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O rio de 11 km³ por ano que não chega a mar nenhum
O Okavango entra no Kalahari e se abre num leque de 15 mil km²; quase toda a água some por evaporação antes de encontrar qualquer oceano.
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Água doce se abrindo em leque no Kalahari
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A água bate no casco fino da canoa com um chiado de talo raspando, e o papiro fechado dos dois lados devolve o calor da manhã junto com cheiro de vegetal fermentado. O fundo do canal aparece a menos de um metro, areia branca visível sob a lâmina, e a água que corre por cima dela é doce, transparente, própria para beber. A cem quilômetros em qualquer direção começa a areia seca do Kalahari.
O canal faz parte do Delta do Okavango, no noroeste de Botsuana. O rio despeja ali perto de 11 quilômetros cúbicos de água por ano, volume equivalente a mais de quatro milhões de piscinas olímpicas, e espalha esse volume por uma superfície inundada que oscila em torno de 15 mil quilômetros quadrados na cheia, área maior que a do Estado de Sergipe.
Nada daquela água chega ao oceano. O Okavango não tem foz marítima em lugar nenhum do continente. Ele termina dentro de uma bacia fechada, e a quase totalidade do volume que entra sai por evaporação da lâmina rasa e por transpiração da vegetação aquática, com uma fração pequena descendo para o lençol de areia por infiltração.
A chuva que sustenta o sistema também não cai ali. O Okavango nasce no planalto do Bié, em Angola, mais de 1.200 quilômetros rio acima, atravessa a Faixa de Caprivi na Namíbia e entra em Botsuana já formado. A região do delta recebe pouca chuva e evapora muito mais do que recebe, então o leque verde existe por causa de uma bacia hidrográfica que fica em outro país e em outro regime de chuva.
Comece pelo desenho do terreno: por onde a água entra, o que segura ela ali e por que o leque tem exatamente aquele formato de triângulo com a ponta virada para cima.
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I O mapa do dia
Um rio que desce de Angola e para numa falha
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Um rio inteiro que termina no ar, dentro do Kalahari.
O Okavango nasce como Cubango no planalto central de Angola, região que recebe mais de 1.000 milímetros de chuva por ano, e corre para sudeste recolhendo afluentes, entre eles o Cuito, que drena turfeiras e libera água de forma mais lenta e regular que os outros braços.
Depois de servir de fronteira entre Angola e Namíbia por um trecho longo, o rio atravessa a Faixa de Caprivi e entra em Botsuana por um corredor estreito de uns 15 quilômetros de largura, chamado Panhandle, o cabo da frigideira que aparece no mapa.
O Panhandle tem cerca de 100 quilômetros de extensão e é confinado. Depois dele o rio perde o confinamento e se abre no leque aluvial que forma o delta propriamente dito, com aproximadamente 250 quilômetros de comprimento na diagonal e uma frente larga ao sul.
A declividade do terreno é quase nada. O leque cai pouco mais de 60 metros ao longo de todo o percurso interno, gradiente da ordem de 1 para 5.500, que na prática significa água andando devagar, se espalhando lateralmente e criando canais que mudam de posição sozinhos.
A geologia explica por que o rio parou justo ali. O delta se assenta num gráben, um bloco de crosta que afundou entre falhas, tratado por parte da literatura geológica como a extremidade sudoeste do sistema de rifte que atravessa a África Oriental.
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As falhas trabalham como moldura: a de Gumare abre a frente onde o rio se espalha ao entrar no gráben, e as de Kunyere e Thamalakane fecham o outro extremo, segurando a água numa linha reta que aparece nítida na imagem de satélite.
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McCarthy e Ellery, no trabalho publicado nas Transactions of the Royal Society of South Africa em 1998, descrevem o sistema como um leque aluvial de baixíssimo gradiente sobre o qual se desenvolveu uma área alagada permanente, com sedimentação controlando a posição dos canais.
O que sai pelo lado de baixo é pouco. O rio Boteti recebe o excedente pela linha das falhas e corre em direção às salinas de Makgadikgadi, mas em muitos anos ele seca em trechos longos, e o volume que passa por lá é uma fração pequena do que entrou pelo Panhandle.
A cheia funciona como onda, não como enchente instantânea. A frente de água leva meses para atravessar o leque, avançando devagar sobre planície seca, e a inundação máxima em Maun costuma cair entre junho e agosto, meio ano depois da chuva angolana que a gerou.
Esse atraso é o que sustenta a vida animal da região no pior momento do ano. E o chão que a onda encontra pela frente não é liso: ele é fabricado por bichos e por sal, como você vai ver agora.
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II O que tem ali
Ilhas de cupim, papiro e sal enterrado
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O leque não é uma lâmina contínua de água. É um mosaico de canais permanentes, lagoas, planícies que alagam só na cheia e milhares de ilhas, algumas com poucos metros de diâmetro e outras com dezenas de quilômetros.
A maior delas, a Ilha do Chefe, tem em torno de 70 quilômetros de comprimento, e a origem dela é tectônica: um bloco elevado entre falhas, terreno alto que a água contorna. As pequenas nascem de outro jeito, e o processo é o detalhe mais estranho do delta.
Muita ilha começa como cupinzeiro. O cupim constrói um monte de terra acima da lâmina de cheia, a estrutura resiste, planta se instala no topo, raiz segura sedimento, e o pedaço de chão cresce por acúmulo até virar uma ilha com mata fechada no meio e franja de capim na borda.
A vegetação da borda bombeia água. A árvore puxa a água do lençol raso por baixo da ilha e devolve vapor para o ar, deixando para trás o sal dissolvido que veio junto, que se concentra no subsolo do centro da ilha.
Da salina enterrada à água doce de superfície
O centro de muitas ilhas tem crosta esbranquiçada de sal e pouca planta, um pedaço de solo que o próprio processo esterilizou. A salmoura formada ali fica densa e afunda no aquífero em vez de voltar para o canal, e é por isso que a água de superfície do delta continua doce apesar de perder quase tudo por evaporação.
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Um sistema fechado que evapora 95% da entrada deveria acumular sal na superfície, como acontece em bacia endorreica clássica; o Okavango escapa dessa regra empurrando o sal para baixo das ilhas, e mantém água potável no meio do deserto.
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O papiro faz o trabalho de canalização. As margens dos canais permanentes são paredes vivas de Cyperus papyrus e capim aquático que confinam o fluxo, e quando o vegetal morre e acumula turfa, o leito entope e o rio abre caminho por outro lugar.
A fauna acompanha a onda. Elefante, búfalo, zebra, antílope lechwe e hipopótamo se concentram na frente de inundação conforme ela avança, e o próprio hipopótamo abre e mantém trilhas dentro do papiro que funcionam como canais menores.
A Reserva de Moremi, criada em 1963 por iniciativa da população batawana, protege a parte leste do leque. A Unesco inscreveu o Delta do Okavango na lista de Patrimônio Mundial em 2014, na condição de milésimo sítio da lista, e o sistema já era sítio Ramsar de zona úmida de importância internacional desde 1996.
O leque inteiro, então, depende de uma torneira que fica fora de Botsuana. Vale ver quem tem a mão nela.
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