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O rio Casiquiare liga o Orinoco ao Amazonas pela selva

Um canal natural de 326 km leva perto de um quinto da água do Orinoco até o Rio Negro, e dali para a bacia amazônica.

Canoa no rio Casiquiare, entre a floresta alagada do sul da Venezuela.

Rio Casiquiare, no sul da Venezuela

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O remo bate na água morna e levanta um cheiro de folha podre. Na canoa de madeira, o ar pesa de umidade, e os mosquitos zumbem tão perto da orelha que o barulho cobre o dos papagaios na margem.

A água em volta do casco tem cor de chá fraco. Galhos boiam devagar, todos no mesmo sentido, e a correnteza empurra a canoa sem que ninguém precise remar com força.

A canoa desce o rio Casiquiare, no estado venezuelano do Amazonas, perto da fronteira com a Colômbia e o Brasil. Ao redor, a floresta é baixa e plana, sem morro à vista, e a margem some debaixo de raízes alagadas.

Poucas horas antes, a mesma canoa navegava o Orinoco, rio que corre para o norte e deságua no mar do Caribe, ao lado de Trinidad. Ninguém carregou o barco por terra. A água simplesmente trocou de rumo.

Num ponto perto do povoado de La Esmeralda, o Orinoco se parte em dois. A maior parte da água segue o leito principal, rumo ao Caribe. Uma fatia escapa para o sul pelo Casiquiare, que corre 326 km até encontrar o Rio Negro.

O Rio Negro desce até Manaus e se junta ao Solimões para formar o Amazonas. Uma gota que sai do Orinoco por esse canal termina no Atlântico, perto da ilha de Marajó, mais de 3.000 km ao sul da foz onde deveria chegar.

Perto de um quinto da água do Orinoco, naquele trecho, troca de bacia por esse caminho. Nenhum outro canal natural conhecido liga duas bacias continentais desse tamanho de forma permanente, com água correndo o ano inteiro.

Os geógrafos chamam o fenômeno de bifurcação fluvial. Pequenas bifurcações aparecem em deltas e brejos; a do Casiquiare fica no meio do continente, longe do mar, ligando os dois maiores sistemas de rios do norte da América do Sul.

O mapa abaixo começa no ponto exato onde o Orinoco se divide e segue a água até o Rio Negro.

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I  O mapa do dia

Um rio com duas saídas

Do garfo de La Esmeralda ao Rio Negro.

O Orinoco nasce na serra Parima, na fronteira entre a Venezuela e o Brasil, perto do território Yanomami. Desce para oeste, depois faz uma curva larga para o norte, e corre cerca de 2.140 km até o delta, no Atlântico, em frente a Trinidad.

Nos primeiros trechos, ainda estreito e cheio de pedras, ele passa por La Esmeralda, um povoado à beira de uma savana cercada de mata, aos pés do cerro Duida, montanha de topo plano que sobe mais de 2.000 metros.

Pouco abaixo do povoado, a margem sul do Orinoco se abre. Um braço de água sai do leito principal e entra na floresta. Esse braço é o começo do Casiquiare.

O GARFO DE LA ESMERALDA

O Casiquiare não nasce de uma fonte: ele começa como uma saída lateral do Orinoco e termina como afluente do Rio Negro.

Do ponto de partida, o canal corre para sudoeste. No começo, tem poucas dezenas de metros de largura. Ao longo dos 326 km, recebe afluentes da própria floresta, como o Siapa e o Pasimoni, e chega ao fim com centenas de metros de margem a margem.

O encontro acontece perto de San Carlos de Río Negro, cidade venezuelana pequena, a poucas horas de barco da fronteira com o Brasil. Ali, o Casiquiare se junta ao rio Guainía, e os dois formam o Rio Negro, que entra no território brasileiro pelo Amazonas, perto de São Gabriel da Cachoeira.

Os povos da região já usavam o canal muito antes dos europeus. Comerciantes indígenas levavam mercadorias entre as duas bacias de canoa, e missionários portugueses e espanhóis ouviram falar da passagem no começo do século 18.

Em 1744, o jesuíta espanhol Manuel Román subiu do Orinoco pelo Casiquiare e encontrou, no Rio Negro, uma tropa de comerciantes portugueses. O relato chegou à Europa, mas muitos cartógrafos de Paris duvidaram: o mapa da época tratava as duas bacias como separadas por montanhas.

A prova veio em 1800. O naturalista prussiano Alexander von Humboldt e o botânico francês Aimé Bonpland desceram o Rio Negro, subiram o Casiquiare de canoa e saíram no Orinoco, em maio daquele ano. Humboldt mediu a posição do canal com sextante e cronômetro.

Na obra Viagem às Regiões Equinociais do Novo Continente, publicada em francês entre 1814 e 1825, ele descreveu a bifurcação como prova de que as duas bacias se tocam numa planície sem divisor alto. E reclamou, página após página, dos mosquitos do Casiquiare.

 
 

II  O que tem ali

Água cor de chá

O Casiquiare carrega água de dois tipos. A que sai do Orinoco é clara, com pouca lama. A dos afluentes da floresta é escura, tingida por ácidos que saem das folhas em decomposição, a mesma tinta que dá nome ao Rio Negro.

