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O rio que encosta em dez países

O Danúbio corre 2.850 km, toca dez países e, no curso baixo, vira a própria linha que separa Romênia, Sérvia e Bulgária.

O rio Danúbio entre as paredes de rocha do desfiladeiro dos Portões de Ferro, na fronteira entre Romênia e Sérvia.

O Danúbio no desfiladeiro do Cazane

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A água do Danúbio bate fria no casco da barcaça dentro do desfiladeiro do Cazane, e o eco do motor volta das paredes de calcário quase no instante em que sai do escapamento. Em setembro o vento desce da margem sérvia com cheiro de pedra molhada e folha de nogueira, e a correnteza faz um sussurro grosso contra a proa, sem espuma nenhuma.

Naquele trecho o rio se aperta entre paredes de rocha que sobem centenas de metros, e a margem esquerda é Romênia, a direita é Sérvia. Não há muro, cerca nem boia de alfândega na correnteza. A fronteira é a própria água, e o piloto passa de um país para o vizinho só ao corrigir o rumo do leme.

O Danúbio corre cerca de 2.850 quilômetros, da Floresta Negra, no sudoeste da Alemanha, até o mar Negro. No caminho atravessa ou toca dez países: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Romênia, Bulgária, Moldávia e Ucrânia. Nenhum rio do planeta encosta em tantas bandeiras.

Quatro capitais ficam na beira dele: Viena, Bratislava, Budapeste e Belgrado. Cada uma nasceu ali por causa da travessia, do porto ou da defesa que a água oferecia, e cada uma ainda organiza a vida urbana em torno das pontes que cruzam o leito.

Na parte baixa do curso, o rio deixa de ser estrada e vira limite. Por centenas de quilômetros ele separa Croácia e Sérvia, depois Sérvia e Romênia, depois Romênia e Bulgária, e no delta separa Romênia e Ucrânia. Apague os nomes de um mapa político da região e o traço azul continua desenhando a divisa sozinho.

Essa dupla função, via de transporte e linha de Estado, explica boa parte da história da Europa central e dos Bálcãs. Barcos de dez bandeiras navegam a mesma corrente que, em certos trechos, ninguém pode atravessar sem passaporte.

Para entender como um rio virou divisa de tantos Estados, vale começar pelo trajeto: de onde ele sai, por onde passa e em que ponto muda de papel.

Continue lendo ↓

 
 

I  O mapa do dia

I, Da fonte alemã ao delta em dez bandeiras

Um rio de 2.850 km que toca dez países até o mar Negro.

O Danúbio nasce em Donaueschingen, cidade pequena do estado alemão de Baden-Württemberg, onde dois riachos da Floresta Negra, o Brigach e o Breg, se juntam. No parque do palácio da família Fürstenberg, uma fonte cercada de balaustrada de pedra marca a nascente simbólica, com a inscrição que dá ao mar Negro a distância a percorrer.

O rio corre para leste, sentido raro entre os grandes rios europeus, quase todos voltados para o Atlântico ou para o mar do Norte. Passa por Ulm e Regensburg, recebe o Inn em Passau, na divisa com a Áustria, e atravessa Linz e o vale do Wachau, com vinhedos em terraço, antes de chegar a Viena.

Viena e Bratislava ficam a menos de 60 quilômetros uma da outra, as duas capitais mais próximas da Europa. Logo abaixo de Bratislava o rio vira divisa pela primeira vez: separa Eslováquia e Hungria até a curva de Esztergom, onde dobra para o sul, entra inteiro em território húngaro e corta Budapeste pelo meio, com Buda na margem alta e Peste na planície.

Ao sair da Hungria, o Danúbio volta a separar vizinhos. A margem oeste é Croácia, com a cidade de Vukovar; a leste fica a Sérvia. Depois o rio entra na Sérvia, passa por Novi Sad e recebe o Sava em Belgrado, sob a fortaleza de Kalemegdan.

ONDE O RIO VIRA DIVISA

Da foz do rio Timok, onde a Sérvia termina, até a cidade romena de Călărași, o Danúbio é a fronteira entre Romênia e Bulgária por cerca de 470 quilômetros, com a margem norte romena, baixa e cheia de lagoas, e a margem sul búlgara, alta e em barranco.

Antes desse trecho, o rio já separa Sérvia e Romênia pelo desfiladeiro dos Portões de Ferro. Depois dele, faz uma volta para o norte dentro da Romênia, na região da Dobruja, e só retoma o papel de divisa perto de Galați.

A Moldávia é o caso mais curto da lista. O país encosta em pouco menos de um quilômetro de margem, em Giurgiulești, e usou o pedaço para construir o único porto com acesso ao mar Negro que possui.

O rio se abre então no delta, dividido em três braços. O de Chilia, ao norte, é a fronteira entre Romênia e Ucrânia; o de Sulina, no centro, é o canal dragado para navio grande; o de Sfântu Gheorghe (São Jorge), ao sul, corre inteiro em solo romeno.

Traçado o percurso, cabe olhar o que as margens guardam nos pontos onde a água separa países.

 
 

II  O que tem ali

II, Uma ilha submersa e duas pontes em 470 km

Os Portões de Ferro, em sérvio Đerdap e em romeno Porțile de Fier, são o desfiladeiro onde o Danúbio rompe a cadeia formada pelos Cárpatos e pelos montes Bálcãs. O trecho mais estreito, o Cazane (caldeirões, em romeno), foi durante séculos o pior pedaço de navegação da Europa, com corredeiras e rochas à flor d'água.

