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O estreito de 35 km que separa a Ásia da Austrália
Entre Bali e Lombok, a água passa dos 250 metros de profundidade e nunca virou terra seca, então a fauna dos dois lados nunca se misturou.
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O corredor de mar entre Bali e Lombok
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O voo entre Denpasar e Mataram, na Indonésia, dura pouco mais de vinte minutos. O avião mal termina de subir e o comandante já avisa que inicia a descida. Pela janela, dá para ver as duas ilhas ao mesmo tempo, com uma faixa de mar escuro no meio.
Quem faz o trajeto de balsa leva de quatro a cinco horas no mesmo pedaço de água. É uma travessia curta, cercada de terra dos dois lados, com vulcões visíveis no horizonte à frente e atrás.
Agora troque a janela do avião pelo ouvido de alguém que acorda cedo nas duas ilhas. Do lado de trás, o som típico é de macaco na copa da árvore e de pica-pau batendo no tronco. Do lado da frente, quem faz barulho é uma cacatua branca de crista amarela, um pássaro que a Ásia continental não tem.
A mudança acontece dentro de uma viagem que cabe numa manhã. Nenhuma serra separa as duas faunas, nenhum deserto, nenhuma mudança de clima digna de nota. Bali e Lombok têm chuva parecida, temperatura parecida, floresta parecida e vulcão dos dois lados.
Mesmo assim, um naturalista britânico que passou oito anos coletando bichos no arquipélago percebeu que as duas ilhas pertenciam a mundos animais diferentes. Do lado ocidental ele reconhecia a fauna do sudeste asiático. Do lado oriental, começava a encontrar parentes de bichos australianos.
A conclusão soava absurda para a época. Duas ilhas vizinhas, à vista uma da outra, com listas de espécies que não conversavam entre si. E o intervalo entre elas era menor que a largura de muitas baías que qualquer pássaro atravessa sem esforço.
A explicação não está na superfície do mapa. Está no que existe embaixo da água, num número que nenhum satélite mostra numa foto de praia e que só aparece em carta náutica de profundidade.
O mapa de hoje é essa faixa de mar. Onde ela fica, o que vive de cada lado dela e por que uma fronteira invisível de fauna resolveu passar exatamente ali.
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I O mapa do dia
Um corredor de mar entre dois vulcões
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Duas ilhas à vista uma da outra, com faunas de continentes diferentes.
A Indonésia se estende por cerca de cinco mil quilômetros de leste a oeste, com mais de dezessete mil ilhas. No meio dessa fileira, logo depois de Java, começa o conjunto conhecido como Pequenas Ilhas de Sonda, que se alonga em direção ao Timor.
Bali é a primeira dessa fila e Lombok é a segunda. As duas são ilhas vulcânicas, com montanha alta no norte e planície agrícola no sul. Em Bali, o pico principal é o Agung, com pouco mais de três mil metros. Em Lombok, o Rinjani passa dos 3.700.
Entre as duas corre o estreito de Lombok. No ponto mais apertado, entre a ponta leste de Bali e a costa oeste de Lombok, a distância fica em torno de 35 quilômetros. Na parte sul, onde o canal se abre para o oceano Índico, a largura chega perto de 60.
Do convés da balsa, a terra nunca some do campo de visão: em dia limpo, as duas ilhas aparecem ao mesmo tempo, uma na proa e a outra na popa. É uma travessia de mar interno, não de oceano aberto.
No meio do canal ficam ilhotas pequenas, como o grupo das Gili, na borda de Lombok, e Nusa Penida, encostada em Bali. Todas cabem num raio curto de barco e vivem de mergulho e turismo de praia.
O que a foto de superfície não conta é o degrau que existe embaixo. O estreito de Lombok é um corredor fundo, com trechos que passam dos 250 metros e pontos que chegam perto de 300, num arquipélago onde o mar entre ilhas costuma ser raso.
Por essa calha passa uma das correntes mais estudadas do planeta, a que leva água quente do Pacífico para o Índico por dentro da Indonésia. Boa parte desse volume desce justamente pelo estreito de Lombok, com velocidade que atrapalha barco pequeno.
A mesma fronteira de fauna continua para o norte. Ela sobe pelo estreito de Macassar, entre Bornéu e Sulawesi, que também é um canal fundo, e segue para o mar das Filipinas.
Do lado de fora do mapa da Indonésia, portanto, não se trata de uma linha entre duas praias turísticas. É um recorte de milhares de quilômetros que corta o arquipélago inteiro em duas metades biológicas.
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E a metade de cada lado guarda listas de bichos que não se parecem em quase nada.
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II O que tem ali
Cacatuas de um lado, macacos do outro
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Em Bali, a lista de mamíferos terrestres é reconhecidamente asiática. Macaco de cauda longa nos templos, esquilo em jardim de hotel, javali na mata, cervo comum, civeta e morcego frugívoro. A ilha teve tigre até o século XX, e a Java vizinha teve leopardo e rinoceronte.
Nas árvores, o padrão se repete. Pica-pau, barbudo, trogon e bulbul são famílias de pássaro que qualquer observador reconheceria numa floresta da Malásia ou da Tailândia.
Em Lombok, a poucas horas de barco, a lista muda de sotaque. O bicho que chama atenção é a cacatua de crista amarela, ave da linhagem australiana, acompanhada de comedores de mel e de aves que enterram os ovos em montes de folhas para chocar no calor da fermentação.
Os mamíferos grandes simplesmente somem. Do lado oriental do estreito, quase todo mamífero terrestre nativo é morcego ou roedor, ou seja, bicho que voa ou que atravessa mar agarrado a tronco flutuante. Macaco, esquilo, cervo e felino não fazem parte do quadro original.
Os números do canal cabem em poucas linhas:
Largura no ponto mais estreito: cerca de 35 km |
Largura na abertura sul: cerca de 60 km |
Profundidade máxima: mais de 250 metros |
Queda do nível do mar na última glaciação: cerca de 120 metros |
Diferença entre as duas medidas: mais de 130 metros de água que nunca secou |
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Nas Gili, do lado de Lombok, o maior mamífero terrestre nativo é um morcego, e o cavalo que puxa carroça na ilha chegou de barco, pelas mãos de gente. A ausência de bicho grande ali não é obra de caçador recente.
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Do lado dos pássaros, a fronteira existe, mas é menos rígida. Algumas espécies cruzam, e vários grupos asiáticos aparecem em Lombok em número pequeno, o que confunde quem espera uma parede perfeita.
O detalhe importante é a proporção. Passar de Bali para Lombok troca a maior parte da fauna de mamífero terrestre e derruba a presença de famílias inteiras de aves asiáticas, enquanto abre espaço para linhagens que só existiam a milhares de quilômetros dali, na direção da Nova Guiné e da Austrália.
Nas ilhas seguintes, o efeito se acentua. Sumbawa, Flores e Timor seguem afastando a fauna asiática e concentrando a australiana, até chegar em bichos como o cuscus, um marsupial arborícola de cauda preênsil.
Existe até um caso famoso de gigantismo insular nesse trecho, o dragão de Komodo, lagarto de mais de dois metros que vive numa faixa de ilhas curta a leste do estreito. Ilha isolada por água funda produz esse tipo de anomalia.
A pergunta que sobra é simples de formular e difícil de responder olhando só o mapa político: por que a troca acontece exatamente naquele canal, e não trinta ilhas adiante.
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