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O muro de 186 km na Floresta de Białowieża

A mata mais antiga da planície europeia nunca foi derrubada. Em 2022, uma barreira de aço cortou a floresta e o rebanho de bisões.

Bisão-europeu na neve diante da barreira de aço na Floresta de Białowieża.

Floresta de Białowieża, na divisa Polônia e Belarus

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O bafo do bisão sobe em nuvem branca no ar de dez graus negativos, e o casco afunda na neve com um estalo seco de gelo partido. É fevereiro na Floresta de Białowieża, e o animal de quase uma tonelada caminha para leste por uma trilha que a manada pisa há décadas.

A trilha termina num muro. São painéis de aço de 5,5 metros de altura, com rolos de arame farpado no alto, fincados numa faixa de terra recém-aberta entre pinheiros e carvalhos. O bisão para, cheira o metal frio e dá meia-volta.

Ao pé do aço corre uma faixa de areia alisada, onde cada pegada fica marcada até a próxima ronda. No alto dos postes, câmeras e sensores de movimento instalados pela Guarda de Fronteira polonesa acendem uma luz vermelha quando o bicho se aproxima.

A barreira tem 186 km e acompanha a fronteira entre a Polônia e Belarus. O governo polonês terminou a obra em junho de 2022. O motivo declarado foi conter a travessia de imigrantes que o governo de Belarus, comandado por Aleksandr Lukashenko, trouxe de avião até Minsk em 2021 e empurrou para a divisa.

Parte do traçado atravessa a mata mais preservada da planície europeia. Białowieża guarda trechos onde nenhum machado entrou em séculos: carvalhos de mais de 30 metros, troncos caídos apodrecendo onde tombaram e um chão de musgo que nunca viu arado.

Para abrir caminho ao muro, máquinas cortaram uma faixa larga de árvores ao longo da divisa e passaram por cima de valas e riachos que a mata usava para drenar.

Os bisões que vivem ali descendem de animais de zoológico. O bisão-europeu sumiu da natureza no começo do século XX, e a floresta recebeu os primeiros reprodutores criados em cativeiro em 1929. Em 1952, os guardas do parque abriram os cercados do lado polonês e deixaram a manada entrar na mata.

Setenta anos depois, o rebanho voltou a encontrar uma cerca. Desta vez, ninguém tem a chave.

A edição começa pelo desenho da floresta no mapa, com a linha de fronteira traçada em 1945 cortando o meio dela.

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I  O mapa do dia

I, Uma mata partida em 1945

Da planície polonesa até a divisa com Belarus, onde a mata atravessa a linha.

A Floresta de Białowieża (em polonês, Puszcza Białowieska; em bielorrusso, Belavezhskaya Pushcha) ocupa um bloco de terra plana a uns 200 km a leste de Varsóvia, perto da cidade bielorrussa de Brest.

A ficha da UNESCO, revisada em 2014, registra cerca de 1.419 km² protegidos somando os dois países. A maior parte fica em Belarus; o lado polonês guarda a fatia oeste, menor.

Visto por satélite, o bloco verde-escuro da floresta salta contra os campos arados em volta. As bordas são retas onde começa a lavoura, e o interior não tem clareira de cultivo. A mata mistura carvalho, tília, carpino (árvore de madeira dura, parente da bétula), abeto e pinheiro, e o terreno quase não sobe: a planície fica entre 130 e 200 metros acima do nível do mar.

Rios lentos, como o Narewka, cortam a mata de sul a norte e alagam as baixadas na primavera. Essas várzeas viram pasto de verão para os bisões e para os alces.

Durante séculos, a mata inteira foi reserva de caça de reis. Os soberanos poloneses e lituanos proibiam o corte e caçavam ali; depois de 1795, a floresta passou às mãos dos czares russos, que mantiveram a proibição para preservar os animais de suas caçadas.

Entre 1921 e 1939, toda a floresta pertenceu à Polônia. A divisão veio em 1945, quando a nova fronteira com a União Soviética foi riscada por cima das árvores.

A LINHA NO MEIO DA MATA

No mapa, a fronteira corta a floresta numa linha quase reta de norte a sul, e as estradas dos dois países param antes dela.

Do lado polonês, a vila de Białowieża abriga a sede do Parque Nacional de Białowieża, criado em 1932, um dos mais antigos da Europa. O núcleo do parque é reserva estrita: só se entra a pé, com guia credenciado.

Do lado bielorrusso, o Parque Nacional Belavezhskaya Pushcha tem sede na vila de Kamianiuki. Dentro dele fica Viskuli, uma casa de caça do governo soviético. Ali, em 8 de dezembro de 1991, os líderes da Rússia, da Ucrânia e de Belarus assinaram o acordo que declarou extinta a União Soviética.

A floresta, portanto, viu nascer a fronteira em 1945 e viu desaparecer, 46 anos depois, o país que a desenhou do lado leste.

 
 

II  O que tem ali

II, Os bisões que saíram do zoológico

Białowieża abriga lobos, linces, alces, castores e mais de mil espécies de besouros que só vivem em madeira morta. O animal-símbolo, porém, é o bisão-europeu, chamado em polonês de żubr (bisão-europeu), o maior mamífero terrestre da Europa.

