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O chão da baía de Hudson ainda está subindo
Aliviado de um gelo de até 3 km de espessura, o terreno em volta da baía, no Canadá, sobe cerca de 1 cm por ano e empurra a água para longe.
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A costa rasa da baía de Hudson, no Canadá
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Amaré baixa descobre um tapete de seixos molhados e o cheiro de alga seca sobe com o vento frio. Sob a bota, a lama congelada estala como isopor, e a água da baía recua tanto que a linha de espuma some da vista de quem está na praia. O barulho do gelo raspando os seixos esconde um movimento mudo: o chão debaixo das pedras está subindo.
A baía de Hudson é um mar interior de água salgada cravado no meio do Canadá, ligado ao Atlântico por um estreito comprido no nordeste. O Atlas do Canadá, publicado pelo governo federal canadense, dá à baía cerca de 1,23 milhão de quilômetros quadrados de superfície, área maior que a de qualquer lago do planeta.
O terreno em volta dessa água não está parado. A rede de estações GPS operada pelo Recursos Naturais do Canadá mede soerguimento de cerca de 1 centímetro por ano nas margens da baía, e o número aparece nos mesmos registros que servem para corrigir mapas e cartas náuticas do país.
A causa desapareceu há muito tempo. A reconstrução ICE-6G, publicada pelo geofísico William Richard Peltier e colegas no Journal of Geophysical Research em 2015, coloca sobre a região do Hudson o centro do manto de gelo laurentiano, com espessura de até 3 quilômetros no auge da última era glacial.
O peso desse gelo afundou a crosta como um colchão afundado pelo joelho. Quando o gelo derreteu, por volta de 8 mil anos atrás, a crosta começou a voltar, e ela continua voltando hoje porque a rocha quente do manto escoa devagar, em escala de milhares de anos.
O efeito é visível sem instrumento. Píeres viram terra seca, canais de porto rasos demais para o mesmo barco de trinta anos atrás, e degraus de praias antigas empilhados tundra adentro, longe de qualquer maré.
Vale começar pelo desenho do lugar no mapa, entre a linha do escudo canadense e o braço sul que entra pelo Ontário.
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I O mapa do dia
I, Um mar raso em cima do escudo canadense
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Um mar do tamanho de um país, com fundo de lago raso.
A baía de Hudson ocupa o centro-norte do Canadá, entre os paralelos 51° e 63° norte, com costas repartidas por quatro divisões administrativas: Nunavut ao norte e a oeste, Manitoba a sudoeste, Ontário ao sul e Quebec a leste. O braço comprido que desce pelo sul, encaixado entre Ontário e Quebec, se chama baía James.
A profundidade surpreende quem olha o tamanho da mancha azul. O Serviço Hidrográfico do Canadá registra profundidade média perto de 100 metros e máxima em torno de 270 metros, valores de lago grande aplicados a um mar do tamanho de um país médio.
A ligação com o oceano se faz por duas portas estreitas. O estreito de Hudson corre por cerca de 750 quilômetros no nordeste até o mar do Labrador, e a bacia de Foxe abre passagem ao norte, entre a ilha de Baffin e a península de Melville.
A TERRA QUE DESAGUA ALI
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A bacia de drenagem da baía cobre cerca de 3,9 milhões de quilômetros quadrados, quase um terço da área do Canadá, segundo o levantamento hidrográfico do Atlas do Canadá: os rios Nelson, Churchill, Albany e La Grande despejam ali a água de prados, florestas e tundra que começam a mais de dois mil quilômetros de distância.
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O gelo marinho manda no calendário. O Serviço Canadense de Gelo acompanha a cobertura da baía por satélite e registra congelamento completo entre dezembro e junho, com água aberta no fim do verão, quando os ursos-polares ficam presos em terra à espera da formação da placa nova.
A costa é povoada, ainda que rala. Churchill, em Manitoba, mantém o único porto de águas profundas do Ártico canadense ligado por ferrovia; Arviat e Sanikiluaq são comunidades inuítes no lado norte e nas ilhas Belcher; Attawapiskat e Chisasibi são comunidades cree na beira da baía James.
O nome vem do navegador inglês Henry Hudson, que entrou na baía em agosto de 1610 com o navio Discovery, passou o inverno preso no gelo do sul e enfrentou motim da tripulação em junho de 1611. Os amotinados o colocaram num bote com o filho e sete homens doentes, e o bote nunca mais foi visto: não existe registro de destino, sepultura ou vestígio do grupo, porque nenhuma busca posterior encontrou qualquer rastro na costa da baía James.
Situado o contorno, sobra olhar o que a água deixou para trás na beira.
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II O que tem ali
II, Praias antigas empilhadas na tundra
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Quem sobrevoa a costa da baía James vê o terreno riscado por faixas paralelas de cascalho, dezenas delas, empilhadas em degraus até dezenas de quilômetros terra adentro. Cada faixa é uma praia fóssil, a linha onde a arrebentação batia num momento do passado, e o conjunto todo desenha um escadão que sobe do mar até o limite do que foi costa há milhares de anos.
O levantamento dessas praias foi trabalho do Serviço Geológico do Canadá, com mapeamento de campo publicado ao longo dos anos 1960 e 1970 pelo geógrafo John T. Andrews, que datou conchas nos degraus com carbono-14 e reconstruiu o ritmo de saída da água. A cota mais alta desse escadão passa de 250 metros acima do nível do mar atual.
O mar que fez essas praias tem nome próprio. Chama-se mar de Tyrrell, homenagem ao geólogo canadense Joseph Burr Tyrrell, e foi a água salgada que invadiu a bacia rebaixada assim que o gelo saiu: com a crosta ainda afundada, o oceano entrou muito além da costa de hoje e deixou sedimento marinho, conchas e ossos de baleia enterrados em terreno que hoje é turfeira.
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"A Terra sólida ainda está respondendo ao descarregamento dos mantos de gelo da última glaciação, e essa resposta é observável tanto na deformação da superfície quanto no campo de gravidade."
William Richard Peltier, geofísico canadense, em "Global glacial isostasy and the surface of the ice age Earth", artigo de revisão publicado no Annual Review of Earth and Planetary Sciences em 2004.
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O terreno entre as praias é encharcado. As Terras Baixas do Hudson formam uma das maiores extensões contínuas de turfeira do mundo, com musgo acumulado sobre argila marinha desde a retirada do mar de Tyrrell, e a água não escoa porque a camada de permafrost logo abaixo trava a drenagem.
A MARÉ QUE DESCE TODO ANO
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A estação maregráfica de Churchill, mantida pelo Serviço Hidrográfico do Canadá desde os anos 1940, mede queda do nível do mar em relação à terra na ordem de alguns milímetros por ano: o oceano global sobe, e mesmo assim o marégrafo local acusa recuo, porque a terra sobe mais rápido que a água.
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As comunidades da baía James convivem com a mudança em escala de vida humana. Moradores cree de Attawapiskat e de Chisasibi relatam píeres que ficaram longe da água, canais de acesso que exigem dragagem repetida e bancos de lama novos onde havia calado para barco de pesca.
A fauna acompanha o terreno. O recuo da água alarga o sapal costeiro que serve de parada para gansos-da-neve na migração, e as ilhas baixas que emergem da lama viram sítio novo de nidificação em poucas décadas.
Descrito o que se vê na superfície, falta a razão de a crosta se mexer desse jeito.
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