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Triple Divide Peak, o pico que reparte a neve entre 3 mares

Em Montana, a 2.444 metros, a mesma encosta manda água para o Pacífico, para o Golfo do México e para a baía de Hudson.

Mapa do Triple Divide Peak, em Montana, com os três riachos e as três bacias.

Triple Divide Peak, 2.444 metros, em Montana

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O vento do oeste chega frio e cheira a pedra molhada. No alto do passo, a uns 2.250 metros, a neve de junho ainda cobre a trilha em placas duras, e cada passo faz um estalo seco, como pisar em casca de pão.

Acima do passo sobe uma pirâmide de rocha avermelhada, riscada de faixas cinzentas. Na face norte, um campo de neve se agarra à encosta e pinga sem parar sob o sol da tarde. O ar é tão seco que o suor some antes de molhar a camisa.

A água escorre em fios finos pela pedra. Alguns metros abaixo, os fios se juntam e formam três riachos pequenos, de água transparente e gelada, que descem em direções diferentes.

Um vai para oeste, por um vale fundo coberto de abetos. Outro desce para sudeste, rumo às planícies. O terceiro corre para o norte, na direção de um lago comprido e verde.

Quem enche o cantil num deles bebe uma água que nunca vai encontrar a dos outros dois. Separadas por poucos passos de cascalho, as três correntes só chegam ao mar a milhares de quilômetros umas das outras.

A montanha é o Triple Divide Peak (pico do divisor triplo), no Glacier National Park, em Montana, perto da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. Tem 2.444 metros de altitude e está longe de ser a mais alta da região.

Ainda assim, carrega um título raro. Na mesma encosta, a neve derretida se reparte entre três bacias: a do Pacífico, a do Golfo do México e a da baía de Hudson, no norte do Canadá.

Cabras-das-montanhas pastam no capim ralo da crista, alheias ao fenômeno. Uma marmota assobia de cima de uma laje. Lá embaixo, os três riachos já sumiram entre as árvores.

O mapa abaixo segue os três fios de água, um por um, até o oceano onde eles terminam.

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I  O mapa do dia

Três riachos saindo da mesma pedra

3 bacias numa só encosta, a 2.444 metros.

O Triple Divide Peak fica na cordilheira Lewis, no lado leste do Glacier National Park, parque criado pelo Congresso dos Estados Unidos em 1910 no noroeste de Montana. A fronteira com a província canadense de Alberta passa a menos de 50 km ao norte.

O pico está no cruzamento de duas linhas invisíveis. A primeira é o divisor continental (a crista que separa as águas do Pacífico das águas do Atlântico), que corre pelas Montanhas Rochosas do Alasca ao México.

A segunda é o divisor laurenciano (a linha que separa as águas do Golfo do México das águas da baía de Hudson). Ela sai do pico, atravessa as planícies do norte dos Estados Unidos e segue para leste até a região dos Grandes Lagos.

Onde as duas linhas se tocam, o terreno se divide em três vertentes. Os riachos que nascem ali levam o nome do destino: Pacific Creek, Atlantic Creek e Hudson Bay Creek (riacho do Pacífico, do Atlântico e da baía de Hudson).

O CAMINHO PARA O OESTE

A água do Pacific Creek desce para o vale do Nyack Creek, entra no rio Middle Fork Flathead, passa pelo lago Flathead e pelo rio Clark Fork e chega ao rio Columbia. O Columbia desemboca no Pacífico na divisa entre os estados de Oregon e Washington.

O Atlantic Creek desce para leste, alimenta o Cut Bank Creek e o rio Two Medicine e entra no rio Marias, que deságua no Missouri. O Missouri encontra o Mississippi perto de St. Louis, e o Mississippi termina no Golfo do México, abaixo de Nova Orleans.

A bacia do Mississippi, que recebe o Atlantic Creek, é a maior da América do Norte. Ela drena 31 estados americanos e duas províncias canadenses.

O Hudson Bay Creek corre para o norte até o Red Eagle Creek e o lago St. Mary. Dali, o rio St. Mary cruza a fronteira, entra em Alberta e se junta ao rio Oldman, ao South Saskatchewan e ao Saskatchewan.

O Saskatchewan despeja no lago Winnipeg, em Manitoba. Do lago sai o rio Nelson, que corre mais de 600 km até a baía de Hudson.

O destino final do terceiro riacho tem classificação discutida. A Organização Hidrográfica Internacional trata a baía de Hudson como mar marginal do oceano Ártico, e muitos atlas a colocam no Atlântico Norte. Por essa razão, alguns livros falam em três oceanos e outros em três mares.

A gota que cai no Pacific Creek corre por rios abertos até a costa. A que segue para Hudson pode ficar parada meses ou anos nos lagos do caminho, sobretudo no Winnipeg, um dos maiores lagos de água doce do continente.

 
 

II  O que tem ali

Lama de 1 bilhão de anos no topo

O Triple Divide Peak é feito de rocha sedimentar: camadas de lama e areia que se depositaram no fundo de um mar raso há mais de 1 bilhão de anos. Os geólogos chamam o conjunto de Supergrupo Belt (a pilha de camadas antigas que cobre parte de Montana, Idaho e Alberta).

