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Os 264 de Tristão da Cunha voltaram ao vulcão

Em 1961 uma fenda abriu junto ao povoado. Dois anos depois, quase todos voltaram a uma ilha onde a terra é de todos.

Povoado de Edinburgh of the Seven Seas ao pé do vulcão de Tristão da Cunha.

Tristão da Cunha, Atlântico Sul

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O chão tremia havia semanas. Nas casas de pedra, a louça chacoalhava na prateleira à noite, e o cheiro de enxofre começou a subir do pasto atrás das últimas cercas.

Numa manhã de outubro, em 1961, o morro baixo a leste do povoado rachou. Da fenda saía vapor quente, e pedras soltas rolavam encosta abaixo com um barulho seco, como carvão despejado de um saco.

O povoado se chama Edinburgh of the Seven Seas (Edimburgo dos Sete Mares), e era o único da ilha de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul. Moravam ali 264 pessoas.

O administrador britânico reuniu todos. Ninguém tinha avião, e não havia pista onde pousar um. O caminho possível era o mar, nos barcos de lona e madeira que os ilhéus usavam para pescar lagosta.

Na tarde de 10 de outubro, as famílias desceram à praia com o que cabia nos braços: cobertores, uma panela, a Bíblia da casa. Os barcos levaram todos até a ilha Nightingale, uns 35 quilômetros ao sul, onde passaram a noite ao relento entre ninhos de aves marinhas.

No dia seguinte, o navio holandês Tjisadane, que passava pela região, recolheu os 264 e os deixou na Cidade do Cabo, na África do Sul. Dali, o transatlântico Stirling Castle os levou a Southampton, na Inglaterra.

O governo britânico os instalou num antigo acampamento militar em Calshot, na costa sul inglesa. Os homens arrumaram emprego em fábricas; as crianças entraram em escolas com aquecimento central e televisão.

Jornais de Londres esperavam ver os ilhéus encantados com a vida moderna. Em 1962, a maioria pediu para voltar.

Em 1963, quase todos voltaram. Desembarcaram numa ilha onde nenhum morador é dono do pasto onde a vaca come, e onde nenhum estrangeiro consegue comprar terreno.

Para entender por que alguém troca a Inglaterra por esse pedaço de rocha, o primeiro passo é medir a distância entre ele e o resto do mundo.

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I  O mapa do dia

A 2.400 quilômetros do vizinho

Do único povoado da ilha até os vizinhos no mapa.

Tristão da Cunha fica no Atlântico Sul, a 37 graus de latitude sul, quase na mesma altura de Buenos Aires e da Cidade do Cabo.

A ilha é redonda, com uns 12 quilômetros de diâmetro e perto de 98 quilômetros quadrados de área. É um vulcão inteiro saindo do mar.

O topo se chama Queen Mary's Peak (Pico da Rainha Maria) e chega a 2.062 metros. Em boa parte do inverno austral, a cratera do cume guarda neve e um pequeno lago.

O vizinho habitado mais próximo é Santa Helena, a ilha onde Napoleão Bonaparte passou o exílio, a uns 2.400 quilômetros ao norte. A Cidade do Cabo está a uns 2.800 quilômetros a leste.

A costa do Brasil fica mais longe ainda, a mais de 3.000 quilômetros a oeste. Por essas distâncias, Tristão da Cunha costuma aparecer nos atlas como a ilha habitada mais isolada do planeta.

UMA FAIXA PLANA SÓ

Quase toda a costa termina em penhascos de 300 a 600 metros, caindo direto no mar.

O povoado ocupa a única planície grande da ilha, uma faixa de capim no lado noroeste, entre o paredão e a praia. Ali cabem as casas, a igreja, a escola, o hospital e o porto.

Uns 3 quilômetros a oeste ficam os Potato Patches (canteiros de batata), terrenos cercados por muros de pedra onde cada família planta a batata do ano.

Uma estrada estreita liga o povoado aos canteiros, a única da ilha. É percorrida a pé, de trator ou nos poucos carros que chegaram de navio, desmontados no porão.

A ilha não tem aeroporto, e a montanha não deixa espaço para pista. O acesso é por navio a partir da Cidade do Cabo, uma travessia de cerca de seis dias, com poucas viagens por ano.

O porto é pequeno e aberto às ondas do oeste. Em dia de mar grosso, o navio fica ancorado ao largo esperando a calmaria, às vezes por uma semana, e a carga só desce quando o tempo deixa.

Tristão da Cunha pertence ao Reino Unido. Faz parte do território ultramarino de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, com um administrador nomeado por Londres e um conselho de ilhéus eleito.

O arquipélago inclui mais três ilhas sem gente: Nightingale, a Inaccessible (Inacessível) e a Gough, mais ao sul, onde funciona uma estação meteorológica da África do Sul.

 
 

II  O que tem ali

Sete sobrenomes e uma ilha comunal

O navegador português Tristão da Cunha avistou a ilha em 1506, a caminho da Índia, e emprestou a ela o próprio nome. O mar bravo impediu o desembarque.

