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Um antigo fundo de mar deu à Austrália 478 km de trilho reto

A planície de Nullarbor é o maior bloco de calcário exposto do mundo, tão plana que a ferrovia não precisou de curva.

Trilho reto da ferrovia transaustraliana cruzando a planície de Nullarbor, sem árvores até o horizonte.

Planície de Nullarbor, no sul da Austrália

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O trilho estala sob as rodas num compasso que não muda, e o ar que entra pela fresta da janela tem gosto de poeira de giz. Às sete da manhã, o vidro ainda está frio ao toque.

O trem é o Indian Pacific, que liga Sydney a Perth, e cruza agora o sul da Austrália. Pela janela passa uma planície cor de areia clara, coberta de arbustos cinzentos que mal chegam ao joelho. Nenhuma árvore aparece até o horizonte.

Os passageiros acordam, tomam café no vagão-restaurante, almoçam, cochilam, e a paisagem segue igual. O trilho também. Nenhuma curva, nenhuma ponte, nenhum túnel: a linha avança sobre o chão liso como um risco de lápis numa folha de papel.

São 478 km sem uma única curva, a reta ferroviária mais longa do planeta. A distância supera a de São Paulo ao Rio de Janeiro em linha reta, e ainda sobra trilho para mais uma hora de viagem.

A planície se chama Nullarbor, palavra montada a partir do latim nullus arbor (nenhuma árvore). Quem a batizou, em meados da década de 1860, foi o agrimensor (medidor de terras) Edmund Delisser, que percorreu a região a cavalo e anotou o que via, ou melhor, o que faltava.

O primeiro europeu a cruzar a região, o explorador inglês Edward John Eyre, levou quase cinco meses na travessia a pé, em 1841, cavando a areia das dunas da costa em busca de água doce. Hoje o trem faz o trecho plano numa manhã e uma tarde.

O chão debaixo do trem é calcário, rocha formada por conchas e esqueletos de bichos marinhos acumulados no fundo do oceano. Ali, milhões de anos atrás, havia mar raso. Quando a água recuou, sobrou um piso achatado que nenhum rio grande voltou a cortar.

Para entender por que a ferrovia não precisou desviar de nada, primeiro é preciso achar a planície no mapa, medir a área dela e ver onde ela começa e termina.

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I  O mapa do dia

Uma mesa de calcário entre o deserto e o mar

Das falésias da costa às dunas do norte.

A Nullarbor ocupa a borda sul da Austrália, dividida entre dois estados, a Austrália Meridional e a Austrália Ocidental. Ela se estende por cerca de 1.100 km de leste a oeste e passa de 200 mil quilômetros quadrados, área perto da do Paraná inteiro.

Ao sul, a planície termina de repente no oceano. A Grande Baía Australiana, um recorte enorme da costa aberto para o oceano Antártico, bate na base das falésias de Bunda, paredões de calcário que chegam a 120 m de altura e correm uns 100 km quase sem interrupção.

Ao norte, o calcário encosta no Grande Deserto de Victoria, um mar de dunas avermelhadas. A oeste ficam as minas de ouro de Kalgoorlie; a leste, o porto de Port Augusta, na ponta do golfo Spencer.

O CHÃO MAIS PLANO DO CONTINENTE

Em centenas de quilômetros, o terreno quase não sobe nem desce: a planície parece uma mesa posta à beira do mar.

A altitude varia pouco, de algumas dezenas de metros perto da costa a pouco mais de 200 m no interior. A subida é tão gradual que o olho não a percebe, e o horizonte fica sempre na mesma altura da janela.

Duas estradas de ferro e asfalto cruzam a planície. A ferrovia transaustraliana liga Port Augusta a Kalgoorlie em 1.693 km, e a reta famosa fica no trecho central, entre as paradas de Ooldea, na Austrália Meridional, e Loongana, na Austrália Ocidental.

Mais perto da costa corre a rodovia Eyre. Ela também tem a sua reta, apelidada de Noventa Milhas, com 146,6 km sem curva entre as paradas de Balladonia e Caiguna, a estrada asfaltada reta mais longa do país.

No meio dos trilhos fica Cook, uma vila de ferroviários criada para abastecer as locomotivas. Já teve escola, hospital e piscina; hoje está quase vazia, e o trem ainda para ali alguns minutos para os passageiros descerem e pisarem no calcário.

O céu ocupa quase toda a janela. Sem árvore, prédio ou morro, a linha do horizonte fica limpa nos 360 graus, e à noite, longe de qualquer cidade, a Via Láctea aparece inteira acima dos trilhos.

O fuso horário também entra no mapa. Na Nullarbor, uma faixa de relógio própria, usada só por postos e vilas da rodovia, fica entre o horário de Perth e o de Adelaide, e o motorista acerta o relógio duas vezes na travessia.

 
 

II  O que tem ali

Arbustos de sal e cavernas sob os pés

Quase nada cresce acima do joelho. A vegetação é de saltbush e bluebush (arbustos-de-sal e arbustos-azuis), plantas baixas e acinzentadas que aguentam solo salgado e meses sem chuva.

