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A fronteira do Lesoto tem duas naturezas. A leste é sinuosa e segue relevo, a oeste é fluvial e segue um rio, e cada trecho saiu de um processo diferente.
A leste, a linha corre em cima da crista do Drakensberg, o divisor de águas da região. O que cai de um lado desce para o Índico, o que cai do outro entra no Senqu e vai para o Atlântico.
Divisor de águas é fronteira barata: não muda de lugar como leito de rio e dispensa marco a cada quilômetro. Nesse trecho a linha não foi negociada, foi lida no terreno.
A oeste o traçado acompanha o rio Caledon, que virou limite porque uma guerra terminou assim. Entre 1858 e 1868 os bôeres do Estado Livre atacaram três vezes: não tomaram Thaba Bosiu, mas tomaram o vale, com celeiro queimado e rebanho levado.
O tratado de Thaba Bosiu, em 1866, formalizou a perda das terras de trigo, e em 12 de março de 1868, com o cerco de novo em curso, a Grã-Bretanha declarou o Basutolando protetorado.
Em 1869 a Convenção de Aliwal North desenhou a linha que existe até hoje: o Caledon a oeste, a escarpa a leste e as terras conquistadas confirmadas em mãos bôeres.
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Os basotos ficaram exatamente com o que dava para defender e com o que ninguém queria arar. A fronteira do Lesoto é o contorno do que sobrou.
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O reino perdeu perto da metade do que controlava, e perdeu justamente a parte fértil. Daí vem a lavoura estreita de hoje e a pressão por terra na faixa que restou.
Ficar com a montanha parecia castigo, e virou ativo quando a África do Sul industrializou o planalto do Vaal e viu que a região mais rica dela é seca. Em 24 de outubro de 1986 os dois governos assinaram o tratado das terras altas.
A engenharia é simples: barrar o Senqu lá em cima, furar a montanha e deixar a gravidade transportar. Katse, de 185 metros, fechou o vale em 1997, Mohale veio em 2002, e dali até a saída em solo sul-africano correm 82 quilômetros de túnel.
O sistema entrega perto de 780 milhões de metros cúbicos por ano ao Vaal, cerca de 60% da água que Joanesburgo consome, e a usina de Muela, no caminho, gera 72 megawatts para o Lesoto.
As royalties dessa água pagam ao país perto de 4 bilhões de rands por ano, algo em torno de 15% do orçamento do governo.
A obra não é pacífica. A fase 2 ergue Polihali, de 163 metros, no Senqu, para passar de 1.250 milhões de metros cúbicos anuais, e o enchimento dos reservatórios já desalojou aldeias num país onde muita casa busca água em bica comunitária.
1. Abra o mapa da África do Sul e ache a mancha encravada no leste. O contorno inteiro é uma fronteira só. |
2. Siga a borda leste com o relevo ligado. A linha anda em cima da crista: de um lado o chão despenca, do outro segue planalto. |
3. Volte para a borda oeste e acompanhe o rio Caledon. Ali a fronteira desce da montanha para a água, e o traçado deixa de ser geologia e vira tratado. |
Um povo subiu numa montanha para não sumir do mapa, e a linha que sobrou em volta dele decide hoje de onde sai a água de duas economias. A escarpa não mudou de lugar, mudou de função.
"Quantas fronteiras que parecem naturais são, na verdade, o desenho do que não deu para tomar?"
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