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O lago artificial que cobre 3,6% de um país

A barragem de Akosombo fechou o rio Volta em 1965 e formou um lago de 8.502 km², o maior reservatório construído por gente em área de espelho d'água.

O lago Volta, no leste de Gana.

A represa de Akosombo, no sul de Gana

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A água bate no casco de madeira e, logo abaixo da linha d'água, vem um raspar surdo: o barco acabou de encostar num tronco que continua em pé a três metros de profundidade. Cheira a peixe defumado na brasa e a óleo queimado de motor de popa. A tábua do banco já esquenta às dez da manhã, e o pescador corta o motor antes de entrar no trecho de madeira submersa.

O barco está no lago Volta, no leste de Gana, e a floresta que ele contorna foi coberta pela água a partir de 1965. Aquelas árvores nunca foram derrubadas: a represa encheu por cima delas.

O espelho d'água soma 8.502 quilômetros quadrados, perto de 3,6% de todo o território ganense. Nenhum outro reservatório erguido por gente cobre tanta superfície no planeta. A mancha se estende por cerca de 400 quilômetros, do paredão de Akosombo, no sul, até a altura de Yapei, já no centro-norte do país.

Nada disso existia antes de uma barragem de 660 metros de crista fechar o rio Volta numa garganta estreita de quartzito. O reservatório levou quatro anos para atingir a cota de operação, e o vale foi sumindo devagar, curva por curva, enquanto o nível subia.

A Volta River Authority, estatal ganense criada em 1961 para tocar a obra e operar a usina, reassentou cerca de 80 mil pessoas de 739 povoados antes da água chegar. As casas, as roças, os mercados e os cemitérios dessas famílias ficaram no fundo. Os moradores foram levados para 52 vilas novas, construídas às pressas em terra alta.

A obra nasceu com um comprador de energia já contratado. A usina de Akosombo foi projetada para alimentar a fundição de alumínio da Volta Aluminium Company, em Tema, no litoral, e o restante da eletricidade acendeu a rede nacional de um país que, em 1965, tinha pouquíssima geração própria.

Vale começar pelo formato dessa mancha de água e pelos rios que despejam nela.

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I  O mapa do dia

I, Uma língua de água de 400 quilômetros

A represa fechou o rio num ponto só, e a água parou 400 quilômetros acima.

O lago Volta ocupa o centro-leste de Gana e toca sete das dezesseis regiões do país, entre elas a Região Oriental, a Volta, a Oti, a Bono Oriental, a Savana e a Norte. A cidade de Akosombo, junto ao paredão, fica a cerca de 100 quilômetros de Acra, a capital ganense, por estrada asfaltada.

O formato lembra uma árvore deitada. O tronco principal segue o antigo leito do rio Volta no sentido norte-sul, e dele partem braços compridos que subiram pelos vales dos afluentes: o maior deles é o braço do rio Afram, a oeste, que avança por mais de 100 quilômetros terra adentro e deixou a chamada planície de Afram quase isolada por água.

Três rios enchem esse volume. O Volta Negro chega do noroeste, depois de correr por Burkina Faso e pela Costa do Marfim; o Volta Branco desce do norte, também de Burkina Faso; e o rio Oti entra pelo nordeste, vindo do Togo e do Benim. Os três se encontram hoje dentro do próprio lago, não mais em confluências de rio a céu aberto.

A BACIA QUE NÃO RESPEITA FRONTEIRA

A bacia do Volta soma cerca de 400 mil quilômetros quadrados e se reparte por seis países: Gana, Burkina Faso, Togo, Benim, Costa do Marfim e Mali. Gana fica com a foz e com quase toda a área alagada, e a chuva que enche o reservatório cai, em boa parte, no Sahel burquinense, a 800 quilômetros do paredão.

A largura do lago varia muito. Em alguns trechos a outra margem some no horizonte, com mais de 25 quilômetros de água aberta; em outros, o reservatório se aperta entre morros e vira um canal de poucos quilômetros. O ponto mais fundo passa dos 75 metros, perto da barragem, e a profundidade média fica em torno de 19 metros.

A travessia virou parte da malha de transporte. A Volta Lake Transport Company opera uma balsa entre Akosombo e Yeji que sobe o lago inteiro em cerca de 24 horas, levando gente, saco de milho e inhame, e existe uma travessia curta em Yeji que liga as duas margens no trecho médio, usada por caminhão e por comerciante do norte.

A península de Digya avança pela margem oeste. Ali fica o Parque Nacional de Digya, criado em 1971, com mais de 3.400 quilômetros quadrados de savana e mata de galeria, onde vivem elefantes, búfalos e hipopótamos, e cuja borda leste é hoje uma linha de praia de lago.

Estabelecido o desenho da mancha, sobra olhar o que existe dentro e em volta dela.

 
 

II  O que tem ali

II, Troncos em pé debaixo da superfície

A floresta submersa ainda está lá. Quando a água subiu, boa parte da mata do vale ficou de pé no fundo, e estima-se que dezenas de milhões de árvores continuem enraizadas sob o lago, com galhos a poucos metros da superfície em trechos rasos. Madeira encharcada em água doce e sem oxigênio apodrece devagar, e os troncos aguentam décadas ali embaixo.

Essa madeira virou negócio. Empresas de corte subaquático operam no lago desde os anos 2000, com serras hidráulicas guiadas por sonar que derrubam o tronco no fundo e o trazem à tona por boia, e a madeira de odum, ébano e mogno sai dali para marcenaria e piso. A Comissão Florestal de Gana licencia a atividade por área.

