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O mar que não tem praia nenhuma

As quatro bordas do mar dos Sargaços são correntes em movimento, e a enguia europeia atravessa o Atlântico inteiro para desovar dentro delas.

Esteiras de alga sargaço flutuando na superfície azul-escura do Atlântico Norte aberto.

Esteira de sargaço em mar aberto, sem costa

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O punhado de alga sai da água morno na mão, escorrendo, com cheiro de iodo e de casca de melão cortada, e as bolinhas de gás que seguram a touceira na superfície estouram entre os dedos com um estalo curto e seco. A água em volta é azul de tinta, e o cabo de aço do barco continua visível muitos metros abaixo, sem sumir no verde turvo que aparece perto de qualquer costa.

O lugar é o mar dos Sargaços, no meio do Atlântico Norte, e ele é o único mar do planeta que não encosta em terra firme em ponto nenhum do contorno. Os outros mares se definem por onde a água para: uma península, um arquipélago, uma linha de praia na carta náutica. Este se define por quatro correntes oceânicas que giram ao redor dele e o prendem no centro do giro.

A água ali é pobre em nutrientes, o que os oceanógrafos chamam de oligotrófica, e por causa dessa escassez quase não há plâncton em suspensão para espalhar a luz. A série temporal BATS, medida desde 1988 pelo Bermuda Institute of Ocean Sciences a poucos quilômetros dali, registra na região alguns dos teores de clorofila mais baixos do Atlântico Norte. O azul intenso e a transparência vêm dessa pobreza, não de limpeza.

No meio dessa água rala acontece uma das migrações mais longas de qualquer peixe de água doce do mundo. A enguia europeia, Anguilla anguilla, nasce em algum ponto dentro do mar dos Sargaços, deriva como larva até os rios da Europa, passa lá anos de vida adulta e volta para cruzar o Atlântico na direção contrária. O biólogo dinamarquês Johannes Schmidt levou quase duas décadas de campanhas para apontar o berço nesta parte do mapa.

Antes da alga e da enguia, vale entender onde exatamente fica um mar que ninguém consegue apontar pela linha de costa, e de onde vem o nome que os navegantes portugueses deram a ele.

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I  O mapa do dia

I, Quatro correntes fazendo o serviço de uma praia

As quatro bordas deste mar mudam de lugar com o vento.

O mar dos Sargaços ocupa a parte oeste e central do Atlântico Norte subtropical, com algo em torno de 1.100 quilômetros de largura no sentido norte-sul e perto de 3.200 quilômetros no sentido leste-oeste. Bermudas, arquipélago britânico com aeroporto internacional e cerca de 64 mil habitantes, é o único pedaço de terra dentro dele, encravado na metade oeste.

As bordas são águas em movimento. A oeste corre a Corrente do Golfo, que sobe quente pela costa americana. Ao norte, a Corrente do Atlântico Norte, continuação dela, atravessa o oceano na direção da Europa. A leste desce a Corrente das Canárias, fria, pela altura de Marrocos e das ilhas Canárias. Ao sul, a Corrente Equatorial Norte fecha o circuito voltando para oeste, e as quatro juntas formam o giro subtropical do Atlântico Norte.

Uma borda de corrente não tem coordenada fixa. Ela oscila com a estação e com a força do vento, e a frente da Corrente do Golfo migra dezenas de quilômetros de uma medição para outra. Por causa disso, os limites do mar dos Sargaços aparecem tracejados nos atlas sérios, e dois mapas de anos diferentes desenham contornos que não coincidem.

A ORIGEM DO NOME

O nome é português e vem da planta. Os navegantes que cruzaram a região no século XV encontraram a superfície tomada por touceiras de alga marrom flutuando soltas e chamaram aquilo de sargaço, palavra que já usavam em Portugal para as algas que o mar deposita na praia. O termo pegou nas cartas náuticas europeias e virou o nome do mar inteiro.

Cristóvão Colombo atravessou a área em setembro de 1492 e o diário de bordo da primeira viagem registra a alga em quantidade dia após dia, a ponto de a tripulação achar que havia recife raso por perto e começar a sondar em busca de fundo. A sondagem não encontrou nada: ali a coluna de água passa dos quatro mil metros.

A ausência de costa tem consequência de cartório. Mar sem litoral é mar sem país soberano na margem, e quase toda a área fica em águas internacionais, fora da zona econômica exclusiva de qualquer nação, a faixa de 200 milhas náuticas em que um Estado controla a pesca e o fundo. Proteger aquilo exige acordo entre governos que não têm praia ali.

O que existe para proteger começa na touceira de alga que Colombo viu da amurada.

 
 

II  O que tem ali

II, A floresta que flutua e o berço que ninguém viu

O sargaço do alto-mar não é alga arrancada do fundo. Duas espécies, Sargassum natans e Sargassum fluitans, são holopelágicas, isto é, passam a vida inteira flutuando em mar aberto e se reproduzem por fragmentação, sem nunca se fixar em rocha. Cada touceira se sustenta em pneumatóforos, as bolinhas cheias de gás que funcionam como flutuador.

As touceiras se juntam em esteiras alinhadas pelo vento, em faixas que seguem por quilômetros. Embaixo delas vive uma comunidade inteira: camarões, caranguejos e peixes pequenos que copiaram a cor e o recorte da alga. O peixe-sargaço, Histrio histrio, tem nadadeiras em forma de folha e manchas marrons que imitam o pneumatóforo, e caça emboscado dentro da própria moita que o esconde.

