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Um lago do tamanho da Irlanda drenado por canal de algodão.
O Aral ocupa uma depressão entre o Cazaquistão, ao norte, e o Uzbequistão, ao sul, perto do paralelo 45 norte, no meio da planície de Turan. É uma bacia endorreica: a água entra e só sai por evaporação, porque não existe rio de drenagem para oceano nenhum.
Dois rios enchiam a depressão. O Amu Dária desce do Pamir e corre cerca de 2.400 quilômetros até a margem sul; o Sir Dária nasce no Tian Shan e faz cerca de 2.200 quilômetros até a margem nordeste. Os dois carregam degelo de montanha, e não chuva local, porque a região recebe menos de 150 milímetros de precipitação por ano.
O equilíbrio de um lago endorreico é aritmética simples. A superfície evapora uma lâmina de água por ano, e o nível fica estável enquanto os rios repõem o mesmo tanto. Tire a reposição e a evaporação continua trabalhando sozinha, todo dia, sem pausa.
O lago que essa aritmética mantinha tinha 68 mil quilômetros quadrados, profundidade média perto de 16 metros e ponto mais fundo de 69 metros na porção ocidental. A superfície ficava a 53 metros acima do nível do mar.
A conta virou a partir de 1960. O Canal do Karakum, aberto em 1959 no Turcomenistão, tirou água do Amu Dária e a levou por mais de 1.300 quilômetros pelo deserto até Ashgabat, e uma malha de canais menores fez o mesmo com os dois rios ao longo de todo o percurso.
A escolha de cultura pesa no cálculo. Algodão em clima árido consome perto de 7 mil metros cúbicos de água por hectare por safra, e a área irrigada da bacia passou de cerca de 4,5 milhões para mais de 7 milhões de hectares entre 1960 e 1990.
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A eficiência da rede piorava a conta: os canais eram abertos direto no solo, sem revestimento, e perdiam por infiltração e evaporação uma parcela da vazão que em vários trechos passava de metade do volume captado.
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Em anos secos da década de 1980, o Amu Dária deixou de chegar ao lago. O delta virava areia antes da foz, e o Aral passava safras inteiras recebendo água só do Sir Dária, quando recebia.
O nível caiu perto de 60 centímetros por ano na primeira década, acelerou depois, e a linha de costa começou a andar quilômetros por temporada em partes rasas do sul.
Em 1987 a superfície baixou o suficiente para expor uma soleira no meio da bacia, e o lago se partiu em dois corpos separados: o Aral Norte, no Cazaquistão, e o Aral Sul, no Uzbequistão. Em 2003 o Aral Sul se dividiu de novo, numa bacia ocidental estreita e funda e numa bacia oriental larga e rasa.
O que sobrou do fundo exposto virou o assunto da próxima parte, porque aquele chão não ficou parado.
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