Os romanos abriram ali uma estrada escavada na rocha. Da obra sobrou a Tabula Traiana (Placa de Trajano), inscrição do imperador Trajano gravada por volta do ano 100 na parede sérvia. Rio abaixo, perto da atual Drobeta-Turnu Severin, o arquiteto Apolodoro de Damasco ergueu em 105 a ponte de Trajano, a primeira sobre o curso baixo do rio, usada na conquista da Dácia.

Na parede romena do Cazane há um rosto de 40 metros esculpido na pedra. É Decébalo, último rei dos dácios, derrotado por Trajano. A escultura foi feita entre 1994 e 2004 e paga pelo empresário romeno Iosif Constantin Drăgan.

A ILHA QUE FICOU EMBAIXO D'ÁGUA

A barragem Portões de Ferro I, construída em conjunto pela Iugoslávia e pela Romênia entre 1964 e 1972, elevou o nível do rio e cobriu Ada Kaleh, ilha habitada por uma comunidade turca com mesquita, bazar e plantação de figo e tabaco; os moradores foram retirados antes da inundação e parte da mesquita foi remontada na ilha de Șimian, rio abaixo.

A mesma represa afogou a cidade velha de Orșova, reconstruída mais acima na encosta, e obrigou a Iugoslávia a subir a Tabula Traiana alguns metros na rocha para salvá-la. A usina, dividida meio a meio pelos dois países, segue gerando energia para Sérvia e Romênia.

No trecho romeno-búlgaro, a travessia é escassa. Por décadas existiu só a Ponte da Amizade, entre Giurgiu e Ruse, aberta em 1954, com pista de carro sobre a linha de trem. A segunda, entre Calafat e Vidin, só foi inaugurada em 2013. Fora delas, quem quer cruzar depende de balsa.

A margem sul búlgara guarda a ilha de Belene, a maior do lado búlgaro, onde o regime comunista manteve um campo de trabalho para presos políticos desde 1949. Hoje parte dela é área protegida para aves aquáticas.

No fim do curso, o delta cobre terreno de charco, junco e canal. A Unesco inscreveu a Reserva da Biosfera do Delta do Danúbio como patrimônio natural em 1991, e ali vivem colônias de pelicano-branco e pelicano-crespo, pescadores lipovanos, descendentes de russos que fugiram de perseguição religiosa no século 18, e aldeias que só se alcançam de barco.

Com o mapa das margens montado, resta a razão de a linha de Estado seguir a água nesses trechos.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, A água que Roma, Viena e Istambul usaram de muro

O Danúbio foi fronteira muito antes de existirem Romênia ou Bulgária. Por quase quatro séculos ele marcou o limite norte do Império Romano, o limes (fronteira fortificada), com fortes e torres de vigia na margem sul. A exceção foi a Dácia, ocupada por Roma de 106 a 271, e depois abandonada de volta à linha do rio.

Nos séculos seguintes, o curso baixo virou zona de disputa entre o Império Otomano, com sede em Istambul, e o Império Habsburgo, com sede em Viena. Rio largo é obstáculo militar, fácil de vigiar e fácil de descrever num tratado, e diplomatas, por essa razão, voltavam a ele toda vez que uma guerra acabava.

O Tratado de Berlim, assinado em 1878 depois da guerra russo-turca, fixou a divisa entre Romênia e Bulgária no Danúbio e entregou à Romênia o norte da Dobruja, o que explica a volta que o país faz para o sul até o mar. Vinte e dois anos antes, o Tratado de Paris de 1856 criara a Comissão Europeia do Danúbio para garantir a navegação na foz.

Esse regime de rio aberto a todos sobreviveu às duas guerras mundiais. A Convenção de Belgrado, de 1948, criou a atual Comissão do Danúbio, com sede em Budapeste, e escreveu logo no artigo de abertura:

"A navegação no Danúbio será livre e aberta para os nacionais, os navios mercantes e as mercadorias de todos os Estados, em pé de igualdade."

Convenção relativa ao Regime de Navegação no Danúbio, artigo 1, Belgrado, 1948.

O ponto exato da linha segue o talvegue, a linha do canal mais fundo, por onde passam os barcos. As ilhas ficam com o país do lado do canal. Quando o canal migra, surge a briga, e o caso mais vivo é o da Croácia com a Sérvia.

A Croácia defende a linha dos cadastros austro-húngaros do século 19, desenhada quando o rio ainda fazia meandros largos. A Sérvia defende o talvegue do rio atual, retificado por obras de engenharia. Sobram bolsões de terra na margem oeste que nenhum dos dois países reivindica. Num deles, Gornja Siga, o político tcheco Vít Jedlička declarou em abril de 2015 a Liberlândia, micronação que nenhum Estado reconhece e cuja entrada a polícia croata bloqueia.

1. Abra um mapa da Europa e ache o mar Negro; siga a costa romena até o delta, perto da cidade de Tulcea.

2. Suba o rio para oeste até Silistra e Călărași: dali até a foz do Timok, a linha azul é a divisa entre Romênia e Bulgária.

3. Continue subindo até o estreitamento dos Portões de Ferro, na altura de Orșova: é ali que a margem sul passa a ser Sérvia.

Nenhuma comissão internacional decidiu até hoje o caso croata-sérvio. As duas capitais montaram comissões bilaterais, trocaram notas diplomáticas e deixaram o tema sem prazo, sem acordo e sem decisão de corte internacional; o motivo é que ceder a linha do cadastro, ou a do talvegue, significa ceder território.

"Se o canal mais fundo de um rio muda de lugar, a fronteira deve acompanhar o canal?"

Os níveis diários do rio em cada estação de medição, de Regensburg ao delta, saem no portal da Comissão do Danúbio, em danubecommission.org, e no serviço romeno Apele Române. Reconfira o nível em Orșova em 24/10/2026, quando começa a vazante de outono e as balsas de Calafat reduzem o horário.

 
 
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