A falta de árvores tem causa no próprio chão. O solo sobre o calcário é fino, pobre e salgado, e a pouca chuva que cai some depressa por fendas na rocha. Raiz funda não encontra água nem terra para se firmar.

Os bichos se adaptaram ao mesmo aperto. Cangurus-vermelhos e dingos (cães selvagens australianos) atravessam a planície, e o vombate-de-nariz-peludo-do-sul, um marsupial atarracado, cava tocas no calcário mole para fugir do calor do dia.

DEBAIXO DO CHÃO

A planície é furada como queijo: a água da chuva dissolveu o calcário por dentro e abriu cavernas e túneis.

Esse relevo se chama carste (paisagem de rocha dissolvida pela água). Na Nullarbor, ele aparece em dolinas, buracos redondos onde o teto de uma caverna desabou, e em sopradores, furos no chão por onde o ar sai e entra conforme a pressão do tempo muda.

Quem se debruça sobre um soprador sente no rosto uma corrente de ar fresco vinda de baixo, às vezes forte a ponto de levantar o chapéu. Em dias de pressão alta, o fluxo se inverte e o buraco puxa o ar para dentro.

A caverna de Koonalda, perto da rodovia, guarda um dos registros mais antigos de gente na região. Nas paredes de calcário mole, os primeiros moradores deixaram sulcos traçados com os dedos, e lá dentro há sinais de que extraíam sílex, pedra dura usada para fazer lâminas.

No verão, o calor do dia passa dos 40 graus na planície aberta, e a noite de inverno pode chegar perto de zero. A rocha clara devolve a luz do sol com força, e quem caminha ao meio-dia sente o brilho subir do chão.

A costa da planície pertence aos Mirning, povo aborígine que vive ali há milhares de anos e mantém histórias próprias sobre as falésias e a baleia. Na Head of Bight, no leste das falésias, baleias-francas-austrais chegam todo inverno para ter os filhotes perto da praia.

 

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III  Por que a linha passa ali

O trilho sem desvio

A planície nasceu no fundo de um mar raso. No Mioceno, época entre cerca de 23 e 5 milhões de anos atrás, conchas, corais e algas se acumularam em camadas horizontais e endureceram no Calcário Nullarbor, a rocha que hoje forma o piso.

Depois o bloco subiu. A elevação foi lenta e por igual, sem dobrar as camadas, e o antigo fundo do mar ficou exposto quase intacto, ainda na horizontal em que se depositou.

O clima fez o resto. Com pouca chuva e rocha porosa, a água se infiltra na rocha, e nenhum rio grande se formou para cavar vales. Sem vale, não há morro entre eles: o relevo continua o do fundo do oceano.

PLANO DESDE A ORIGEM

A ferrovia só correu reta porque o chão nunca deu a ela um obstáculo para contornar.

Construir uma ferrovia é, quase sempre, negociar com o relevo. Os engenheiros fazem curvas para fugir de morros, contornar rios e manter a subida suave para a locomotiva. Na Nullarbor, os motivos de desvio simplesmente não existiam:

1. Nenhum morro para subir ou contornar.

2. Nenhum rio para atravessar, e portanto nenhuma ponte.

3. Nenhuma cidade ou fazenda no caminho para servir.

4. Chão firme de rocha para assentar os dormentes.

O trilho nasceu de uma promessa política. Quando as colônias australianas se uniram numa federação, em 1901, a Austrália Ocidental entrou com a condição de ganhar uma ligação de trem com o leste. A obra começou em 1912, com duas frentes partindo de Port Augusta e de Kalgoorlie.

As duas equipes se encontraram perto de Ooldea num dia 17 de outubro, em 1917. O problema da obra foi a água: na planície sem rios, os trens a vapor dependiam de poços e tanques, e água boa chegava em vagões-pipa.

Cada parada da reta virou uma vila de ferroviários, com nomes de primeiros-ministros australianos, como Cook, Hughes, Barton e Reid. As famílias recebiam água, comida e correio pelo próprio trem, o Tea and Sugar (chá e açúcar), um armazém sobre trilhos que passava uma vez por semana.

Durante décadas, a viagem completa exigiu trocar de trem, porque cada estado usava uma bitola (a distância entre os dois trilhos) diferente. Só com a padronização da bitola surgiu, em 1970, o Indian Pacific, que faz Sydney a Perth no mesmo vagão.

A reta de 478 km segue no traçado da rede australiana em 2026. Reconfira o trecho entre Ooldea e Loongana no mapa da Australian Rail Track Corporation, a estatal que administra os trilhos, em artc.com.au, antes da temporada de baleias na Head of Bight, que abre em junho de 2027.

 
 
Quiz da edição

De acordo com a edição, qual é a extensão do trecho reto de trilho na travessia da planície de Nullarbor?

A146,6 km
B1.693 km
C478 km
D1.100 km

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