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O Golfo do México ganha uma zona sem oxigênio todo verão

O nitrogênio das lavouras de milho desce o Mississippi e sufoca o fundo do mar numa área recorde de 22.720 quilômetros quadrados.

Barco de pesquisa sobre o mar esverdeado na costa da Luisiana.

Barco de pesquisa na costa da Luisiana, Golfo do México

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A sonda sobe pingando lodo cinza e cheira a ovo podre. No convés do barco de pesquisa, o mostrador de oxigênio marca quase zero, e o técnico anota o número com a caneta molhada de suor.

O calor do verão cola a camisa nas costas. A água da superfície, morna e esverdeada, parece normal: tem gaivota mergulhando e peixe pequeno pulando perto do casco.

Vinte metros abaixo, no fundo, quase nada vivo sobra. Caranguejos e estrelas-do-mar que não conseguiram fugir apodrecem sobre a lama, enquanto camarões e peixes já se afastaram rumo à costa ou ao mar aberto.

O barco está na plataforma continental da Luisiana, a faixa rasa de mar ao largo do delta do rio Mississippi, no Golfo do México. Ali, todo ano, entre a primavera e o começo do outono, se forma a maior zona morta das águas americanas.

Zona morta, para os oceanógrafos, é um trecho de fundo com hipóxia (falta de oxigênio dissolvido na água), abaixo de 2 miligramas por litro. Nesse nível, quase todo animal que respira por guelras foge ou sufoca.

Na medição recorde, feita pelo Consórcio Marinho das Universidades da Luisiana (Lumcon) no verão de 2017, a mancha cobriu 22.720 km², área parecida com a do estado de Sergipe. Quem tentasse atravessá-la de barco, de leste a oeste, navegaria horas sobre um fundo quase sem vida, sem ver nada de diferente na superfície.

A água sem ar não nasce no mar. Ela começa a milhares de quilômetros dali, em lavouras de milho e soja do Meio-Oeste americano, no esgoto de cidades como Minneapolis e St. Louis e em pastos onde o gado deixa esterco.

Todo esse nitrogênio escorre para afluentes que terminam num rio só. O mapa abaixo segue essa água desde a nascente até o fundo do Golfo, e mostra por que a mancha se deita sempre no mesmo trecho de costa.

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I  O mapa do dia

Um funil de 31 estados

Da chuva em Iowa ao fundo do Golfo.

O rio Mississippi nasce no lago Itasca, no norte de Minnesota, como um riacho raso que se atravessa a pé sobre pedras. Desce o continente inteiro até o delta, ao sul de Nova Orleans, e recebe pelo caminho rios enormes como o Missouri, vindo das Montanhas Rochosas, e o Ohio, vindo dos Apalaches.

A bacia desses rios encosta em 31 estados americanos e em duas províncias do Canadá. A Força-Tarefa do Golfo para a Hipóxia, grupo federal e estadual coordenado pela Agência de Proteção Ambiental americana (EPA), registra no plano de ação de 2008 que ela drena 41% do território continental do país.

Visto de cima, o desenho lembra um funil. A boca larga vai das Rochosas, a oeste, aos Apalaches, a leste; o gargalo fica na Luisiana, onde toda a água se espreme num canal só antes de chegar ao mar.

O CINTURÃO DO MILHO

O trecho mais fértil da bacia é também o que mais manda nitrogênio para o Golfo: o Cinturão do Milho, que cobre Iowa, Illinois, Indiana e partes dos estados vizinhos.

O milho precisa de nitrogênio para crescer, e o agricultor aplica o nutriente como fertilizante, em grânulos ou em amônia injetada no solo. A planta não aproveita tudo. A sobra vira nitrato (forma de nitrogênio que se dissolve na água) e desce com a chuva.

Em muitas fazendas de Iowa e Illinois, o caminho até o rio é curto. Os campos têm drenagem subterrânea, uma rede de canos perfurados enterrados a cerca de 1 metro, instalada para secar terras que antes eram brejo.

A água da chuva entra no cano e sai direto na valeta mais próxima, sem passar pelo filtro natural das plantas e da lama do brejo antigo, onde bactérias consumiam o nitrato.

Dessas valetas a água segue para riachos, deles para rios como o Des Moines, o Illinois e o Wabash, e deles para o Mississippi ou o Ohio. Uma gota de chuva que cai num milharal de Iowa na primavera chega ao Golfo semanas depois.

Mark Twain, que pilotou barcos a vapor nesse rio antes de virar escritor, abriu Life on the Mississippi (Vida no Mississippi), de 1883, assim: “O Mississippi vale bem a leitura. Não é um rio comum, mas, ao contrário, é notável em todos os sentidos.”

No tempo de Twain, o rio carregava areia, troncos e lama. A carga pesada de nitrato chegou no século 20, quando o adubo sintético barateou depois da Segunda Guerra Mundial e as lavouras do Meio-Oeste passaram a usá-lo em escala industrial.

 
 

II  O que tem ali

O fundo sem ar

A hipóxia do Golfo começa com uma explosão de vida. Na primavera, o Mississippi despeja água doce carregada de nitrato na plataforma da Luisiana, e o nutriente alimenta o fitoplâncton (algas microscópicas que flutuam perto da superfície).

