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ED 017

O estreito de 35 km que separa a Ásia da Austrália

Entre Bali e Lombok, a água passa dos 250 metros de profundidade e nunca virou terra seca, então a fauna dos dois lados nunca se misturou.

Vista aérea do estreito de Lombok, com a costa leste de Bali de um lado e o vulcão Rinjani, em Lombok, do outro, separados por uma faixa de mar profundo.

O corredor de mar entre Bali e Lombok

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O voo entre Denpasar e Mataram, na Indonésia, dura pouco mais de vinte minutos. O avião mal termina de subir e o comandante já avisa que inicia a descida. Pela janela, dá para ver as duas ilhas ao mesmo tempo, com uma faixa de mar escuro no meio.

Quem faz o trajeto de balsa leva de quatro a cinco horas no mesmo pedaço de água. É uma travessia curta, cercada de terra dos dois lados, com vulcões visíveis no horizonte à frente e atrás.

Agora troque a janela do avião pelo ouvido de alguém que acorda cedo nas duas ilhas. Do lado de trás, o som típico é de macaco na copa da árvore e de pica-pau batendo no tronco. Do lado da frente, quem faz barulho é uma cacatua branca de crista amarela, um pássaro que a Ásia continental não tem.

A mudança acontece dentro de uma viagem que cabe numa manhã. Nenhuma serra separa as duas faunas, nenhum deserto, nenhuma mudança de clima digna de nota. Bali e Lombok têm chuva parecida, temperatura parecida, floresta parecida e vulcão dos dois lados.

Mesmo assim, um naturalista britânico que passou oito anos coletando bichos no arquipélago percebeu que as duas ilhas pertenciam a mundos animais diferentes. Do lado ocidental ele reconhecia a fauna do sudeste asiático. Do lado oriental, começava a encontrar parentes de bichos australianos.

A conclusão soava absurda para a época. Duas ilhas vizinhas, à vista uma da outra, com listas de espécies que não conversavam entre si. E o intervalo entre elas era menor que a largura de muitas baías que qualquer pássaro atravessa sem esforço.

A explicação não está na superfície do mapa. Está no que existe embaixo da água, num número que nenhum satélite mostra numa foto de praia e que só aparece em carta náutica de profundidade.

O mapa de hoje é essa faixa de mar. Onde ela fica, o que vive de cada lado dela e por que uma fronteira invisível de fauna resolveu passar exatamente ali.

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I  O mapa do dia

Um corredor de mar entre dois vulcões

Duas ilhas à vista uma da outra, com faunas de continentes diferentes.

A Indonésia se estende por cerca de cinco mil quilômetros de leste a oeste, com mais de dezessete mil ilhas. No meio dessa fileira, logo depois de Java, começa o conjunto conhecido como Pequenas Ilhas de Sonda, que se alonga em direção ao Timor.

Bali é a primeira dessa fila e Lombok é a segunda. As duas são ilhas vulcânicas, com montanha alta no norte e planície agrícola no sul. Em Bali, o pico principal é o Agung, com pouco mais de três mil metros. Em Lombok, o Rinjani passa dos 3.700.

Entre as duas corre o estreito de Lombok. No ponto mais apertado, entre a ponta leste de Bali e a costa oeste de Lombok, a distância fica em torno de 35 quilômetros. Na parte sul, onde o canal se abre para o oceano Índico, a largura chega perto de 60.

Do convés da balsa, a terra nunca some do campo de visão: em dia limpo, as duas ilhas aparecem ao mesmo tempo, uma na proa e a outra na popa. É uma travessia de mar interno, não de oceano aberto.

No meio do canal ficam ilhotas pequenas, como o grupo das Gili, na borda de Lombok, e Nusa Penida, encostada em Bali. Todas cabem num raio curto de barco e vivem de mergulho e turismo de praia.

O que a foto de superfície não conta é o degrau que existe embaixo. O estreito de Lombok é um corredor fundo, com trechos que passam dos 250 metros e pontos que chegam perto de 300, num arquipélago onde o mar entre ilhas costuma ser raso.

Por essa calha passa uma das correntes mais estudadas do planeta, a que leva água quente do Pacífico para o Índico por dentro da Indonésia. Boa parte desse volume desce justamente pelo estreito de Lombok, com velocidade que atrapalha barco pequeno.

A mesma fronteira de fauna continua para o norte. Ela sobe pelo estreito de Macassar, entre Bornéu e Sulawesi, que também é um canal fundo, e segue para o mar das Filipinas.

Do lado de fora do mapa da Indonésia, portanto, não se trata de uma linha entre duas praias turísticas. É um recorte de milhares de quilômetros que corta o arquipélago inteiro em duas metades biológicas.

E a metade de cada lado guarda listas de bichos que não se parecem em quase nada.

 
 

II  O que tem ali

Cacatuas de um lado, macacos do outro

Em Bali, a lista de mamíferos terrestres é reconhecidamente asiática. Macaco de cauda longa nos templos, esquilo em jardim de hotel, javali na mata, cervo comum, civeta e morcego frugívoro. A ilha teve tigre até o século XX, e a Java vizinha teve leopardo e rinoceronte.

Nas árvores, o padrão se repete. Pica-pau, barbudo, trogon e bulbul são famílias de pássaro que qualquer observador reconheceria numa floresta da Malásia ou da Tailândia.

