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Os 106 quilômetros sem estrada entre as Américas

A Pan-Americana para em Yaviza, no Panamá, e só volta na Colômbia depois de serra, pântano e floresta.

Floresta densa e rio barrento no Darién, entre Panamá e Colômbia.

Onde o asfalto some, no Darién panamenho

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A lama chega ao tornozelo antes do fim da última rua asfaltada. Em Yaviza, vila da província de Darién, no leste do Panamá, o asfalto termina numa rampa de concreto sobre o rio Chucunaque, e o ar úmido gruda a camisa nas costas antes das oito da manhã.

Ali para a Rodovia Pan-Americana, a rede de estradas que liga o Alasca ao sul da Argentina. Quem sai de Prudhoe Bay, no litoral ártico, dirige mais de dez mil quilômetros quase sem interrupção até chegar a esse ponto. Depois de Yaviza, a estrada acaba.

Yaviza tem poucos milhares de moradores, um posto policial na entrada e um porto de canoas que leva gente e carga rio acima. Uma placa na saída da vila marca o fim da rodovia.

Faltam cerca de 106 quilômetros de pântano, rio e floresta até a primeira estrada colombiana. O trecho tem nome nos mapas: Tampão do Darién, do espanhol Tapón del Darién (tampão no sentido de rolha, a peça que fecha a garrafa).

Nenhum carro atravessa essa faixa por terra. Quem viaja de automóvel entre as duas Américas embarca o veículo num navio em Colón ou na Cidade do Panamá e o recebe de volta em Cartagena, na Colômbia, depois de alguns dias de mar.

Pé humano atravessa. Nos últimos anos, centenas de milhares de migrantes caminharam por essa floresta rumo ao norte, em jornadas de uma semana ou mais, com lama até o joelho, rios cheios e encostas escorregadias.

Uma estrada que cruza catorze países e trava num único trecho de floresta guarda três respostas. Onde exatamente o asfalto termina e recomeça. Quem vive na mata que a obra nunca cortou. E por que a rodovia ficou incompleta por mais de cinquenta anos.

A primeira resposta começa pelo traçado da Pan-Americana, que junta dezenas de estradas nacionais sob um nome só e tem dois pontos finais onde se esperaria um.

Continue lendo ↓

 
 

I  O mapa do dia

I, Onde o asfalto acaba e recomeça

Do Ártico a Yaviza, e de Urabá à Terra do Fogo.

A Rodovia Pan-Americana nasceu no papel em 1923, na Quinta Conferência Internacional dos Estados Americanos, em Santiago do Chile, que propôs uma estrada ligando os países do continente. Ela nunca foi obra de um governo só: cada país construiu o seu trecho e aceitou o nome comum.

Nos Estados Unidos e no Canadá, o nome quase não aparece nas placas. O motorista que parte do Alasca segue pela Dalton Highway e pela Alaska Highway, desce pelo México e cruza a América Central pela Interamericana, como os centro-americanos chamam o trecho deles.

No Panamá, a rodovia passa pela capital, cruza o canal pela Ponte das Américas, inaugurada em 1962, e segue para leste. A pavimentação até Yaviza avançou aos poucos nas décadas seguintes, e a vila virou o último ponto alcançável de carro antes da Colômbia.

Na Colômbia, a malha rodoviária recomeça na região de Urabá, perto da cidade portuária de Turbo. Dali para o sul, a Pan-Americana atravessa Colômbia, Equador e Peru, desce o Chile até Puerto Montt, e ramais seguem até a Terra do Fogo, na Argentina.

O QUE CABE NOS 106 QUILÔMETROS

Entre Yaviza e as primeiras estradas colombianas há uma serra, a bacia do rio Chucunaque e o delta pantanoso do rio Atrato. Nenhuma via pavimentada cruza a fronteira entre os dois países.

A fronteira segue a Serranía del Darién (serra do Darién), uma cordilheira baixa coberta de floresta que corre paralela à costa do Caribe. Os picos são modestos, mas as encostas são íngremes e ficam encharcadas quase o ano inteiro.

Na Colômbia, o rio Atrato espalha um pântano de dezenas de quilômetros antes de desaguar no golfo de Urabá. Na estação chuvosa, de maio a dezembro, boa parte dessa planície fica debaixo d'água, e o chão firme some.

A primeira travessia motorizada levou meses. Entre 1959 e 1960, a Expedição Trans-Darién, com um Land Rover e um Jeep, gastou 136 dias para cruzar a faixa, puxando os carros com guincho e boiando os dois em balsas nos rios.

Em 1972, a Expedição Britânica Trans-Américas, chefiada pelo militar John Blashford-Snell, levou dois Range Rovers pela mesma faixa em 99 dias, abrindo picada a facão e montando pontes com as próprias mãos.

Nas duas expedições, o obstáculo foi o terreno. E o terreno tem moradores, que a segunda parte apresenta.

 
 

II  O que tem ali

II, Floresta, pântano e três povos

O Parque Nacional Darién, criado pelo governo do Panamá em 1980, cobre boa parte da fronteira panamenha e entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1981. Na Colômbia, o Parque Nacional Natural Los Katíos protege a planície do Atrato e recebeu o mesmo título em 1994.