As algas se multiplicam tão depressa que a água fica verde ou marrom. Em poucas semanas, a maior parte delas morre e afunda, junto com as fezes dos minúsculos animais que as comeram.

No fundo, bactérias decompõem esse material e gastam oxigênio no trabalho. Quando o consumo passa da reposição, o oxigênio do fundo cai abaixo de 2 miligramas por litro, e o trecho entra na conta da zona morta.

A TAMPA DE ÁGUA DOCE

O oxigênio do fundo acaba porque a água de cima não se mistura com a de baixo: a doce, mais leve, fica por cima da salgada como uma tampa.

Ao chegar ao Golfo, a água do rio se espalha pela superfície numa camada de poucos metros, e o sol do verão aquece essa camada e a deixa mais leve ainda. Os oceanógrafos chamam o arranjo de estratificação (separação da água em camadas que não se misturam).

Com a tampa no lugar, o oxigênio que entra pela superfície, vindo do ar e das algas vivas, não desce. O fundo fica isolado, e as bactérias consomem o que sobrou dele.

A tampa só se rompe com vento forte. Furacões e frentes frias de setembro e outubro reviram a água, misturam as camadas e levam oxigênio de volta ao fundo. Um furacão que passa pela costa antes da medição anual encolhe a zona morta daquele verão.

Os animais reagem conforme conseguem nadar. Peixes e camarões fogem para águas mais oxigenadas, perto da praia ou mais ao largo. Vermes, mariscos, caranguejos e estrelas-do-mar, presos ao fundo ou lentos demais, sufocam no lugar.

A pesca sente o efeito no preço. Um estudo da Universidade Duke publicado na revista PNAS em 2017, liderado pelo economista Martin Smith, mostrou que os anos de hipóxia forte deixam o camarão grande mais escasso e mais caro no mercado americano, porque a frota acaba pescando camarão pequeno.

A medição oficial acontece uma vez por ano. Desde 1985, a equipe da oceanógrafa Nancy Rabalais, do Lumcon, embarca nos últimos dias de julho no navio de pesquisa Pelican e percorre a plataforma da Luisiana e do Texas baixando sondas em dezenas de pontos.

Os pontos medidos viram um mapa de contorno. A área cercada pela linha dos 2 miligramas é o número divulgado no começo de agosto, e o recorde da série continua sendo o de 2017.

 

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III  Por que a linha passa ali

A mancha que se deita a oeste do delta

A zona morta não forma um círculo em volta da foz. Ela se estende para oeste, colada à costa da Luisiana, às vezes até a fronteira do Texas, numa faixa comprida e estreita sobre a plataforma rasa.

Quem desenha a faixa é a corrente costeira. Durante a maior parte do ano, os ventos do Golfo empurram a água do rio para oeste assim que ela sai do delta, e a pluma de água doce corre junto à costa como uma estrada de nutrientes.

O Mississippi também tem duas bocas. Perto da cidade de Simmesport, parte da água entra no rio Atchafalaya e chega ao mar por um caminho mais curto, mais a oeste, na baía de Atchafalaya.

A COMPORTA DO EXÉRCITO

A divisão da água entre as duas bocas é feita por comportas: a Estrutura de Controle de Old River, do Corpo de Engenheiros do Exército americano, que manda 30% da vazão para o Atchafalaya, cota fixada pelo Congresso americano em 1954.

Sem a obra, o Mississippi trocaria de leito. O Atchafalaya oferece um caminho mais curto e mais íngreme até o mar, e o rio vinha desviando cada vez mais água para ele nas décadas de 1940 e 1950. As comportas, concluídas em 1963, seguram o rio principal no canal de Baton Rouge e Nova Orleans.

As duas bocas jogam nitrato na mesma plataforma, uma a leste e outra a oeste. As plumas se somam ao longo da costa, e a zona morta se alonga entre elas.

A profundidade completa o desenho. A plataforma da Luisiana é rasa, e a água doce cobre essa lâmina de mar com facilidade. Mais ao largo, onde o fundo despenca para o talude continental, a tampa de água doce já se diluiu no mar aberto.

A Força-Tarefa do Golfo para a Hipóxia fixou em 2001 a meta de reduzir a média de cinco anos da zona morta para 5.000 km². O prazo inicial era 2015; numa revisão feita em 2015, a força-tarefa empurrou a meta para 2035, porque a mancha seguia muito maior.

Os planos estaduais de redução de nutrientes apostam em três frentes:

• Adubo na dose e na hora certas.

• Plantas de cobertura no inverno, que seguram o nitrato no solo.

• Brejos recriados na saída dos canos de drenagem.

Desde 2025, um decreto do presidente Donald Trump chama o mar de Golfo da América nos documentos federais americanos. Fora dos EUA, atlas e mapas seguem usando Golfo do México.

A NOAA, agência americana de oceanos e atmosfera, publica a previsão da zona morta em junho, e o Lumcon embarca de novo nos últimos dias de julho de 2027. Reconfira a área do ano e o recorde de 22.720 km² em gulfhypoxia.net, na primeira semana de agosto de 2027.

 
 
Quiz da edição

Na medição recorde do Lumcon, em que ano a zona morta do Golfo do México atingiu 22.720 km²?

A2005
B2010
C2017
D2021

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