Tartarugas-marinhas recém-saídas do ninho na Flórida entram na Corrente do Golfo e terminam dentro dessas esteiras, onde passam o que os biólogos chamam de anos perdidos, o trecho da vida da tartaruga em que ninguém a encontra. A alga dá sombra, abrigo contra predador e comida, e é o que explica o sumiço.

"Não existe em nenhum outro lugar do mundo nada parecido com o mar dos Sargaços."

Rachel Carson, O Mar que nos Cerca, 1951.

Johannes Schmidt começou as campanhas em 1904 e publicou o resultado em 1922, nas Philosophical Transactions of the Royal Society. O método foi bruto e paciente: arrastar rede por todo o Atlântico e medir as larvas de enguia, os leptocéfalos, larvas transparentes e achatadas em forma de folha de salgueiro. Quanto menor a larva, mais perto do berço. As menores de todas apareceram no mar dos Sargaços.

A desova nunca foi observada. Ninguém jamais viu uma enguia europeia adulta desovando em mar aberto, e nenhum ovo da espécie foi coletado na natureza. O berço é deduzido do tamanho das larvas e, mais recentemente, do rastro dos adultos: em 2022, um estudo publicado na Scientific Reports acompanhou enguias marcadas com transmissor por satélite desde os Açores até a borda da área, o primeiro registro direto de adultos chegando perto do ponto.

A larva faz o caminho de volta pendurada na corrente, por um período que vai de um a dois anos e meio, e depois se transforma em enguia-de-vidro, filhote transparente do tamanho de um dedo que sobe os rios europeus. A espécie está listada como criticamente ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, com a chegada de filhotes aos rios muito abaixo do nível dos anos 1970.

A mesma água que concentra a alga concentra o que o mar carrega de errado. Em 1972, os pesquisadores Edward Carpenter e Kenneth Smith Jr. publicaram na revista Science a primeira medição de plástico flutuante em alto-mar, feita ali mesmo: cerca de 3.500 fragmentos por quilômetro quadrado, a maioria pelotas brancas de matéria-prima industrial. O artigo já alertava que os pedaços servem de superfície para bactérias e são engolidos por peixe.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, O giro que empilha água no meio do oceano

A explicação de por que a linha passa exatamente ali começa no vento. Nos trópicos sopram os alísios, de leste para oeste; nas latitudes médias sopram os ventos de oeste, na direção contrária. As duas faixas empurram a superfície do oceano em sentidos opostos e põem a água a girar no sentido dos ponteiros do relógio.

A rotação da Terra entra em seguida. O efeito de Coriolis, o desvio que a rotação impõe a qualquer coisa que se mova sobre o planeta, empurra a camada superficial para a direita do vento no hemisfério norte. Somando as duas faixas, a água de cima é desviada para dentro do giro, empurrão que os oceanógrafos chamam de transporte de Ekman.

Empurrada de todos os lados, a água se acumula no meio: a superfície do mar no centro do giro fica cerca de um metro mais alta que nas bordas, diferença medida por satélite altimétrico. A elevação faz a água descer devagar no centro, movimento chamado de subsidência, e a descida impede que o nutriente do fundo suba até a luz.

Aí fecha o círculo. Sem nutriente subindo, quase não há fitoplâncton; sem fitoplâncton, a água fica transparente e azul-escura; e o que flutua, como a alga e o plástico, roda dentro do giro sem encontrar saída. O mar dos Sargaços é o meio parado de um redemoinho de três mil quilômetros.

1. Abra um mapa do Atlântico e marque as Bermudas. Ela fica a cerca de 1.000 quilômetros a leste da Carolina do Norte, sozinha em mar aberto.

2. Desenhe a curva da Corrente do Golfo saindo da Flórida, subindo junto à costa americana e virando para leste na altura de Nova York. Esse arco é a borda oeste e norte.

3. Feche o contorno descendo pela altura das Canárias e voltando para oeste perto do trópico de Câncer. O miolo que sobrou, com as Bermudas dentro, é o mar dos Sargaços.

Desde 2011 apareceu um fenômeno vizinho que não se confunde com este mar. O cinturão de sargaço do Atlântico tropical, descrito em 2019 pela equipe do oceanógrafo Chuanmin Hu, da Universidade do Sul da Flórida, na revista Science, é uma faixa de alga que vai do oeste da África ao Caribe e que em junho de 2018 chegou a cerca de 20 milhões de toneladas. Ela nasce mais ao sul, alimentada por nutriente de rio, e é a que suja as praias do Caribe e do Nordeste brasileiro.

A proteção do mar sem costa virou documento assinado em terra firme. A Declaração de Hamilton, firmada em 11 de março de 2014 na capital das Bermudas, criou a Comissão do Mar dos Sargaços, cooperação voluntária entre governos, sem força de lei, já que nenhum deles tem jurisdição sobre a água.

"Você chamaria de mar uma água cujas quatro bordas trocam de lugar todo ano?"

Os limites citados aqui são os adotados pela Comissão do Mar dos Sargaços, e a posição das bordas muda com a medição de corrente do ano. O laboratório de oceanografia óptica da Universidade do Sul da Flórida publica o boletim de sargaço do Atlântico na primeira semana de cada mês. Reconfira ali, na página do Sargassum Watch System, o panorama do mês que vem na primeira semana de outubro de 2026.

 
 

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Em 1972, o estudo de Edward Carpenter e Kenneth Smith Jr. na revista Science mediu quanto plástico flutuante no mar dos Sargaços?

A350 fragmentos por quilômetro quadrado
B1.200 fragmentos por quilômetro quadrado
C3.500 fragmentos por quilômetro quadrado
D10.000 fragmentos por quilômetro quadrado

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