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São Pedro e São Paulo, as ilhas feitas do manto da Terra

A 1.010 km de Natal, cinco ilhotas mostram ao sol a rocha verde que se forma muito abaixo do fundo do oceano.

Mapa do Arquipélago de São Pedro e São Paulo sobre a zona de fratura de São Paulo, no Atlântico equatorial.

São Pedro e São Paulo, Atlântico equatorial

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O cheiro chega antes da pedra: amônia de guano velho, morna sob o sol do equador. O bote encosta numa laje escura, lisa de algas, e a onda bate por baixo dela com um estalo oco.

Caranguejos vermelhos correm pela rocha em bando. Atobás pousados no chão nem levantam voo quando alguém passa a meio metro. O ar é úmido e salgado, e a camisa gruda nas costas no primeiro minuto em terra.

Não há árvore, nem arbusto, nem capim. Só rocha nua, manchada de branco pelas aves, e o barulho constante do mar quebrando em volta das ilhotas.

O ponto mais alto do conjunto fica a uns 18 metros acima da água. A maior ilhota se percorre a pé em poucos minutos, pulando de laje em laje, com as mãos prontas para segurar na pedra quando a onda sobe.

Em volta, até o horizonte, só oceano. O porto mais próximo fica em Natal, a 1.010 km, e a viagem de barco leva dias.

É o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o pedaço de território brasileiro mais distante do continente, uns 100 km ao norte da linha do Equador. São cinco ilhotas e um punhado de rochedos, quase todos menores que uma praça de bairro.

Quem olha de perto a laje onde o bote encostou vê uma pedra esverdeada, riscada em faixas finas e paralelas, como madeira prensada. Ela não tem as bolhas de gás nem a crosta escura de lava resfriada que formam Fernando de Noronha e o Havaí.

A pedra nasceu dezenas de quilômetros abaixo do fundo do mar. Pertence ao manto terrestre, a camada quente e sólida que fica debaixo da crosta, e quase sempre só chega às mãos de um geólogo dragada do fundo do oceano por um navio.

Ali ela está seca, ao sol, servindo de poleiro para atobás.

O mapa abaixo localiza as ilhotas e mostra a fenda gigante do fundo do Atlântico sobre a qual elas estão.

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I  O mapa do dia

Cinco ilhotas sobre uma fenda do oceano

Rocha do manto a 1.010 km de Natal.

O arquipélago fica a 0°55' de latitude norte e 29°20' de longitude oeste, no Atlântico equatorial. Pertence ao estado de Pernambuco, como Fernando de Noronha, e é o único território brasileiro no hemisfério norte fora do continente.

A ilhota maior se chama Belmonte e abriga a única construção do lugar. Entre ela e as vizinhas, os rochedos formam uma enseada estreita, de água mais calma, onde o barco de apoio consegue amarrar.

Debaixo da água, as ilhotas são o topo de um morro submarino que sobe de uns 4.000 metros de profundidade. Medido a partir do fundo, o paredão tem dez vezes a altura do Pão de Açúcar, e só os últimos metros aparecem.

A CICATRIZ DO FUNDO

O morro está sobre a zona de fratura de São Paulo, uma das maiores falhas transformantes (rachaduras que cortam de lado a cordilheira do fundo do mar) do Atlântico. Ela desloca a dorsal mesoatlântica (a cordilheira submersa onde as placas se afastam) em centenas de quilômetros no sentido leste e oeste.

No mapa do relevo do fundo, a dorsal aparece como uma costura em zigue-zague descendo o Atlântico de norte a sul. Perto do Equador, a costura dá um salto lateral, e a ponte entre os dois trechos é a falha.

As placas Sul-Americana e Africana se afastam poucos centímetros por ano ao longo da dorsal. Na falha transformante, os dois blocos raspam um no outro de lado, como dois livros deslizando colados numa estante.

O arquipélago fica justo nesse trecho de atrito. Por essa razão, a região treme com frequência, e os sismógrafos da rede mundial registram ali tremores pequenos e médios ao longo do ano.

A posição remota também dá ao Brasil um direito no mar. Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, assinada em 1982, uma ilha capaz de sustentar vida humana gera zona econômica exclusiva (faixa de mar de 200 milhas náuticas onde só o país explora peixe e minério).

Rochedo sem gente gera só o mar territorial, de 12 milhas. A Marinha do Brasil calcula em uns 450 mil km² a área de mar que o arquipélago, ocupado, acrescenta à zona brasileira.

A área equivale a mais de quatro vezes o território de Pernambuco. Toda ela depende de as ilhotas terem moradores.

 
 

II  O que tem ali

Atobás, caranguejos e quatro pesquisadores

Gente mora ali em turnos. A Marinha do Brasil mantém na ilhota Belmonte, desde 1998, a Estação Científica do Arquipélago, uma casa de madeira e metal erguida sobre a rocha.

