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Os 2.060 km² que Egito e Sudão recusam
Bir Tawil não entra na lista de nenhum Estado, e a recusa protege outra faixa dez vezes maior, com porto no Mar Vermelho.
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O trapézio de areia que nenhum país assina
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Terra sem dono é uma categoria que o mapa moderno quase extinguiu. Cada faixa de deserto, cada ilha de pedra e cada geleira aparece dentro de uma fronteira, com um Estado responsável por ela em algum registro oficial.
O que sobra fora dessa contagem cabe em duas linhas. Uma fatia da Antártida chamada Terra de Marie Byrd, vazia porque o continente inteiro está congelado por tratado. E um pedaço de deserto entre o Egito e o Sudão, no continente que mais brigou por fronteira no último século.
O nome dele é Bir Tawil. São 2.060 quilômetros quadrados de areia e pedra, quase uma vez e meia a cidade de São Paulo, no meio do deserto Núbio. Nenhum dos dois vizinhos reivindica a área, e a recusa dos dois está registrada em documento.
A explicação fácil seria o valor do terreno. Deserto sem água, sem estrada e sem morador não valeria a briga. A explicação não para de pé: Estados brigam por rochedo de duzentos metros no meio do mar, por banco de areia que aparece na maré baixa, por ilha sem porto nem água doce.
O que trava a conversa fica a leste, na beira do Mar Vermelho. Ali existe outra faixa de terra, dez vezes maior, com porto, pesca e dezenas de milhares de moradores. As duas áreas estão amarradas à mesma escolha: são duas linhas de fronteira possíveis, traçadas com três anos de diferença, e cada linha entrega uma das faixas a um país e a outra ao vizinho.
Aceitar Bir Tawil, para qualquer um dos dois, é assinar embaixo da linha que dá a faixa grande ao outro lado. A recusa custa um deserto e protege vinte mil quilômetros quadrados com saída para o mar.
O mapa de hoje é um trapézio que cabe em qualquer atlas escolar e não aparece na lista de nenhum país. Onde ele fica, o que existe dentro dele e por que duas linhas traçadas em Londres continuam decidindo o assunto mais de cem anos depois.
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I O mapa do dia
A terra que sobra entre duas linhas
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Um trapézio de areia que nenhum dos dois vizinhos coloca na própria lista.
A borda norte de Bir Tawil corre exatamente sobre o paralelo 22, uma reta que o Egito e o Sudão herdaram de um acordo assinado em 1899. A borda sul desce abaixo dessa reta e volta a subir, num degrau desenhado três anos depois.
O desenho fecha um trapézio de lados desiguais: perto de 95 quilômetros na borda de cima, cerca de 46 na de baixo, 2.060 quilômetros quadrados de área. O centro fica a 21 graus e 52 minutos de latitude norte, 33 graus e 44 minutos de longitude leste.
O lugar é deserto Núbio puro. Do lago Nasser, o corpo de água mais próximo, são algumas centenas de quilômetros a leste. Nenhuma estrada asfaltada entra na área, nenhuma linha de transmissão, nenhum posto de fronteira. Quem chega ali chega de fora, por pista aberta pelo próprio veículo.
As duas linhas que cercam o trapézio nasceram do mesmo governo, com propósitos diferentes. A de 1899 é política: o acordo que criou o Sudão anglo-egípcio cortou o mapa no paralelo 22 e não olhou o terreno.
A de 1902 é administrativa. Londres redesenhou o traçado seguindo quem usava cada pedaço. O pasto ao sul do paralelo era percorrido pelos ababda, tribo com base perto de Assuã, e ficou sob a administração do Cairo.
No leste aconteceu o contrário. A faixa ao norte do paralelo era percorrida pelos bisharin e por outros grupos beja, ligados ao sul, e passou para a administração de Cartum.
Daí sai a armadilha. Pela linha de 1899, Bir Tawil está do lado sudanês e a faixa costeira do lado egípcio. Pela linha de 1902, Bir Tawil está do lado egípcio e a faixa costeira do lado sudanês.
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Bir Tawil não é terra disputada. É o contrário exato: terra recusada por escrito pelos dois vizinhos, e o mapa oficial de cada um dos dois começa depois dela.
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O Egito defende a linha de 1899 e não reivindica Bir Tawil. O Sudão defende a linha de 1902 e também não reivindica. Cada um recusa a área que a própria linha entrega ao outro.
A geometria fecha a saída. As duas manchas se tocam num único ponto sobre o paralelo, uma acima e outra abaixo da reta, e nenhum dos dois países fica com as duas sem trocar de argumento no meio do caminho.
Não existe patrulha permanente, alfândega ou bandeira hasteada dentro do trapézio. O que existe é um vazio administrativo que os dois lados sustentam de propósito.
A fronteira entre os dois países tem 1.276 quilômetros e está resolvida em quase toda a extensão. A discussão inteira se concentra em duas manchas que somam menos de 23 mil quilômetros quadrados, e uma delas ninguém quer.
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II O que tem ali
Um poço, uma montanha, nenhum morador
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O nome vem de um poço. Bir Tawil quer dizer poço longo em árabe, e o poço é a coisa mais parecida com um endereço dentro do trapézio inteiro.
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O terreno é planalto de arenito e cascalho, cortado por vales secos que só carregam água em ano de chuva forte. Boa parte da superfície é pedra exposta, chão que aguenta caminhonete e não aguenta plantação.
O ponto mais alto perto do centro é o Jabal Tawil, que passa dos 450 metros. No norte da área sobe o Jabal Hagar az Zarqa, acima dos 650 metros, e a diferença de altura separa uma paisagem clara de areia de uma paisagem de pedra escura, visível de longe.
Chuva ali se mede em poucos milímetros por ano, e em vários anos não se mede nada. Depois de uma chuva de verdade, o fundo dos vales verdeja por algumas semanas e some de novo.
É nessa janela que a área recebe visita. Pastores ababda e bisharin entram com camelos e cabras, ficam enquanto o pasto durar e saem antes que o poço baixe.
O trajeto deles não respeita a fronteira do mapa, e nunca respeitou. A rota do pasto foi desenhada pela chuva, não por acordo assinado em Londres.
Morador permanente não existe. Nenhum censo registra habitante fixo, nenhuma escola, nenhum posto de saúde, nenhum endereço postal dentro da área.
A ausência de gente fixa é justamente o que mantém o problema pequeno. Não existe população para reclamar de qual governo manda, nem imposto para cobrar, nem eleição para organizar.
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"O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar."
Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, 1943.
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O vazio administrativo atraiu um tipo específico de visitante. Em 2014 um americano da Virgínia viajou até o trapézio, fincou uma bandeira de família na areia e anunciou o Reino do Norte do Sudão, para dar à filha o título de princesa.
Em 2017 um empresário indiano repetiu a cena com outro nome e outra bandeira. Nenhum dos dois episódios mudou uma linha de mapa, porque soberania não nasce de bandeira fincada por particular.
O direito internacional cobra ocupação efetiva, contínua e reconhecida por outros Estados. Nenhum país reconheceu os dois anúncios, e Cairo e Cartum trataram o assunto como folclore.
No deserto ao redor existe garimpo de ouro, atividade que cresceu nos dois lados da fronteira na última década e que dá ao terreno um valor que os mapas antigos não previam.
Ainda assim, nenhum dos dois países mandou geólogo oficial para dentro da área, porque entrar com equipe do Estado seria um gesto de reivindicação.
Nada dessa lista muda a conta. O que existe dentro do trapézio vale menos, para os dois governos, do que o preço de assinar por ele.
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