O vermelho e o verde das faixas vêm do ferro. Onde a lama secou exposta ao ar, o ferro enferrujou e deixou a pedra vermelha; onde ficou debaixo d'água, sem oxigênio, a pedra ficou verde.

Muitas lajes ainda guardam marcas de onda e rachaduras de lama seca do tempo em que eram fundo de mar. Há também estromatólitos (camadas de pedra formadas por colônias de micróbios), entre os fósseis mais antigos à vista no parque.

O GELO QUE SOBRA

O parque recebeu o nome pelas geleiras. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima que havia perto de 150 delas na área em 1850; no levantamento publicado pelo mesmo órgão em 2017, com dados de 2015, só 26 ainda tinham tamanho para contar como geleira ativa.

O Triple Divide Peak não tem geleira grande. O que alimenta os três riachos no verão é a neve acumulada no inverno, que derrete aos poucos entre junho e setembro. Em anos de pouca neve, os fios d'água minguam no fim de agosto.

O acesso é a pé. A trilha mais usada parte da entrada de Cut Bank, no lado leste, e sobe uns 11 km até o Triple Divide Pass, o colo (ponto mais baixo da crista entre dois picos) logo abaixo do cume.

Do passo até o topo não há trilha marcada, só escalada em pedra solta. Poucos visitantes sobem; a maioria para no colo e olha os três vales.

Na crista vivem cabras-das-montanhas, de pelo branco e cascos que agarram na pedra, e carneiros-selvagens de chifre curvo. Ursos-pardos atravessam os vales, e a administração do parque recomenda andar em grupo e levar spray de pimenta.

A leste do parque fica a Reserva Indígena Blackfeet. Para os Blackfeet (Pés-Pretos), o povo que caçava bisões nessas planícies antes da chegada do parque, a cordilheira é a “espinha dorsal do mundo”.

Os Blackfeet cederam a faixa de montanhas ao governo americano em 1895, num acordo de venda. Até hoje a tribo mantém direitos de caça e coleta reivindicados nessa área, tema de disputa nos tribunais.

 

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III  Por que a linha passa ali

Uma laje de rocha que andou 80 km

O divisor continental passa ali porque a cordilheira Lewis é a primeira grande barreira de pedra para quem vem das planícies do leste. A crista é o ponto mais alto entre as bacias, e a água escorre para longe dela pelos dois lados.

A cordilheira inteira está fora do lugar. Há uns 70 milhões de anos, quando a crosta do oeste do continente foi comprimida, uma laje de rocha com vários quilômetros de espessura se descolou e deslizou para leste.

A FALHA DE BAILEY WILLIS

O geólogo americano Bailey Willis descreveu a estrutura em 1902 e a batizou de Lewis Overthrust (falha de empurrão de Lewis). Ali, a rocha de mais de 1 bilhão de anos ficou por cima de rochas do Cretáceo, com menos de 100 milhões de anos, numa ordem invertida.

A laje andou uns 80 km para leste. A borda dela forma as paredes abruptas que sobem direto da planície, como o Chief Mountain, um bloco isolado que a erosão separou do resto da placa.

O gelo deu a forma final. Durante as eras glaciais, geleiras ocupavam os vales e escavavam circos glaciais (anfiteatros cavados pelo gelo) nas encostas. Quando três circos roem uma montanha por lados diferentes, sobra uma pirâmide de faces íngremes, o desenho do Triple Divide Peak.

Cada face da pirâmide despeja a água num vale diferente. Por essa razão, o encontro das bacias cai num ponto tão preciso: são as faces escavadas pelo gelo que decidem para onde a neve escorre.

O divisor laurenciano é bem menos dramático. Nas planícies a leste, ele corre por elevações suaves, morros deixados pelo último manto de gelo, tão baixos que um canal pode mover água de uma bacia para outra.

Foi o que aconteceu no começo do século 20. O Bureau of Reclamation (a agência federal de obras hídricas dos Estados Unidos) abriu o canal de St. Mary, que tira parte da água do rio St. Mary, destinada à baía de Hudson, e a joga no rio Milk, afluente do Missouri.

O título do pico tem rival no Canadá. O Snow Dome, no campo de gelo Columbia, em Alberta, reparte a neve entre o Pacífico, o Ártico pelo rio Mackenzie e a baía de Hudson. Qual dos dois merece o nome de ápice hidrológico (o ponto onde as maiores bacias se encontram) depende de onde cada atlas põe a baía de Hudson.

A trilha até o Triple Divide Pass costuma ficar livre de neve só em julho. O boletim de condições das trilhas do Glacier National Park sai toda semana no site nps.gov/glac: reconfira lá a partir de 1º de junho de 2027, antes de marcar a subida.

 
 
Quiz da edição

Qual é a altitude do Triple Divide Peak, o pico de Montana que reparte a neve entre três mares?

A2.250 metros
B3.100 metros
C2.444 metros
D1.910 metros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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