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ED 052
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O canal de 220 metros abaixo de Kinshasa

Nas corredeiras do Congo, a correnteza separa tanto as margens que um peixe perdeu os olhos no fundo do leito.

Corredeiras do rio Congo abaixo de Kinshasa, com ondas brancas quebrando no canal.

As corredeiras do Congo abaixo de Kinshasa

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O estrondo chega antes da água. Na margem do rio Congo abaixo de Kinshasa, o chão de pedra vibra com ondas que quebram em pé, algumas com vários metros de altura, e o borrifo deixa a pele úmida mesmo nos meses secos.

Ali, logo depois do lago Malebo, o Congo deixa de ser estrada de barco e vira uma escada de corredeiras. Por cerca de 350 quilômetros, até o porto de Matadi, ele desce em quedas sucessivas que os mapas coloniais batizaram de cataratas Livingstone.

Em julho de 2008, uma equipe do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, a agência federal de geologia e hidrologia do país) levou perfiladores acústicos para esse trecho, com apoio do Museu Americano de História Natural. O relatório de Kevin Oberg e colegas, publicado pelo USGS em 2009, registrou pontos do leito perto de 220 metros de profundidade.

Um prédio de setenta andares caberia submerso num desses poços, com água sobrando por cima do telhado. Nenhum outro rio medido até hoje tem leito tão fundo.

No fundo desse canal vive o Lamprologus lethops, um ciclídeo (peixe da mesma família da tilápia e do acará) que cabe na palma da mão, tem a pele sem pigmento e os olhos cobertos por pele. Os ictiólogos Tyson Roberts e Donald Stewart descreveram a espécie em 1976, com base em exemplares recolhidos no baixo Congo, e o peixe continua conhecido por poucas dezenas de coletas.

Peixe cego costuma morar em caverna, em água parada, longe da luz. Este vive num rio a céu aberto, sob o sol equatorial, dentro de uma das maiores vazões do planeta.

A explicação passa por três perguntas: de onde vem tanta água, por que ela escava tão fundo justamente aqui e o que a correnteza faz com os bichos que moram no leito. A primeira resposta está no traçado do rio, que desenha no mapa da África uma curva sem igual.

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I  O mapa do dia

I, A escada de Kinshasa a Matadi

Uma escada de água branca entre Kinshasa e o porto de Matadi.

O rio Congo nasce nas terras altas do sudeste da República Democrática do Congo, perto da fronteira com a Zâmbia, onde é chamado de Lualaba. Dali ele sobe para o norte, cruza a linha do Equador, faz uma curva larga para oeste e desce, cruzando o Equador pela segunda vez.

A curva recolhe chuva dos dois hemisférios. Quando é estação seca ao norte, chove ao sul, e a alternância mantém o rio cheio quase o ano inteiro. Entre os rios da Terra, só o Amazonas despeja mais água no oceano.

Antes das corredeiras, o Congo se alarga no lago Malebo, antigo Stanley Pool, uma bacia rasa salpicada de ilhas de areia. Nas margens dele ficam Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, e Brazzaville, capital da República do Congo, uma de frente para a outra, separadas só pela água. Nenhum outro par de capitais nacionais fica tão perto no mapa, fora Roma e o Vaticano.

Na saída do lago, o leito se estreita e despenca. Até Matadi, o rio perde algo como 270 metros de altitude em trechos de água branca, com poucos remansos (pontos de água parada junto à margem) no percurso.

O CANAL QUE SE APERTA

Em alguns pontos das corredeiras, o Congo inteiro passa por uma calha de poucas centenas de metros de largura. Com as paredes de rocha travando o avanço para os lados, a água só tem uma saída: cavar para baixo.

A escavação é feita pela própria carga do rio. Areia e seixos arrastados pela corrente lixam a rocha, e os redemoinhos abrem marmitas (cavidades redondas que a água gira com pedras dentro) que se aprofundam década após década.

As medições de 2008 mostraram o que acontece lá embaixo. Os perfis acústicos do relatório de Oberg e colegas registraram correntes verticais fortes, com água subindo e descendo no canal, e velocidade alta perto do fundo, onde se esperaria água mansa. Em rio de planície, a correnteza perde força perto do leito; nas corredeiras do Congo, o fundo também é turbulento, e a erosão não para.

Nenhum barco sobe esse trecho. Os belgas construíram entre 1890 e 1898 uma ferrovia de Matadi a Léopoldville, antigo nome de Kinshasa, só para contornar as corredeiras e levar a carga do porto marítimo até o rio navegável acima delas.

Para um barco, as corredeiras são um trecho sem passagem. Para um peixe pequeno, são uma parede de água, e a segunda parte mostra quem ficou preso em cada margem.

 
 

II  O que tem ali

II, Um ciclídeo branco e sem olhos

O nome científico já descreve o bicho. Lethops junta as palavras gregas lethe (esquecimento) e ops (olho): o peixe do olho esquecido. Os exemplares conhecidos têm o corpo rosado e esbranquiçado, sem as listras e manchas dos parentes que vivem perto da superfície.

