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O lago que quadruplica de tamanho todo ano

No Camboja, o rio Tonlé Sap inverte o sentido quando o Mekong enche, e o lago que ele alimenta salta de 2.500 para mais de 10.000 km².

O lago Tonlé Sap, no centro do Camboja.

O lago cheio visto de Kampong Phluk

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A proa de madeira bate na água barrenta e o motor de um cilindro abafa tudo por um instante, até o barqueiro cortar a rotação. Vem então o cheiro de peixe secando em bandeja de bambu, misturado ao de lama quente, e um zumbido fino de mosquito rente à orelha. A casa mais próxima flutua sobre tambores de plástico azul, com uma televisão ligada lá dentro e roupa estendida na varanda.

O barco está no Tonlé Sap, o grande lago do centro do Camboja, e a água que ele corta em setembro tem sete metros de profundidade. Em março, o mesmo ponto seria um campo de capim com vaca pastando, e aquela casa estaria assentada no chão seco.

O lago encolhe e incha todo ano no mesmo compasso. Na estação seca ele ocupa perto de 2.500 quilômetros quadrados, com profundidade média de cerca de um metro. Na cheia, ultrapassa 10.000 quilômetros quadrados e atinge nove metros de fundo. A área quadruplica e o volume guardado ali multiplica por mais de dez.

O responsável pela mudança é um rio de 120 quilômetros que liga o lago ao Mekong, na altura de Phnom Penh, a capital cambojana. Entre junho e outubro, quando o Mekong sobe, esse rio para, hesita alguns dias e passa a correr para trás, empurrando água do grande rio lago adentro. Em outubro ou novembro ele volta ao sentido normal e devolve tudo.

Nenhuma bomba, comporta ou obra humana participa da manobra. O que faz o rio virar é o desenho do terreno: o Camboja central é tão plano que a altura do lago e a altura do Mekong trocam de posição conforme a estação, e a corrente obedece à que estiver por cima naquele mês do calendário.

Vale começar pela bacia rasa que guarda essa água, e pelo encontro de rios que decide o sentido dela.

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I  O mapa do dia

I, Uma bacia rasa no meio do Camboja

A cheia chega todo ano pelo mesmo caminho, e ele sobe ao contrário.

O Tonlé Sap ocupa o centro geográfico do país. Ele se estende no sentido noroeste-sudeste por cerca de 150 quilômetros na estação seca, com largura de 30 a 35 quilômetros, e banha as províncias de Siem Reap, Battambang, Pursat, Kampong Chhnang e Kampong Thom. A cidade de Siem Reap, porta de entrada dos templos de Angkor, fica a 15 quilômetros da margem norte.

A bacia é uma depressão herdada da geologia da região. O peso dos sedimentos que o Mekong despeja no delta e o soerguimento das terras altas em volta deixaram ali um fundo de tabuleiro, de declive quase nulo, sobre argila e areia fluvial. Num terreno assim, poucos centímetros por quilômetro bastam para decidir o caminho da água.

O nome descreve o fenômeno. Tonlé Sap, em khmer, o idioma do Camboja, quer dizer grande rio de água doce, e o mesmo nome serve para o lago e para o rio de 120 quilômetros que sai dele rumo ao sudeste. A palavra tonlé nomeia rio grande, e sap marca a água doce, oposta à salobra do delta.

O ENCONTRO DOS QUATRO BRAÇOS

Em Phnom Penh o rio Tonlé Sap encontra o Mekong num cruzamento que os cambojanos chamam de Chaktomuk, os quatro rostos: chegam o Mekong vindo do norte e o Tonlé Sap vindo do noroeste, e saem dali o Mekong inferior e o rio Bassac, os dois rumo ao delta no Vietnã. O centro histórico da capital está construído de frente para esse nó de água.

O cruzamento de Chaktomuk é o interruptor do sistema inteiro. Quando o Mekong chega alto demais, a água dele não cabe no canal de saída e sobe pela boca do Tonlé Sap, lago adentro. Quando o Mekong baixa, o lago fica mais alto que o cruzamento e esvazia pelo mesmo caminho, no sentido de sempre.

A cheia não para na margem. A água transborda a linha do lago seco e avança quilômetros por uma faixa de floresta alagada, um cinturão de arbustos e árvores baixas adaptados a passar meio ano submersos, com os troncos cobertos até a copa. Essa faixa alagável chega a somar mais de 6.000 quilômetros quadrados nos anos de cheia forte.

As estradas contornam o alagado por fora. A rodovia nacional 5, rumo a Battambang, e a nacional 6, rumo a Siem Reap, correm sobre aterros na borda da planície, longe do espelho d'água. Na cheia, boa parte do trajeto entre as duas cidades se resolve melhor de barco.

Estabelecida a bacia, sobra olhar quem vive dentro dela.

 
 

II  O que tem ali

II, Peixe, floresta submersa e casas sobre tambores

A floresta alagada funciona como berçário. Quando a água invade a mata, os peixes entram atrás de insetos, frutos e matéria orgânica em decomposição, desovam entre os troncos e crescem protegidos de predadores maiores. A produtividade do lago vem dessa inundação anual, não da profundidade dele.

A pesca sustenta a mesa do país. A Comissão do Rio Mekong, organismo que reúne Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, registra o Tonlé Sap entre as pescarias de água doce mais produtivas do planeta e aponta o peixe de rio como principal fonte de proteína animal dos cambojanos. A espécie mais capturada é a trey riel, um pequeno peixe migratório que batizou a moeda nacional.