Juntos, os dois parques guardam praias, manguezais, florestas de planície e matas de nuvem (floresta de montanha envolta em neblina a maior parte do ano). A chuva passa fácil dos dois metros anuais nas encostas.

A águia-harpia, ave nacional do Panamá, faz ninho nas árvores mais altas. A anta-de-baird, maior mamífero terrestre nativo da América Central, anda pelas margens dos rios, e onças-pintadas caçam na mata fechada.

OS DONOS DA MATA

O Darién tem moradores há séculos. Emberá, Wounaan e Guna vivem nas margens dos rios da região e têm territórios próprios reconhecidos pelo Estado panamenho.

Os Emberá e os Wounaan constroem casas sobre palafitas (estacas que erguem o piso acima da cheia) e se deslocam em piraguas, canoas escavadas num tronco só. Para eles, o rio faz o papel da estrada.

O Panamá criou a comarca Emberá-Wounaan em 1983; comarca, no Panamá, é o território indígena com governo próprio. Os Guna, conhecidos pela comarca de Guna Yala, no litoral caribenho, também têm terras no Darién, nas comarcas de Madungandí e Wargandí.

Os caminhos da serra são antigos. Foi por esse istmo que o espanhol Vasco Núñez de Balboa marchou em 1513, com guias indígenas, até avistar o Pacífico do alto de um morro, o primeiro europeu a ver aquele oceano pelo lado americano.

Nos últimos anos a floresta ganhou outro tipo de viajante. O Serviço Nacional de Migração do Panamá registrou mais de 520 mil pessoas atravessando o Darién a pé em 2023, vindas sobretudo da Venezuela, do Equador e do Haiti.

A trilha sai da costa colombiana, perto de Necoclí e Capurganá, sobe a serra e desce até aldeias panamenhas como Bajo Chiquito, onde o governo montou postos de recepção. A caminhada leva de quatro a dez dias, conforme a chuva e o ritmo de cada grupo.

O fluxo caiu em 2024, quando o governo panamenho fechou trilhas com arame farpado, e despencou em 2025, depois que os Estados Unidos endureceram a política de entrada na fronteira com o México.

Floresta protegida, território indígena e rota de migração dividem o mesmo chão. A terceira parte explica por que nenhuma estrada chegou para mudar essa paisagem.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, A obra que a febre aftosa parou

O istmo do Panamá é jovem. A faixa de terra que une as Américas terminou de se fechar há cerca de 2,8 milhões de anos, segundo o estudo de Aaron O'Dea e colegas publicado na revista Science Advances em 2016.

Com o istmo fechado, bichos do norte desceram e bichos do sul subiram, no episódio que os paleontólogos chamam de Grande Intercâmbio Biótico Americano (a troca de fauna entre os dois continentes). O Darién é a porta estreita por onde essa troca passou.

Nos anos 1970, os Estados Unidos financiavam a maior parte da construção do trecho final, e as máquinas chegaram a abrir caminho a leste da capital panamenha. Em 1974, o Sierra Club e outras entidades ambientais processaram o Departamento de Transportes americano.

Em 1975, a justiça federal dos Estados Unidos suspendeu a obra no caso Sierra Club contra Coleman. A sentença exigiu estudo de impacto ambiental e um plano contra a febre aftosa (doença viral do gado, muito contagiosa).

A FRONTEIRA SANITÁRIA

Na época, a febre aftosa circulava na América do Sul e não existia na América Central nem na América do Norte. Sem estrada, o gado sul-americano não subia por terra, e a floresta funcionava como barreira sanitária.

A verba americana secou depois da sentença, e o Panamá sozinho não bancou o trecho. O asfalto parou em Yaviza, onde está até agora. A ligação de carro entre os dois países segue dependendo de contêiner em navio de carga, com trâmite aduaneiro nos dois portos.

Depois vieram outras travas. Nos anos 1990 e 2000, o Darién colombiano virou zona de combate entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e grupos paramilitares, e nenhum governo quis abrir uma via para o trânsito de armas e drogas.

Os povos indígenas da região também se opõem a uma estrada que traria madeireiros e fazendas para dentro dos seus territórios. O trecho já asfaltado até Yaviza mostra o efeito: ao longo dele, boa parte da floresta virou pasto.

1. Abra um mapa das Américas e ache a Cidade do Panamá e o canal.

2. Siga a costa do Pacífico para leste até Yaviza, onde a linha da estrada some.

3. Continue até o golfo de Urabá, na Colômbia, e repare no delta do Atrato entre os dois pontos.

"Uma estrada de 106 quilômetros vale mais que a floresta que ela cortaria?"

A contagem de travessias do Darién sai todo mês nas estatísticas do Serviço Nacional de Migração do Panamá. Reconfira o total de 2026 em migracion.gob.pa na segunda quinzena de janeiro de 2027.

 
 
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Em 1975, a justiça federal dos Estados Unidos suspendeu a obra final da Pan-Americana no Darién depois de um processo movido por qual entidade?

ADepartamento de Transportes dos Estados Unidos
BUNESCO
CSierra Club
DServiço Nacional de Migração do Panamá

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Um lenhador sentiu o vento frio da entrada em 1991.

 
 
 

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