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O vulcão cuja lava sai preta e fica branca
O Ol Doinyo Lengai, no norte da Tanzânia, derrama carbonatito a cerca de 500 °C: a lava escorre como óleo quente e embranquece em poucos dias.
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O cone do Ol Doinyo Lengai, na Tanzânia
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Um fio de lava escorre pela borda da cratera e estala ao encostar na cinza solta. Corre como óleo de motor quente, preto e lustroso, rápido demais para o passo de quem observa de perto. O ar cheira a soda cáustica e a cinza molhada, e o vento da madrugada bate gelado na nuca de quem está quase a três mil metros de altitude.
A montanha se chama Ol Doinyo Lengai e fica no norte da Tanzânia, a cerca de 120 quilômetros a noroeste de Arusha. Na língua maa, falada pelos maasai que pastoreiam ao redor, o nome quer dizer montanha de Deus.
A lava que sai dali não tem silicato, a base química de quase toda rocha vulcânica do planeta. Ela é um natrocarbonatito, ou seja, lava feita de carbonato de sódio e de potássio, e nenhum outro vulcão em atividade no mundo derrama esse material hoje.
A temperatura explica a cor. Um basalto havaiano escorre entre 1.000 e 1.200 °C, com brilho laranja que ofusca de longe. O carbonatito do Lengai sai perto de 500 °C, calor insuficiente para acender o vermelho visível sob o sol: de dia o fio parece asfalto derretido, e só à noite ele mostra um brilho vermelho fraco.
A cor também não dura. Quando a lava fresca encontra a umidade do ar, os carbonatos de sódio reagem e a superfície clareia: em poucas horas fica cinzenta, em poucos dias fica branca como cal apagada. O piso da cratera lembra uma calçada de cimento suja, com montes claros espalhados.
Essa química tem endereço geológico exato. O cone cresceu na borda oeste do vale do Rift, num trecho onde a crosta africana está sendo esticada e rachada de norte a sul, e o material que sobe dali é de outra família.
Vale começar pelo lugar preciso no mapa, a leste do Serengeti e ao sul de um lago de água salgada.
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I O mapa do dia
I, I, Um cone sozinho ao sul do lago Natron
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A crosta racha de norte a sul, e o magma sobe por onde ela abriu.
O Ol Doinyo Lengai se levanta no distrito de Ngorongoro, região de Arusha, em latitude 2°45' sul e longitude 35°54' leste. O Programa Global de Vulcanismo do Smithsonian registra a altitude do cume em 2.962 metros, e o vulcão é o mais alto de um alinhamento de aparelhos vulcânicos que sobe pelo assoalho do vale.
O cone se vê de longe por causa da forma. As encostas sobem retas, com inclinação que passa de 35 graus na parte alta, e a superfície é sulcada por canaletas de cinza que descem como cordas brancas até a base, desenho que aparece nítido na foto de satélite.
O lago Natron fica a cerca de 20 quilômetros ao norte, já quase na fronteira com o Quênia. É um lago raso de água alcalina, com pH alto e crosta de natron, o carbonato de sódio hidratado que deu nome ao lugar, e ele recebe a poeira sódica soprada do vulcão e trazida pelos rios da encosta.
O NINHO QUE DEPENDE DA CRAVA
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A ficha da União Internacional para a Conservação da Natureza sobre o flamingo-pequeno aponta o Natron como o principal sítio de reprodução da espécie na África Oriental: as aves constroem ninhos de lama em ilhotas cercadas de salmoura, um cerco que predador terrestre não atravessa, e a química que espanta o predador vem da mesma fonte que alimenta o vulcão.
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A vizinhança é povoada de nomes conhecidos. O Kilimanjaro fica cerca de 200 quilômetros a leste, a cratera de Ngorongoro e a planície do Serengeti ficam a sudoeste, e o desfiladeiro de Oldupai, sítio de fósseis humanos escavado pela família Leakey desde os anos 1930, está a menos de 100 quilômetros na mesma direção.
O acesso terrestre passa por Engare Sero, povoado maasai na margem sul do Natron, com estrada de terra que sai de Arusha e leva de seis a oito horas de carro. Guias locais sobem com grupos pequenos, a caminhada começa por volta da meia-noite e leva de cinco a sete horas até o topo, para que a chegada coincida com o nascer do sol e o calor do dia não pegue o grupo na encosta nua.
O cume tem duas crateras. A do sul está inativa e coberta de cinza compactada, e a do norte é a que trabalha: um poço de paredes íngremes, com piso claro e chaminés baixas, onde a atividade se concentra desde o começo dos anos 1980.
Situado o ponto no mapa, sobra descrever o que se vê de dentro do poço.
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II O que tem ali
II, II, Chaminés baixas num piso cor de cal
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O piso da cratera norte é uma planície de lava endurecida, quase plana, salpicada de hornitos, chaminés baixas erguidas pelo respingo da própria lava, algumas com altura de pessoa e outras com mais de dez metros. Cada uma cospe jatos curtos por bocas estreitas e alimenta línguas de lava que correm poucos metros e param.
Os escoamentos são finos. Como o carbonatito tem viscosidade baixíssima, perto da viscosidade da água, ele se espalha em lençóis de poucos centímetros de espessura, congela rápido e forma cordas e tranças parecidas com as do pahoehoe havaiano, só que em escala de brinquedo.
A lava do Lengai tem dois minerais de carbonato como esqueleto: a nyerereita, batizada em homenagem a Julius Nyerere, primeiro presidente da Tanzânia, e a gregoryita, que leva o sobrenome do geólogo britânico John Walter Gregory, autor do nome vale do Rift. Os dois são instáveis ao ar livre e se desfazem em pó branco.
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"As lavas de carbonato de sódio de Oldoinyo Lengai não têm equivalente conhecido entre as rochas vulcânicas atuais."
John Barry Dawson, geólogo escocês, em "Sodium carbonatite lavas from Oldoinyo Lengai, Tanganyika", artigo publicado na revista Nature em 1962. Foi ele quem documentou a composição do material e tirou o vulcão da condição de curiosidade local.
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A CHUVA APAGA O REGISTRO
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O carbonato de sódio se dissolve em água, e a estação chuvosa lava o campo de lava recente: o que era crosta branca vira lama e desce pelas canaletas da encosta. Por essa fragilidade, carbonatito antigo quase não aparece no registro geológico em forma de derrame preservado, e o Lengai virou a referência viva para quem estuda esse tipo de magma.
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A montanha alterna dois comportamentos. Na maior parte do tempo ela derrama lava mansa dentro da cratera, e de tempos em tempos entra em fase explosiva: em setembro de 2007 uma crise sísmica sentida até no sul do Quênia abriu meses de erupção violenta, que jogou cinza sobre os pastos maasai, rebaixou o piso da cratera norte em dezenas de metros e só perdeu força em meados de 2008.
A cinza dessas fases explosivas guardou pegadas humanas. Em Engare Sero, na base do vulcão, um levantamento liderado pela geóloga Cynthia Liutkus-Pierce, publicado na revista Scientific Reports em 2020, mapeou mais de 400 pegadas de pessoas impressas em lama de cinza vinda do Lengai e datou a camada entre 19.100 e 5.760 anos atrás.
O gado divide a encosta com os visitantes. Famílias maasai levam cabras e vacas para pastar na base, o sal do solo atrai os animais, e a cinza fresca de uma fase explosiva estraga o pasto por meses, o que empurra os rebanhos para longe do cone.
Descrito o que sai pela boca, falta a razão de a Terra abrir justamente ali.
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