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O quarto maior lago do mundo virou deserto de sal

O Aral tinha 68 mil km² em 1960; desviados os dois rios que o abasteciam para o algodão, a bacia leste amanheceu seca em 2014.

Mapa do mar de Aral entre Cazaquistão e Uzbequistão com o contorno de 1960 e o atual.

O lago que a irrigação levou embora

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O casco de aço de um pesqueiro range quando o sol da tarde bate nele, e o chão embaixo do casco é areia com crosta branca que estala sob a bota. O vento que passa ali carrega pó salgado que arde no fundo da garganta e deixa gosto metálico na boca depois de alguns minutos. Aquele barco está ancorado no lugar exato onde flutuava, em Moynaq, no noroeste do Uzbequistão. A água que o sustentava recuou para muito além da linha do horizonte.

Moynaq era porto pesqueiro de um lago com 68 mil quilômetros quadrados de superfície, área comparável à da Irlanda, o quarto maior corpo de água interior do planeta em 1960. A frota local descarregava dezenas de milhares de toneladas de peixe por ano e a cidade tinha fábrica de conserva, estaleiro e cais de concreto.

O lago não secou por seca. Ele foi drenado por decisão administrativa. O plano soviético de expansão do algodão na Ásia Central desviou os dois rios que alimentavam a bacia para uma rede de canais de irrigação, e o volume de água doce que chegava ao Aral despencou até quase zero em anos ruins.

O resultado se mede em ordens de grandeza. Perto de 90% do volume do lago sumiu, a salinidade passou de água salobra para concentração maior que a do oceano, e a bacia oriental do Aral Sul, a maior das metades que sobraram, amanheceu completamente seca em 2014, registrada pelas imagens do satélite Terra publicadas pelo Earth Observatory da NASA em agosto daquele ano.

No lugar do fundo do lago nasceu um deserto novo, com nome próprio e dinâmica própria, que hoje sopra sal e resíduo agrícola sobre as cidades da região.

Comece pelo desenho da bacia: por onde entrava a água, para onde ela foi levada e por que um lago fechado não tem como se defender de uma torneira que fecha.

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I  O mapa do dia

Dois rios, um lago fechado e nenhuma saída

Um lago do tamanho da Irlanda drenado por canal de algodão.

O Aral ocupa uma depressão entre o Cazaquistão, ao norte, e o Uzbequistão, ao sul, perto do paralelo 45 norte, no meio da planície de Turan. É uma bacia endorreica: a água entra e só sai por evaporação, porque não existe rio de drenagem para oceano nenhum.

Dois rios enchiam a depressão. O Amu Dária desce do Pamir e corre cerca de 2.400 quilômetros até a margem sul; o Sir Dária nasce no Tian Shan e faz cerca de 2.200 quilômetros até a margem nordeste. Os dois carregam degelo de montanha, e não chuva local, porque a região recebe menos de 150 milímetros de precipitação por ano.

O equilíbrio de um lago endorreico é aritmética simples. A superfície evapora uma lâmina de água por ano, e o nível fica estável enquanto os rios repõem o mesmo tanto. Tire a reposição e a evaporação continua trabalhando sozinha, todo dia, sem pausa.

O lago que essa aritmética mantinha tinha 68 mil quilômetros quadrados, profundidade média perto de 16 metros e ponto mais fundo de 69 metros na porção ocidental. A superfície ficava a 53 metros acima do nível do mar.

A conta virou a partir de 1960. O Canal do Karakum, aberto em 1959 no Turcomenistão, tirou água do Amu Dária e a levou por mais de 1.300 quilômetros pelo deserto até Ashgabat, e uma malha de canais menores fez o mesmo com os dois rios ao longo de todo o percurso.

A escolha de cultura pesa no cálculo. Algodão em clima árido consome perto de 7 mil metros cúbicos de água por hectare por safra, e a área irrigada da bacia passou de cerca de 4,5 milhões para mais de 7 milhões de hectares entre 1960 e 1990.

A eficiência da rede piorava a conta: os canais eram abertos direto no solo, sem revestimento, e perdiam por infiltração e evaporação uma parcela da vazão que em vários trechos passava de metade do volume captado.

Em anos secos da década de 1980, o Amu Dária deixou de chegar ao lago. O delta virava areia antes da foz, e o Aral passava safras inteiras recebendo água só do Sir Dária, quando recebia.

O nível caiu perto de 60 centímetros por ano na primeira década, acelerou depois, e a linha de costa começou a andar quilômetros por temporada em partes rasas do sul.

Em 1987 a superfície baixou o suficiente para expor uma soleira no meio da bacia, e o lago se partiu em dois corpos separados: o Aral Norte, no Cazaquistão, e o Aral Sul, no Uzbequistão. Em 2003 o Aral Sul se dividiu de novo, numa bacia ocidental estreita e funda e numa bacia oriental larga e rasa.

O que sobrou do fundo exposto virou o assunto da próxima parte, porque aquele chão não ficou parado.

 
 

O deserto de sal chamado Aralkum

O terreno que emergiu recebeu nome de deserto: Aralkum, o mais novo do planeta, com perto de 60 mil quilômetros quadrados de fundo de lago virado superfície continental.

O material ali não é areia comum. São sedimentos finos depositados por décadas de sedimentação lacustre, misturados a sais precipitados pela evaporação e a resíduos que os rios trouxeram das lavouras, incluindo fertilizante e defensivo agrícola aplicados na bacia durante o período soviético.

