é curto e leva pouca água no verão; nas chuvas de inverno, enche rápido e arrasta lama vermelha morro abaixo.

Ao longo do vale, a cor muda com a distância da nascente. Perto das minas, a água é quase grená; mais abaixo, fica alaranjada, e nos remansos aparece uma película cor de mostarda.

UMA FAIXA DE PIRITA ATÉ PORTUGAL

O rio corre em cima de uma das maiores reservas de sulfeto do planeta, e cada quilômetro de leito lava essa rocha.

A Faixa Pirítica Ibérica é uma tira de rocha com uns 250 km de comprimento e de 30 a 50 km de largura. Ela sai das proximidades de Sevilha, atravessa Huelva inteira e entra em Portugal até o Alentejo.

A rocha guarda pirita (sulfeto de ferro, o “ouro dos tolos” de brilho dourado) e outros sulfetos de cobre, zinco e chumbo. Os depósitos nasceram no fundo de um mar antigo, há centenas de milhões de anos, quando fontes quentes despejavam metais na lama do leito.

Nas cabeceiras do rio ficam as minas mais famosas da faixa. A Corta Atalaya é uma cratera a céu aberto em degraus, uma das maiores escavações da Europa; ao lado, a mina de Cerro Colorado voltou a funcionar neste século, explorando cobre.

Rio abaixo, o Tinto passa por Niebla, cidade de muralhas mouras de pedra avermelhada, e entra na zona de maré. Ali a água salgada do oceano sobe duas vezes por dia e se mistura com a ácida, que vai perdendo a cor.

A foz é compartilhada. O Tinto e o Odiel, outro rio ácido da mesma faixa, se juntam diante de Huelva e formam a ria (um vale de rio invadido pelo mar), cercada de marismas (charcos salgados de maré).

Na margem esquerda do Tinto fica Palos de la Frontera. Desse porto Cristóvão Colombo zarpou com três navios em 3 de agosto de 1492, numa viagem bancada pela Coroa de Castela.

No mapa, o curso desenha uma diagonal da serra ao mar, sempre dentro da faixa de pirita. O rio nasce na rocha, corta por ela e só a deixa perto da costa.

 
 

II  O que tem ali

Ferro, ácido e micróbios

A química do Rio Tinto começa quando a pirita encontra ar e água. O enxofre do mineral vira ácido sulfúrico, e o ferro se solta na corrente.

O processo segue quatro passos, repetidos em cada rocha exposta:

1. A chuva e o ar atacam a pirita das encostas e das galerias abandonadas.

2. O enxofre oxida e forma ácido sulfúrico, que derruba o pH (a medida de acidez, de 0 a 14) da água.

3. Micróbios que vivem no ácido transformam o ferro dissolvido em ferro férrico, de cor vermelha.

4. O ferro férrico ataca mais pirita, e o ciclo recomeça sozinho.

O ferro férrico só fica dissolvido enquanto a água continua muito ácida. Quando o pH sobe um pouco, ele precipita e pinta de ocre as pedras do leito.

Num artigo de 2005 na revista Earth and Planetary Science Letters, David Fernández-Remolar, Ricardo Amils e colegas descreveram o rio com pH médio perto de 2 ao longo do curso, e água carregada de ferro e sulfato.

VIDA DENTRO DO ÁCIDO

O rio parece sem vida e está cheio dela: micróbios comem ferro e prosperam num ácido que queimaria as guelras de um peixe.

A equipe do microbiólogo Ricardo Amils, do Centro de Astrobiologia de Madri, catalogou nas águas bactérias como Acidithiobacillus ferrooxidans e Leptospirillum ferrooxidans (o ferrooxidans dos dois quer dizer “que oxida ferro”), além de algas e fungos adaptados ao ácido.

As algas formam tapetes verdes nas pedras rasas, as únicas manchas verdes do leito. Os fungos crescem em fios brancos presos às rochas submersas.

