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Os 125 metros abaixo do mar onde a África racha
Na depressão de Danakil três placas se afastam ao mesmo tempo, e em 2005 uma fenda de 60 quilômetros se abriu em poucos dias.
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O chão salgado que afunda entre três placas
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Em setembro de 2005, o chão do norte da Etiópia começou a se abrir. Perto do vulcão Dabbahu, no deserto Afar, tremor atrás de tremor sacudiu a planície durante dias, e uma coluna de cinza subiu de uma boca que não existia no mapa até aquela semana.
Os moradores da região saíram andando com os rebanhos. Quem voltou depois encontrou um terreno diferente do que tinha deixado, cortado por rachaduras paralelas que seguiam todas a mesma direção.
O radar de satélite mediu o tamanho do estrago. A fenda acompanhava um segmento de 60 quilômetros, e em alguns trechos as duas bordas terminaram 8 metros mais distantes uma da outra do que estavam antes.
Embaixo, cerca de 2,5 quilômetros cúbicos de magma tinham subido e se espremido entre 2 e 9 quilômetros de profundidade, empurrando a rocha para os lados como uma lâmina. O episódio produziu 163 terremotos registrados.
Movimento de placa se mede em milímetros por ano, no mesmo ritmo em que cresce uma unha. Ali, em poucos dias, o terreno andou o equivalente a séculos de afastamento.
A cena não foi um acidente de um vulcão qualquer. Foi um continente começando a se partir com a parte de cima ainda no seco, à vista de quem estava perto, em vez de escondida sob quilômetros de água como acontece em toda dorsal do fundo do mar.
O lugar tem nome e endereço: depressão de Danakil, nordeste da Etiópia, na fronteira com a Eritreia. O chão dela desce até 125 metros abaixo do nível do mar, e o mar mais próximo está a poucas dezenas de quilômetros de distância, atrás de uma barreira de rocha.
Enquanto a barreira aguentar, a bacia segue como deserto de sal, com temperatura média que nenhuma cidade do planeta enfrenta e um lago de lava aceso há mais de um século.
O mapa de hoje é essa bacia. Onde ela fica, o que existe dentro dela e por que a linha que a rasga passa exatamente ali.
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I O mapa do dia
O triângulo que três placas puxam
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Um deserto que desce enquanto as bordas sobem.
A depressão de Danakil ocupa o canto norte do triângulo Afar, uma bacia de perto de 200 mil quilômetros quadrados repartida entre Etiópia, Eritreia e Djibuti. É um dos raríssimos pontos do planeta onde o encontro de três limites de placa fica em terra firme, acima da água.
A bacia tem cerca de 200 quilômetros de comprimento por 50 a 60 de largura, encaixada entre duas paredes. A oeste sobe o platô etíope, que passa dos 2.000 metros em poucos quilômetros de escarpa.
A leste corre a cordilheira Danakil, um bloco alongado e estreito de rocha que separa a bacia do Mar Vermelho. Entre as duas paredes o chão despenca.
Perto de Dallol e do lago Karum fica o ponto mais baixo, a 125 metros abaixo do nível do mar. A superfície ali é uma planície branca de sal que reflete o sol como neve suja.
As três placas que se encontram embaixo são a núbia, que carrega quase toda a África, a somali, que carrega o chifre do continente, e a arábica, do outro lado do Mar Vermelho. Cada uma puxa para um lado diferente.
A Arábia se afasta da África a algo entre 15 e 20 milímetros por ano. A placa somali se separa da núbia mais devagar, perto de 5 a 6 milímetros por ano no rifte etíope, e a soma das três tensões cai toda no mesmo canto de deserto.
Puxar crosta tem consequência mecânica direta. A rocha estica, afina e quebra em blocos que descem entre falhas paralelas, e a bacia inteira funciona como um degrau afundado no meio de dois ombros levantados.
A conta aparece na espessura. Sob o platô etíope, a crosta continental tem de 35 a 40 quilômetros. Sob o eixo de Danakil, ela caiu para algo entre 15 e 25, com material vulcânico ocupando o lugar do que era continente.
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O chão de Danakil não afundou porque o mar recuou. Ele afundou porque a crosta embaixo está sendo esticada por três lados ao mesmo tempo, e crosta esticada afina, quebra e cede.
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O rio Awash desce do platô, entra na bacia e nunca chega ao mar. Ele termina no lago Abbe, na fronteira com o Djibuti, onde a água evapora na mesma velocidade em que chega.
A parte mais baixa do continente não tem para onde escorrer. Tudo o que entra fica, evapora e deixa para trás o que carregava dissolvido.
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II O que tem ali
Sal, ácido e um lago de lava
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O sal debaixo dos pés é a assinatura de um mar que já esteve aqui. O Mar Vermelho entrou na bacia mais de uma vez, ficou preso quando o caminho fechou e evaporou, deixando camada sobre camada de evaporito.
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A planície do lago Karum é a parte visível da conta. Em trechos da bacia a espessura de sal enterrado passa de 500 metros, empilhada em ciclos que se repetem na mesma ordem sempre que o mar entra e some.
O sal virou economia local. Os afar cortam a crosta em placas retangulares com machado e vara de ferro, no chão, com o termômetro passando de 45 graus.
As placas viram carga de camelo e sobem a escarpa em caravana até Berahile e Mekele, no planalto. Durante séculos a barra de sal serviu de moeda na Etiópia, e o valor subia com a distância da bacia.
O calor tem recorde registrado. Dallol marcou a maior temperatura média anual já medida em lugar com gente morando: 34,4 graus entre 1960 e 1966. No verão a máxima passa dos 48.
A cratera de Dallol nasceu de uma explosão de vapor em 1926, quando magma basáltico encontrou a camada de sal e a salmoura presa embaixo dela. O campo hidrotermal em volta é amarelo, verde e laranja.
A cor vem da química. A salmoura que sobe é quente e ácida, com pH perto de zero, carregada de ferro, enxofre e potássio, e cada mineral pinta a poça de um tom ao encontrar o ar.
Em 2019, um grupo de pesquisadores testou as poças mais extremas do campo em busca de micro-organismo e não encontrou nenhum. A combinação de acidez, sal de magnésio e calor passou do limite do que a vida conhecida aguenta.
Ao sul da planície fica o Erta Ale, vulcão em escudo de 613 metros com um lago de lava permanente na cratera, aceso desde 1906. Lago de lava de longa duração existe em menos de dez lugares no mundo.
A mesma bacia que afunda também guarda o que cai dentro dela. No vale do Awash, dentro do mesmo triângulo Afar, o sedimento entregou em 1974 o esqueleto parcial de Lucy, com 3,2 milhões de anos, porque o terreno que desce enterra rápido e preserva.
O chão funciona como página. Cada camada de sal, cinza e lama registra um momento em ordem, e a fenda que corta a bacia rasga a página no meio.
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"É como se fôssemos juntar de novo os pedaços rasgados de um jornal, encaixando as bordas, e depois conferir se as linhas impressas seguem sem quebra."
Alfred Wegener, A Origem dos Continentes e Oceanos, 1929.
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Wegener escreveu a frase para defender que os continentes já estiveram grudados, e usou o encaixe das costas do Atlântico como prova. Danakil mostra a operação contrária, com o jornal rasgando no presente.
Nada do que aparece na superfície explica a superfície. O sal, o ácido e a lava são sintoma. A causa está embaixo, na crosta que perdeu metade da espessura.
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