O vento predominante de nordeste levanta esse pó em tempestades sazonais que despejam sal sobre pastagem, lavoura e telhado num raio de centenas de quilômetros, e a deposição salina degrada solo agrícola das próprias áreas irrigadas que causaram a secagem.

A química da água que restou mudou junto. O Aral tinha cerca de 10 gramas de sal por litro em 1960, valor de água salobra. Nas bacias do sul a concentração passou de 100 gramas por litro, mais que o triplo da água do mar aberto.

Da pesca comercial ao cemitério de barcos

Nenhuma das cerca de 20 espécies nativas de peixe do lago tolera aquela salinidade. A pesca comercial do Aral Sul acabou nos anos 1980, e a frota ficou encalhada onde estava quando a água foi embora.

Moynaq perdeu a indústria inteira. A cidade fica hoje a mais de 100 quilômetros da margem da bacia ocidental, e o cais de onde saíam os barcos olha para uma planície de arbusto salino, com os cascos enferrujados alinhados no lugar do ancoradouro.

A moderação climática que o lago exercia também sumiu: com a massa de água reduzida, os verões da região ficaram mais quentes e os invernos mais frios, e a estação de cultivo encurtou em algumas semanas nas áreas próximas ao antigo litoral.

A ilha Vozrozhdeniya conta outro capítulo do recuo. Era ilha de verdade no meio do lago e abrigou um campo de testes de agentes biológicos da União Soviética, ativo até 1992. Com a queda do nível, ela encostou no continente em 2001 e virou península, acessível a pé e a veículo.

Uma operação conjunta entre Estados Unidos e Uzbequistão fez a descontaminação dos pontos de enterro de material no antigo campo em 2002, e o terreno hoje é atravessado por prospecção de gás.

A saúde pública da região registrou a mudança em várias frentes ao mesmo tempo: doença respiratória, água de consumo mais salgada e menos disponível, e perda da base econômica que sustentava as cidades ribeirinhas do Karakalpakistão.

No lado cazaque, ao norte da soleira que partiu o lago, uma represa de 13 quilômetros mudou o rumo da história, e vale ver como.

 

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A represa de Kok-Aral e o lago que voltou

"O mar de Aral, um dia o quarto maior lago do mundo em área, vem encolhendo continuamente nos últimos 45 anos por causa de retiradas insustentáveis de água para irrigação dos seus dois rios afluentes, o Amu Dária e o Sir Dária."

Philip Micklin, The Aral Sea Disaster, Annual Review of Earth and Planetary Sciences, 2007.

A linha passa ali por causa da soleira que apareceu em 1987. Aquele degrau de fundo separou uma bacia norte pequena, alimentada pelo Sir Dária, de uma bacia sul enorme, dependente do Amu Dária, e virou a fronteira física entre dois destinos.

O Cazaquistão apostou na metade que ainda recebia rio. Com financiamento do Banco Mundial, o país construiu a represa de Kok-Aral, uma barragem de terra com cerca de 13 quilômetros de extensão, concluída em 2005, que fecha o estreito por onde a água do norte escorria para o sul.

A resposta foi rápida. O nível do Aral Norte subiu de perto de 30 metros para cerca de 42 metros de altitude em poucos anos, a superfície cresceu, a salinidade caiu para a faixa que várias espécies nativas suportam e a pesca comercial voltou a operar em Aralsk e nas vilas do entorno.

O Aral Sul não teve equivalente. O Amu Dária continua sendo consumido rio acima por lavoura de algodão no Turcomenistão e no Uzbequistão, e a bacia oriental oscila entre lâmina rasa e leito seco conforme o ano hidrológico.

O que define o tamanho de um lago endorreico é a sobra dos rios depois que a irrigação se serve. Um lago fechado carrega o saldo de uma conta fechada a centenas de quilômetros dele, lá na cabeceira.

1. Ache o Aral no mapa entre Cazaquistão e Uzbequistão e siga o traço do Amu Dária para sudeste até o Pamir para ver a distância que a água percorre antes de chegar.

2. Volte pela margem sul até Moynaq e meça no aplicativo de mapa quantos quilômetros separam a cidade da mancha azul mais próxima.

3. Compare a metade norte com a sul na imagem de satélite e localize a linha reta da represa de Kok-Aral, o único traço artificial visível naquele contorno.

O Aral prova que a linha de costa de um lago fechado é resultado de decisão de uso da água, e que ela responde nos dois sentidos: some quando a torneira fecha e volta quando alguém devolve o rio.

"Que rio abastece o lago mais próximo de você, e quem tira água dele antes de chegar lá?"

O contorno do Aral Sul muda a cada estação de irrigação, e as imagens comparadas são publicadas pelo Earth Observatory da NASA. O nível do Aral Norte é acompanhado pelo comitê de recursos hídricos do Cazaquistão. Reconfira as duas fontes em outubro de 2026, no fim da temporada de captação, antes de citar qualquer área ou cota.

 
 
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Segundo o texto, o que expôs a soleira que dividiu o lago em Aral Norte e Aral Sul em 1987?

AA abertura do Canal do Karakum em 1959
BA queda do nível de água da bacia
CA descontaminação da ilha Vozrozhdeniya
DO desvio do Sir Dária para irrigação

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