Existe uma pescaria que só funciona na virada. Quando a água começa a descer, em outubro e novembro, os cardumes que engordaram na mata saem em massa pelo rio Tonlé Sap rumo ao Mekong, e as famílias montam armadilhas de bambu e redes fixas nesse corredor. O calendário de pesca da região inteira se organiza em torno dessas semanas.

"As casas dos nativos são construídas sobre jangadas e mudam de lugar conforme a água sobe ou desce."

Zhou Daguan, diplomata chinês que passou quase um ano em Angkor, em "Relato dos costumes do Camboja", de 1297. O texto dele é o único relato escrito de um visitante contemporâneo do império khmer no auge, e já descrevia as moradias flutuantes do lago.

Os povoados sobre a água continuam ali. Chong Kneas, Kampong Phluk e Kampong Khleang reúnem escolas, mercados, oficinas e templos em casas flutuantes ou em palafitas de seis a dez metros, a madeira calculada para deixar o piso acima da cheia. Boa parte dos moradores vem de famílias de origem vietnamita e cham, um povo muçulmano do antigo reino de Champa.

Em Prek Toal, na ponta noroeste do lago, a floresta alagada abriga a maior colônia reprodutiva de aves aquáticas grandes do Sudeste Asiático, com pelicanos de bico pintado, cegonhas e o raro íbis gigante. A área virou santuário monitorado por ex-caçadores contratados como guardas dos ninhos.

O reconhecimento internacional é antigo. A UNESCO declarou o Tonlé Sap reserva da biosfera em 1997, com três núcleos protegidos, entre eles Prek Toal, cercados por zonas de uso regulado. Sem a mata de borda, a cheia perde a função de berçário.

O lago também sustentou um império. Angkor, capital khmer entre os séculos IX e XV, viveu de arroz irrigado, com reservatórios enormes chamados baray e canais que aproveitavam a mesma sazonalidade. A fartura de peixe aparece esculpida nos baixos-relevos do templo de Bayon.

Entendido o que a cheia alimenta, falta a mecânica que a produz.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, A monção decide o sentido da corrente

Tudo começa a 4 mil quilômetros dali. O Mekong nasce no planalto do Tibete e desce por China, Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã. Entre maio e setembro, a monção de sudoeste despeja chuva sobre a bacia inteira e o degelo das cabeceiras entra na conta, e a vazão do rio na altura de Phnom Penh sobe dez vezes em relação ao mínimo da seca.

O canal de saída não dá conta. Todo esse volume precisa atravessar o delta até o mar, num terreno de declive mínimo, e a água represa a montante. O nível do Mekong em Phnom Penh sobe cerca de oito metros entre o mínimo de abril e o pico de setembro, e passa a ficar mais alto que o nível do lago.

A partir daí a física é simples. Água corre para onde o nível está mais baixo, e o rio Tonlé Sap, com queda de poucos centímetros por quilômetro, não tem declive próprio forte o bastante para resistir. A corrente desacelera, estaciona por alguns dias e inverte, levando ao lago de 10 a 20 por cento do volume que desce pelo Mekong na cheia.

A inversão devolve o favor na seca. Entre novembro e maio, o lago drena devagar pelo mesmo rio e sustenta a vazão do Mekong inferior, mantendo o delta vietnamita com água doce bastante para afastar a cunha salgada do mar das plantações de arroz.

1. Abra o mapa do Sudeste Asiático e ache Phnom Penh, no sul do Camboja, onde o Mekong recebe um rio pela margem direita.

2. Suba esse rio para noroeste por 120 quilômetros. Ele desemboca numa mancha alongada de água: o lago Tonlé Sap.

3. Marque a ponta norte da mancha. A 15 quilômetros dali, em terra firme, estão os templos de Angkor.

O ritmo enfrenta concorrência rio acima. A bacia do Mekong ganhou dezenas de hidrelétricas desde os anos 1990, a maioria na China e no Laos, e reservatório guarda água na cheia para soltar na seca, o contrário do pulso natural. O resultado em campo é cheia mais baixa, atrasada e curta.

Existe medição nomeada para o efeito. O relatório "Eyes on Earth", de 2020, assinado por Alan Basist e Claude Williams e encomendado pelo Centro Stimson, comparou dados de satélite de umidade na bacia alta com o nível do rio a jusante e concluiu que as barragens chinesas retiveram água durante a seca de 2019, quando o Tonlé Sap teve uma das inversões mais fracas já registradas. O mesmo Centro Stimson mantém desde 2020 o Mekong Dam Monitor, painel público que estima semanalmente o volume retido em cada reservatório.

O que está em jogo não é paisagem. Perto de dois milhões de cambojanos vivem no entorno imediato do lago e dependem da pesca e do arroz de vazante, a lavoura plantada na lama que a água deixa ao recuar. Cheia fraca significa menos floresta alagada inundada, menos desova e menos peixe na temporada seguinte.

"Quantos calendários da sua vida dependem de uma chuva que cai longe demais para você ver?"

A Comissão do Rio Mekong publica o nível diário do rio na estação de Prek Kdam, no meio do trecho invertido, em portal.mrcmekong.org, e o Mekong Dam Monitor atualiza a estimativa de retenção toda semana. A inversão de 2026 se encerra entre o fim de outubro e meados de novembro: reconfira o nível de Prek Kdam nesses dois lugares na primeira semana de novembro de 2026, quando a cheia do ano já estará fechada.

 
 
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Quiz da edição

Quantos quilômetros tem o rio Tonlé Sap, o trecho que liga o lago ao Mekong em Phnom Penh e inverte de sentido entre junho e outubro?

A30 km
B120 km
C150 km
D6.000 km

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