Ao longo do canal, as duas águas se misturam aos poucos. Perto da saída do Orinoco, a cor lembra chá fraco. Perto do Rio Negro, fica escura como café ralo, e a acidez sobe.

A água preta é pobre em nutrientes. Os solos da região são arenosos e lavados pela chuva há milhões de anos, e quase todo nutriente da floresta fica preso nas plantas vivas, não na terra nem no rio.

A PONTE DOS PEIXES

O Casiquiare é a única estrada aquática permanente entre os peixes do Orinoco e os da Amazônia.

Por esse corredor, espécies das duas bacias trocam território há milhares de anos. Estudos de genética com o tucunaré, o peixe de briga das pescarias de rio, apontam linhagens aparentadas nas duas bacias, ligadas por esse caminho.

A passagem tem filtro. Como a água muda de clara para escura ao longo do caminho, só atravessa o canal inteiro o peixe que tolera as duas químicas. Um estudo de 2008 do biólogo Kirk Winemiller, da Universidade Texas A&M, com colegas venezuelanos, publicado no Journal of Biogeography, descreveu o Casiquiare como um corredor seletivo: aberto para algumas espécies, fechado para outras.

Dos dois lados, o golfinho-rosa, o boto da Amazônia, aparece nas águas do Orinoco e do Rio Negro. A ligação ajuda a explicar a presença do mesmo animal nas duas bacias.

Na margem, quase não há gente. O estado do Amazonas venezuelano tem menos de dois habitantes por quilômetro quadrado. Ao longo do canal vivem pequenas comunidades indígenas, como os Baniwa e os Yekuana, que pescam, plantam mandioca em roças abertas na mata e se deslocam de barco a motor.

As estradas não chegam ali. Para ir de La Esmeralda a San Carlos de Río Negro, o caminho é o próprio Casiquiare, numa viagem de vários dias de barco, que depende da cheia para vencer os bancos de areia.

A cheia segue o ritmo da chuva. O nível do Orinoco sobe a partir de maio, atinge o pico entre julho e agosto e baixa até março. Na estação seca, o Casiquiare encolhe, mas não para de correr.

 

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III  Por que a linha passa ali

A planície sem divisor

Na maior parte do mundo, as bacias se separam por uma linha alta: um espigão, uma serra, um planalto. A chuva que cai de um lado escorre para um rio; a que cai na vertente oposta escorre para outro.

No sul da Venezuela, essa linha quase desaparece. Entre o alto Orinoco e o Rio Negro, o terreno é uma planície alagada, com poucos metros de desnível em dezenas de quilômetros. A água encontra caminho para os dois lados.

O ponto decisivo é a inclinação. O Orinoco, perto de La Esmeralda, ainda tem centenas de quilômetros até o mar. O Casiquiare cai mais depressa até o Rio Negro, que corre num nível mais baixo, e a água que entra no canal desce com mais força.

O CANAL QUE CAVA O PRÓPRIO LEITO

A água que corre mais rápido no Casiquiare escava o leito e alarga o canal, e o canal mais largo puxa mais água do Orinoco.

Em 2018, os geólogos Maya Stokes, Simon Goldberg e Taylor Perron, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicaram na revista Geophysical Research Letters uma análise do canal com imagens de satélite e medições de declive. A conclusão do grupo: o Casiquiare está no meio de uma captura fluvial.

Captura fluvial é o processo pelo qual um rio rouba a água de outro. O mais íngreme avança sobre o vizinho, desvia o curso dele e fica com a nascente.

Segundo o estudo, o Casiquiare cresce porque o terreno favorece o lado amazônico. Com o tempo, o canal tende a levar uma parcela cada vez maior do alto Orinoco para o Rio Negro.

O prazo é geológico. Os autores falam em processo lento, na escala de milhares de anos, sem data fixa para o fim. Um ser humano não vê a mudança numa vida; o mapa só a registra comparando medições de décadas.

Três fatores mantêm o garfo aberto hoje:

• A planície baixa, sem divisor alto entre as bacias.

• O desnível maior do lado do Rio Negro.

• A chuva forte da região, acima de 3.000 mm por ano, que mantém o canal cheio.

A parcela de um quinto vem de medições de vazão no ponto da bifurcação. O número varia com a estação: na cheia, o Casiquiare leva mais água; na seca, menos.

O Observatório SO HyBAM, rede franco-sul-americana de medição de rios, publica as vazões do Orinoco e do Rio Negro. A cheia de 2027 deve atingir o pico entre julho e agosto. Reconfira a parcela do Casiquiare e os 326 km do canal no portal hybam.obs-mip.fr, em setembro de 2027.

 
 
Quiz da edição

Em que ano Alexander von Humboldt comprovou a ligação entre Orinoco e Rio Negro, descendo o Casiquiare de canoa?

A1744, ano do relato do jesuíta Manuel Román
B1825, ano da publicação final da obra de Humboldt
C1800, ano da travessia de Humboldt e Bonpland
D1908, ano do primeiro mapa oficial da bacia

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