A lavra nas encostas é antiquíssima. Os tartéssios (povo da Idade do Bronze no sul da Península Ibérica) e os fenícios já fundiam metal ali; os romanos abriram galerias e deixaram montanhas de escória.

Em 1873, o governo espanhol vendeu as minas a um consórcio britânico liderado por Hugh Matheson, que fundou a Rio Tinto Company. A empresa abriu cavas gigantes, trouxe ferrovia até o porto de Huelva e espalhou costumes ingleses pela região.

Um deles ficou. O Recreativo de Huelva, fundado em 1889 por britânicos ligados às minas, é o clube de futebol mais antigo da Espanha.

Em 4 de fevereiro de 1888, mineiros e camponeses protestaram na praça de Minas de Riotinto contra a fumaça das teleras (fogueiras a céu aberto onde se queimava o minério), e a tropa abriu fogo. O número de vítimas nunca foi fechado: os registros oficiais e os relatos locais divergem, e parte da documentação da época se perdeu.

Em 1954, a companhia vendeu as minas espanholas. Com sede em Londres, ela virou uma das maiores mineradoras do mundo e manteve a marca tirada do rio.

 

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III  Por que a linha passa ali

Jarosita, de Huelva a Marte

Nas margens secas do Rio Tinto, onde a água ácida evapora, se forma uma crosta amarela de jarosita, um sulfato de ferro e potássio que só nasce em água ácida e com oxigênio.

Em água neutra, o mineral não se forma. Quando a água volta abundante e menos ácida, ele se desfaz em óxidos de ferro. Achar jarosita, portanto, é achar a assinatura de uma água ácida que secou logo.

UM ROBÔ EM MERIDIANI

A jarosita funciona como um recibo químico: ela só aparece onde houve água líquida, e ácida.

Em janeiro de 2004, o jipe-robô Opportunity, da NASA, pousou em Meridiani Planum (a Planície Meridiana de Marte), dentro de uma pequena cratera batizada depois de Eagle. O espectrômetro Mössbauer do robô (um aparelho que identifica minerais de ferro) detectou jarosita nas rochas da borda.

Em 2 de março de 2004, Steve Squyres, cientista-chefe da missão, resumiu o achado na entrevista coletiva da NASA: “A água líquida já correu por essas rochas. Ela mudou a textura delas e mudou a química delas.”

A jarosita entrou na lista de provas mais fortes do achado, ao lado de pequenas esferas de hematita, um óxido de ferro, espalhadas pelo chão da cratera.

O achado mandou cientistas atrás de um lugar na Terra com a mesma química. O Rio Tinto servia: água ácida, ferro, sulfato e jarosita secando na margem.

Entre 2003 e 2005, o projeto MARTE, da NASA com o Centro de Astrobiologia, perfurou o subsolo perto da nascente. A equipe testou brocas pensadas para Marte e procurou micróbios vivendo no escuro, dentro da rocha.

Uma pergunta ficou em aberto: o ácido é obra da mineração ou é mais antigo? A equipe de Amils defende um rio ácido antes das primeiras minas, alimentado por micróbios que atacam a pirita no subsolo; outros geólogos atribuem a maior parte da acidez a milênios de escavação. Nenhum lado fechou a questão, porque a própria lavra revolveu as camadas mais antigas do leito.

Em Meridiani, a jarosita indica poças de água ácida e salgada que secavam e voltavam, há bilhões de anos. Se havia vida ali, ninguém sabe; o Rio Tinto mostra apenas que micróbios conseguem viver numa água assim.

O trem turístico do Parque Minero de Riotinto segue a margem do rio entre a estação de Talleres Mina e Los Frailes, com horário reduzido no inverno. Reconfira a grade de novembro na página do parque, parquemineroderiotinto.es, no dia 2 de novembro de 2026, antes de planejar a visita.

 
 
Quiz da edição

Em janeiro de 2004, o jipe-robô Opportunity pousou em qual região de Marte, dentro de uma cratera batizada depois de Eagle?

AGale Crater
BUtopia Planitia
CMeridiani Planum (Planície Meridiana)
DElysium Planitia

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