UMA CASA SOBRE A ROCHA

A estação faz parte do Proarquipélago (Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo), criado em 1996 pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar. Quatro pesquisadores se revezam em turnos de 15 dias, sem interrupção, e a ocupação contínua é o que sustenta a zona econômica.

Água doce não existe em nenhuma ilhota. A estação capta a chuva do telhado e usa um dessalinizador (aparelho que tira o sal da água do mar); comida, gás e peças chegam no barco de apoio que sai de Natal.

Nenhuma planta com raiz, caule e folha cresce no arquipélago. Na rocha vivem só algas, liquens (parceria de fungo e alga que gruda na pedra) e fungos, e o branco das lajes é guano acumulado.

As aves fazem ninho direto na pedra. O atobá-marrom (Sula leucogaster) é o mais visível; o trinta-réis-preto (Anous stolidus) e a viuvinha (Anous minutus) disputam as saliências mais altas.

O caranguejo Grapsus grapsus, de carapaça vermelha e pernas compridas, é o dono do chão. Ele come ovos, filhotes caídos, algas e restos de peixe trazidos pelas aves.

Na água, a vida é mais farta. O peixe-borboleta Prognathodes obliquus, listrado de preto e amarelo, só existe em volta destas ilhotas, e cardumes de peixe-voador atraem atuns e tubarões.

Barcos de pesca de Natal e do litoral do Nordeste trabalham em volta do arquipélago atrás de albacora (atum de nadadeira amarela). O morro submarino concentra comida e peixe num oceano pobre em nutrientes.

O primeiro registro científico do lugar veio de um visitante famoso. Charles Darwin desembarcou ali em 16 de fevereiro de 1832, na viagem do navio Beagle, e passou algumas horas recolhendo pedras e bichos.

No relato da viagem, publicado em 1839, Darwin anotou que as rochas não eram vulcânicas nem de coral, um caso raro entre as ilhas do Atlântico. Contou só duas aves, o atobá e o trinta-réis, além de caranguejos, aranhas e insetos.

Darwin não soube explicar a origem da pedra. A resposta exigia saber que o fundo do mar se abre e se move, ideia aceita pelos geólogos só na década de 1960.

 

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III  Por que a linha passa ali

O manto espremido para cima pela falha

Na maior parte da dorsal mesoatlântica, o manto sobe devagar sob a fenda, derrete em parte e vira lava basáltica, que esfria e forma o piso novo do oceano. Esse piso cobre o manto com uns 6 km de crosta.

Na zona de fratura de São Paulo, o derretimento foi pequeno. A falha transformante é um trecho frio da dorsal: ali as placas raspam de lado, e pouca rocha chega a fundir.

A pedra das ilhotas é peridotito (rocha do manto, verde-escura, feita sobretudo do mineral olivina). As faixas paralelas que lembram madeira prensada são a marca do milonito (rocha esmagada e esticada pelo atrito de uma falha).

O APERTO LATERAL

Na zona de fratura de São Paulo, os blocos não deslizam em linha reta: o traçado faz uma curva, e os dois lados se comprimem enquanto raspam. Os geólogos chamam o movimento de transpressão (aperto de lado somado ao deslizamento), e é ele que espreme uma lasca do manto para cima, até furar a superfície do mar.

A subida ainda acontece. O geólogo Thomas Campos, da UFRN, e colegas publicaram na revista Marine Geology, em 2010, que as ilhotas sobem 1,5 milímetro por ano, medido pela idade de conchas e algas fósseis presas na rocha acima do nível atual do mar.

A água do mar ajuda. Ela entra pelas fraturas e transforma a olivina em serpentina (mineral esverdeado e liso ao toque), num processo chamado serpentinização. A rocha incha, fica mais leve e sobe com mais facilidade.

Daí a laje do desembarque escorrega sob a bota mesmo seca: parte do brilho verde é serpentina.

Manto exposto acima do mar é raro no planeta. A ilha de Zabargad, no mar Vermelho, no Egito, também mostra peridotito à vista, mas fica num mar estreito, longe de uma dorsal oceânica aberta.

As faixas de manto vistas em Omã ou nos Alpes chegaram ao continente empurradas por colisões antigas e já não estão em atividade. Em São Pedro e São Paulo, o manto sobe hoje, no ponto exato onde a dorsal se abre.

A linha passa ali por uma soma de acasos: a dorsal se rasgou de lado, a falha fez uma curva, e a curva apertou o manto até ele aparecer. Os tremores registrados na região mostram a falha ainda em movimento.

A escala de expedições do Proarquipélago para o ano seguinte sai na página da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, em marinha.mil.br/secirm. Reconfira lá em fevereiro de 2027, antes de planejar qualquer pesquisa no arquipélago.

 
 
Quiz da edição

Segundo o estudo da revista Marine Geology, de 2010, citado na edição, quanto as ilhotas de São Pedro e São Paulo sobem por ano?

A15 centímetros
B1,5 milímetro
C15 milímetros
D0,5 milímetro

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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