A espécie quase acabou ali mesmo. Na Primeira Guerra, tropas alemãs ocuparam a floresta e caçaram os animais para comer. No começo dos anos 1920, um caçador ilegal abateu o último bisão selvagem de Białowieża.

Restavam só animais de zoológico e de coleções particulares. Em 1932, a zoóloga alemã Erna Mohr abriu o European Bison Pedigree Book (o livro genealógico do bisão-europeu), que registra cada animal da espécie. O livro hoje fica a cargo do próprio Parque Nacional de Białowieża.

Segundo esse livro, todos os bisões-europeus de planície vivos hoje descendem de 12 fundadores. A floresta recebeu os primeiros em 1929, num cercado de reprodução montado perto da vila.

A soltura polonesa veio em 1952. O lado soviético fez o próprio programa e soltou a sua manada pouco depois. Os dois grupos vinham de uma origem comum e trocavam animais pela mata.

O QUE O ARAME SEPARA

Desde os anos 1980, uma cerca soviética de arame já corria pela divisa do lado bielorrusso; o muro polonês de 2022 fechou a faixa de mata que ainda ficava aberta.

Os bisões dos dois países já viviam quase isolados por essa cerca antiga. O muro de aço tira a pouca passagem que sobrava e corta também a rota de lobos e linces, animais que percorrem dezenas de quilômetros atrás de território e de parceiro.

O Instituto de Pesquisa de Mamíferos da Academia Polonesa de Ciências, que tem sede dentro da própria vila de Białowieża, alertou durante a obra que o muro isola as populações de cada lado e reduz a troca de genes entre elas.

Para o bisão, a troca de genes pesa mais que para qualquer outro animal da mata. Com 12 fundadores, a espécie já carrega pouca variedade genética, e cada manada separada perde um pouco mais a cada geração.

No inverno, os guardas poloneses espalham feno em clareiras de alimentação para segurar a manada dentro da mata. Sem esse reforço, os bisões saem para as lavouras vizinhas, onde comem o capim dos fazendeiros e atravessam estradas. Com o muro fechando o leste, a mata disponível para cada manada encolheu, e a pressão sobre as lavouras do lado polonês cresce.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, Uma divisa riscada em Ialta

A linha que corta a floresta segue, com ajustes, a Linha Curzon, proposta em 1919 pelo ministro britânico das Relações Exteriores, Lord Curzon, para separar a Polônia da Rússia soviética pela maioria étnica de cada região.

A proposta ficou na gaveta por 26 anos. Ela voltou à mesa em 1945, quando o exército soviético ocupava toda a região e Josef Stálin queria manter as terras do leste polonês tomadas em 1939.

A fronteira saiu do papel em três passos:

1. Fevereiro de 1945, Ialta: Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Stálin aceitam a Linha Curzon como fronteira leste da Polônia.

2. Agosto de 1945, Moscou: Polônia e União Soviética assinam o tratado de fronteira, que fixa o traçado no papel.

3. De 1946 a 1947: uma comissão mista finca os marcos no chão e divide a floresta entre Varsóvia e Moscou.

O comunicado da Conferência da Crimeia, assinado em Ialta em 1945, deixou a margem para o ajuste: a fronteira seguiria a Linha Curzon “com desvios, em algumas regiões, de cinco a oito quilômetros a favor da Polônia”. Um desses desvios deixou a vila de Białowieża e a fatia oeste da mata do lado polonês.

DE DIVISA A MURO

Em 2004 a Polônia entrou na União Europeia, e a linha no meio da floresta virou fronteira externa do bloco.

O peso de ser fronteira externa apareceu em 2021. Milhares de imigrantes chegaram à mata pelo lado bielorrusso, e o parlamento polonês aprovou a construção do muro em outubro daquele ano. A obra levou cerca de cinco meses.

A floresta já tinha passado por outra briga com a União Europeia. Em 2017, o ministro polonês do Meio Ambiente, Jan Szyszko, ampliou o corte de árvores em Białowieża alegando combate ao besouro-tipógrafo (Ips typographus, inseto que ataca abetos). Em abril de 2018, o Tribunal de Justiça da União Europeia julgou o corte ilegal, e as máquinas saíram.

O muro segue de pé, vigiado pela Guarda de Fronteira polonesa, e não existe prazo oficial para retirá-lo.

Em junho de 2024, o governo polonês criou ainda uma zona de exclusão ao longo da divisa, com 200 metros de largura em boa parte do trecho. Dentro dela, turistas, guias e moradores sem autorização não entram, e algumas trilhas do parque ficaram fechadas. O governo prorroga a zona por decreto, de tempos em tempos.

“Quanto tempo uma manada leva para abandonar uma trilha que termina em aço?”

O traçado do muro aparece no mapa da Guarda de Fronteira da Polônia, e a contagem de bisões sai no censo de inverno do Parque Nacional de Białowieża, feito em fevereiro. Reconfira o próximo censo em bpn.gov.pl em março de 2027.

 
 
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Qual foi o motivo declarado pelo governo polonês para terminar o muro de 186 km em junho de 2022?

AProteger a mata de caçadores e madeireiros que cruzavam a divisa
BConter a travessia de imigrantes que Belarus levou até a fronteira
CFechar a antiga reserva de caça dos czares russos dentro da mata
DRecriar a Linha Curzon, traçada em 1919 para separar a Polônia da Rússia

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