Em Lombok, a poucas horas de barco, a lista muda de sotaque. O bicho que chama atenção é a cacatua de crista amarela, ave da linhagem australiana, acompanhada de comedores de mel e de aves que enterram os ovos em montes de folhas para chocar no calor da fermentação.

Os mamíferos grandes simplesmente somem. Do lado oriental do estreito, quase todo mamífero terrestre nativo é morcego ou roedor, ou seja, bicho que voa ou que atravessa mar agarrado a tronco flutuante. Macaco, esquilo, cervo e felino não fazem parte do quadro original.

Os números do canal cabem em poucas linhas:

Largura no ponto mais estreito: cerca de 35 km

Largura na abertura sul: cerca de 60 km

Profundidade máxima: mais de 250 metros

Queda do nível do mar na última glaciação: cerca de 120 metros

Diferença entre as duas medidas: mais de 130 metros de água que nunca secou

Nas Gili, do lado de Lombok, o maior mamífero terrestre nativo é um morcego, e o cavalo que puxa carroça na ilha chegou de barco, pelas mãos de gente. A ausência de bicho grande ali não é obra de caçador recente.

Do lado dos pássaros, a fronteira existe, mas é menos rígida. Algumas espécies cruzam, e vários grupos asiáticos aparecem em Lombok em número pequeno, o que confunde quem espera uma parede perfeita.

O detalhe importante é a proporção. Passar de Bali para Lombok troca a maior parte da fauna de mamífero terrestre e derruba a presença de famílias inteiras de aves asiáticas, enquanto abre espaço para linhagens que só existiam a milhares de quilômetros dali, na direção da Nova Guiné e da Austrália.

Nas ilhas seguintes, o efeito se acentua. Sumbawa, Flores e Timor seguem afastando a fauna asiática e concentrando a australiana, até chegar em bichos como o cuscus, um marsupial arborícola de cauda preênsil.

Existe até um caso famoso de gigantismo insular nesse trecho, o dragão de Komodo, lagarto de mais de dois metros que vive numa faixa de ilhas curta a leste do estreito. Ilha isolada por água funda produz esse tipo de anomalia.

A pergunta que sobra é simples de formular e difícil de responder olhando só o mapa político: por que a troca acontece exatamente naquele canal, e não trinta ilhas adiante.

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III  Por que a linha passa ali

A ponte de terra que nunca chegou a existir

Alfred Russel Wallace desembarcou em Bali em junho de 1856 e passou depois para Lombok. Ele já tinha vários anos de coleta no arquipélago e mantinha listas detalhadas de tudo que capturava, ilha por ilha, com data e local.

Ao comparar as duas listas, ele percebeu a quebra. E, num artigo de 1859 seguido do livro de viagem, propôs uma fronteira que corta o arquipélago pelo estreito de Lombok e sobe pelo estreito de Macassar.

"Podemos considerar estabelecido que o estreito de Lombock, com apenas vinte e quatro quilômetros de largura, marca os limites e separa abruptamente duas das grandes regiões zoológicas do globo."

Alfred Russel Wallace, O Arquipélago Malaio, 1869.

O nome da fronteira não foi escolha dele. Coube a Thomas Huxley, em 1868, batizar o traçado de Linha de Wallace ao discutir a distribuição das aves galiformes.

A explicação do fenômeno só ficou completa quando a geologia entrou na conversa. Nas glaciações do último milhão de anos, muita água do planeta ficou presa em gelo continental, e o nível do mar caiu a ponto de expor plataformas rasas inteiras.

Com o mar 120 metros abaixo do atual, a plataforma de Sonda virou terra firme contínua. Sumatra, Java, Bornéu e Bali ficaram grudadas na Ásia continental, com rio, floresta e passagem livre para bicho terrestre. Do outro extremo, Austrália e Nova Guiné formaram um bloco único.

E entre os dois blocos ficou o canal fundo: com mais de 250 metros de água, o estreito de Lombok continuou molhado mesmo no auge da glaciação, porque a queda do mar não foi suficiente para descobrir o fundo dele. A ponte de terra nunca se formou.

O resultado é uma barreira que age por seleção de meio de transporte. Bicho terrestre grande não atravessa dezenas de quilômetros de mar aberto com corrente forte. Morcego, ave e roedor em tronco flutuante atravessam, ainda que raramente.

Milhões de anos de filtro produzem duas faunas separadas, mesmo com as ilhas à vista uma da outra. A fronteira não está na paisagem que se vê da praia: está na batimetria e no tempo geológico.

Vale registrar que a linha original ficou apertada demais para dar conta de tudo. Outros naturalistas propuseram traçados vizinhos, e o pedaço de arquipélago entre a fronteira ocidental e a oriental ganhou nome próprio, Wallacea, com fauna de mistura.

1. Localize a Indonésia e siga a fileira de ilhas para leste, passando por Sumatra, Java e Bali.

2. Pare no canal entre Bali e Lombok. É o primeiro canal estreito da fileira, com o vulcão Rinjani logo à direita.

3. Troque o mapa para relevo do fundo do mar. A mancha escura de água funda nesse canal é a fronteira que separa cacatua de macaco.

O estreito de Lombok mostra uma coisa que o mapa político esconde por completo: a fronteira que decide quem vive onde não é a que aparece na superfície, e sim a que fica no fundo, medida em metros de profundidade e em milhões de anos.

"Quais das suas fronteiras parecem pequenas na superfície e continuam intransponíveis por baixo?"

 
 
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