Os mesmos troncos complicam a navegação. Barco de pescador e balsa desviam por canais conhecidos, e o casco que bate num galho submerso rasga ou emborca; o transporte no lago é a via principal de várias comunidades que não têm estrada asfaltada por perto.

"Não olhamos nem para o Leste nem para o Oeste: olhamos para a frente."

Kwame Nkrumah, primeiro presidente de Gana, em "Africa Must Unite", de 1963. A frase resume a posição que ele defendia enquanto negociava o financiamento de Akosombo com o Banco Mundial, com Washington e com capital privado americano, no auge da Guerra Fria.

A pesca sustenta a economia da margem. O lago virou o maior pesqueiro de água doce do país, com tilápia, bagre africano e a pequena chamada dagaa secando ao sol em varal de bambu nos povoados, e a Autoridade de Pesca e Aquicultura de Gana licencia gaiolas flutuantes de criação de tilápia no trecho sul, perto de Asuogyaman.

O nível da água manda na lavoura da borda. Quando o lago recua na estação seca, aparece uma faixa de lama fértil, e famílias plantam ali milho, mandioca e hortaliça de ciclo curto, com a colheita calculada para sair antes de a chuva devolver a água ao lugar.

A jusante do paredão, o rio mudou de comportamento. A barragem reteve o sedimento que antes descia até o delta do Volta, em Ada, e a costa ali passou a recuar; o governo ganense construiu, entre 2000 e 2015, quilômetros de enrocamento em Keta e em Ada Foah para segurar a linha de praia e as casas de pescador.

Existe uma segunda usina no mesmo rio. A barragem de Kpong, inaugurada em 1982, fica 24 quilômetros abaixo de Akosombo e aproveita a água já turbinada, com 160 megawatts de capacidade, e o reservatório dela é pequeno perto do vizinho de cima.

Entendido o que o lago guarda, falta a razão de a represa ter sido fechada justo naquele ponto.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, A garganta de quartzito em Akosombo

O rio Volta atravessa uma cordilheira antes de chegar ao mar. As serras Akwapim-Togo cortam o sudeste de Gana no sentido sudoeste-nordeste, formadas por quartzito e xisto de idade pré-cambriana, rochas duras que resistiram à erosão enquanto o terreno em volta baixava.

O rio achou uma passagem estreita nesse paredão. Na altura de Akosombo, o Volta se aperta numa garganta de algumas centenas de metros de largura, com ombros de rocha firme nos dois lados, e essa é a razão física da escolha do local: a barragem precisava de pouco comprimento e tinha onde se ancorar.

A montante, o contrário. Depois da garganta, o terreno abre na bacia sedimentar do Volta, uma depressão rasa de arenito e folhelho que cobre cerca de 40% de Gana, com declive suave e vales largos. Represar a saída de uma bacia assim alaga área enorme com altura de parede modesta, o que explica o espelho d'água gigante para uma queda de pouco mais de 70 metros.

A estrutura é de enrocamento com núcleo de argila: 660 metros de crista, 114 metros de altura e seis turbinas. A potência instalada saiu de 912 megawatts na inauguração para 1.020 megawatts depois do retrofit concluído em 2006, e o presidente Kwame Nkrumah inaugurou a usina em 22 de janeiro de 1966, um mês antes de ser deposto por um golpe militar.

1. Abra o mapa da África Ocidental e ache Acra, na costa sul de Gana, no golfo da Guiné.

2. Suba cerca de 100 quilômetros para nordeste até Akosombo, onde uma linha de serra cruza o rio Volta.

3. Siga a mancha de água daí para o norte por 400 quilômetros. A ponta dela morre perto de Yapei, já na rota terrestre para Tamale.

Depender de um lago tem preço. A geração de Akosombo cai quando a cota baixa, e Gana viveu apagões prolongados na seca de 1983 e 1984 e de novo em 2006 e 2007, quando o nível chegou perto do mínimo operacional; desde então o país acrescentou térmicas a gás para não pendurar a rede inteira na chuva do Sahel.

O excesso também cobra. Em outubro de 2023, a Volta River Authority abriu as comportas de Akosombo e Kpong diante de um nível alto, e a Organização Nacional de Gestão de Desastres de Gana registrou mais de 25 mil pessoas fora de casa nos distritos ribeirinhos a jusante, em Mepe, Battor e Sogakope.

"Quantas horas da sua semana dependem de uma chuva que cai num país que você nunca visitou?"

A Volta River Authority publica a cota diária do lago em vra.com, em pés acima do nível do mar, com faixa de operação entre 240 e 278 pés, e o serviço meteorológico ganense acompanha a chuva da bacia. A cheia de 2026 se fecha entre o fim de outubro e o começo de novembro: reconfira a cota de Akosombo nesse painel da VRA na primeira semana de novembro de 2026, com o ano hidrológico já encerrado.

 
 
O Olho de Geógrafo: oito pistas, uma por dia: A mão da estrada, A sombra ao meio do dia, A placa que o país assina, A chapa do carro, O poste que a rua repete, O telhado, o muro e a caixa d'água, A vegetação e a cor do chão, A letra na parede e o acento que decide. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
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Quantas pessoas a Volta River Authority reassentou de 739 povoados antes da água do lago Volta cobrir o vale?

A30 mil
B50 mil
C80 mil
D120 mil

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