Quase todos chegaram às mãos dos cientistas boiando, já sem vida, recolhidos por pescadores na superfície do rio. Por anos ninguém soube explicar por que um peixe de fundo aparecia sempre flutuando.

A pista veio da equipe da ictióloga Melanie Stiassny, do Museu Americano de História Natural. Os exemplares traziam bolhas de gás sob a pele e nos tecidos, o mesmo quadro de um mergulhador que sobe rápido demais: a doença descompressiva (formação de bolhas no sangue quando a pressão cai de repente).

O sintoma indica um peixe arrancado de grande profundidade pelas correntes verticais do canal e jogado para cima sem tempo de se ajustar à pressão. O Lamprologus lethops, portanto, vive lá embaixo, na parte escura do leito.

A escuridão explica os olhos. A água do Congo carrega sedimento e matéria vegetal dissolvida, e a luz do sol some poucos metros abaixo da superfície. Num poço de 200 metros, o fundo é tão escuro quanto uma caverna, e olho e pigmento deixam de trazer vantagem ao peixe.

OS VIZINHOS DE MARGENS OPOSTAS

Peixes do mesmo gênero, separados só pela largura do rio, deixaram de se cruzar. A correnteza do canal central é forte demais para um peixe pequeno atravessar, e cada margem guarda a sua linhagem.

O estudo que mostrou o isolamento saiu em 2010 na revista BMC Evolutionary Biology, assinado por Jennifer Markert, Robert Schelly e Melanie Stiassny. Eles compararam o DNA de ciclídeos dos gêneros Teleogramma e Lamprologus coletados nas duas margens das corredeiras.

As populações de margens opostas apareceram geneticamente distintas, às vezes a poucos quilômetros de distância em linha reta. Para esses peixes, o canal funciona como uma cordilheira funciona para bichos de terra.

O Lamprologus lethops tem companhia no escuro. O baixo Congo abriga também a enguia-espinhosa Mastacembelus brichardi, de olhos reduzidos e corpo claro, outro morador das corredeiras que não aparece em nenhum outro rio. Os dois repetem o mesmo arranjo de corpo: sem cor, com olhos pequenos, guiados pelo tato e pelos sensores de pressão na lateral do corpo, a linha lateral.

Resta a pergunta de fundo: por que a rocha deixou o rio cavar tão fundo e tão estreito justamente entre Kinshasa e o mar.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, A rocha que o rio não consegue alargar

O interior da bacia do Congo é uma grande depressão, a Cuvette Centrale (cuvete central, em francês), cercada de terras mais altas por todos os lados. A água de quase toda a bacia precisa sair por uma única brecha a oeste, rumo ao Atlântico. Toda a chuva que cai sobre florestas de nove países converge para esse ponto.

Essa brecha atravessa os Montes de Cristal, uma faixa de rochas cristalinas antigas e duras que separa o planalto do interior da planície costeira. É nela que ficam as corredeiras.

Rocha dura resiste ao desgaste lateral. O rio não consegue abrir um vale largo e raso, como faz em terreno de sedimento mole; ele aprofunda o sulco que já tem e desce em degraus.

A mesma queda que isola os peixes atrai engenheiros. Perto de Matadi ficam as cataratas de Inga, onde o rio despenca num desvio curto. A usina Inga I entrou em operação em 1972, e Inga II em 1982, as duas no mesmo trecho de água rápida.

AS PEDRAS QUE PARARAM OS NAVIOS

Diogo Cão, navegador português, subiu a foz do Congo nos anos 1480 e chegou ao pé das corredeiras perto de Matadi. Ali seus navios pararam, e os homens gravaram na rocha de Ielala o registro da chegada, ainda legível.

A inscrição mostra até onde a navegação europeia conseguiu ir pelo rio naquele século:

"Aqui chegaram os navios do esclarecido rei Dom João II de Portugal."

Inscrição de Diogo Cão, Pero Anes e Pero da Costa nas pedras de Ielala, por volta de 1485.

1. Abra um mapa da África e ache Kinshasa e Brazzaville, uma de frente para a outra no lago Malebo.

2. Siga o rio para sudoeste até Matadi, o porto onde o Congo volta a ser navegável até o mar.

3. Repare que o trecho entre as duas pontas cruza a faixa de relevo que separa o interior da bacia da planície do Atlântico.

"Quantas espécies ainda moram no fundo de um canal que só o sonar enxerga?"

O Lamprologus lethops tem ficha na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), onde o status muda conforme chegam coletas novas. Reconfira em janeiro de 2027 em iucnredlist.org, buscando o nome científico do peixe.

 
 

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No trecho do rio Congo abaixo de Kinshasa, qual foi a profundidade máxima que a equipe do USGS registrou no leito em 2008?

A270 metros, a queda de altitude do rio até Matadi
B220 metros, perto do ponto mais fundo do canal
C70 metros, a altura do prédio citado na comparação
D350 quilômetros, a extensão das corredeiras até Matadi

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