Por três séculos, a ilha recebeu só baleeiros e caçadores de foca de passagem. A ocupação fixa começou em 1816, por causa de Napoleão.

A GUARNIÇÃO DE 1816

Com Napoleão preso em Santa Helena, o Reino Unido mandou soldados a Tristão da Cunha para impedir qualquer resgate francês vindo do sul.

A guarnição saiu em 1817. O cabo escocês William Glass pediu para ficar, com a mulher e os filhos, e dois pedreiros ficaram com ele.

Glass redigiu um acordo com os outros moradores: ninguém seria superior a ninguém, e o que a ilha produzisse seria dividido. Ali começou a regra da terra comum.

Náufragos e marinheiros foram se juntando ao grupo. Hoje a população inteira, umas 240 pessoas, divide só sete sobrenomes: Glass, Green, Hagan, Lavarello, Repetto, Rogers e Swain.

Os Lavarello e os Repetto descendem de dois marinheiros italianos que naufragaram ali em 1892. Os Green vêm de um holandês, os Rogers e os Hagan de baleeiros americanos.

A lei local diz assim: toda a terra pertence à comunidade, e nenhum estrangeiro pode comprar terreno nem se mudar para lá sem a aprovação do conselho dos ilhéus.

Cada família recebe o uso de uma casa, de um canteiro de batata e de uma cota de gado. A cota existe porque o pasto é pouco: o conselho controla quantas vacas e ovelhas cada casa pode criar.

O dinheiro vem do mar. A lagosta de Tristão (Jasus tristani, uma lagosta sem pinças das águas frias do Atlântico Sul) é pescada em volta das ilhas e vendida congelada para o Japão e os Estados Unidos.

A outra fonte de renda são os selos postais. Colecionadores do mundo inteiro compram as séries emitidas pela ilha, e a venda ajuda a pagar escola e hospital.

A erupção de 1961 destruiu a fábrica de lagosta e a praia de desembarque. Uma expedição da Royal Society (a academia de ciências britânica) foi à ilha em 1962 e encontrou as casas de pé.

O primeiro grupo de ilhéus voltou naquele ano para avaliar os estragos. Em 1963, o grosso das famílias desembarcou de novo. Alguns ficaram na Inglaterra e se casaram por lá.

 

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III  Por que a linha passa ali

Um ponto quente a leste da dorsal

A ilha existe por causa de uma linha no fundo do mar e de uma pluma de rocha quente que sobe do manto da Terra.

A linha é a Dorsal Mesoatlântica, uma cordilheira submersa que corta o Atlântico de norte a sul. Ali, a placa da América do Sul e a placa da África se afastam alguns centímetros por ano.

Na fenda da dorsal, rocha derretida sobe e endurece, e o fundo do oceano cresce para os dois lados. Tristão da Cunha fica a uns 400 quilômetros a leste dessa costura, sobre a placa africana.

O PONTO QUENTE

Debaixo da ilha existe um ponto quente (hotspot, uma coluna de magma que sobe do fundo do manto e fura a placa por baixo).

O ponto quente fica parado, mas a placa anda por cima dele. Cada vulcão nasce, cresce e é carregado para longe, enquanto outro surge no lugar.

O rastro aparece no mapa do relevo submarino em quatro passos:

1. Há mais de cem milhões de anos, o mesmo ponto quente estava embaixo de um continente só, antes de América do Sul e África se separarem.

2. A lava dessa época cobriu o sul do Brasil, e hoje forma as rochas escuras da Serra Geral, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

3. Quando o Atlântico abriu, o ponto quente deixou duas trilhas de montanhas submarinas: a Elevação do Rio Grande, perto do Brasil, e a Cordilheira de Walvis, que chega à costa da Namíbia.

4. A ponta mais nova dessas trilhas é Tristão da Cunha, ainda ativa, com o pico de 2.062 metros saindo da água.

A fenda de 1961 abriu justamente na planície do povoado, a parte mais baixa e mais nova da ilha. A lava cobriu a fábrica e a praia, e parou a poucas dezenas de metros das primeiras casas.

O cone que nasceu ali ganhou um morro próprio, ainda morno ao toque nos primeiros anos. Os ilhéus voltaram a plantar batata a poucos quilômetros dele.

A ilha juntou, num círculo de 12 quilômetros, a rocha mais nova de uma trilha que começa nas pedras do sul do Brasil e uma lei de terra que não mudou desde o acordo de William Glass.

O navio de abastecimento sai da Cidade do Cabo poucas vezes por ano, e o calendário das viagens de 2027 aparece no site oficial da ilha, tristandc.com. Reconfira as datas lá em janeiro de 2027, quando o governo local publica a escala do ano.

 
 
Quiz da edição

Quando deixaram Tristão da Cunha em outubro de 1961, os 264 moradores passaram a primeira noite ao relento em qual lugar, antes de serem recolhidos por um navio holandês?

ANa ilha Inacessível, mais ao sul do arquipélago
BNa ilha Nightingale, entre ninhos de aves marinhas
CNo porto da Cidade do Cabo, já na África do Sul
DNa ilha Gough, onde fica a estação meteorológica

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