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O buraco que engole o Everest inteiro

O abismo Challenger tem 10.935 metros de fundo, e o cume mais alto do planeta afundaria ali com dois quilômetros de água sobrando por cima.

Ilustração em corte da fossa das Marianas, com a silhueta do Everest submersa no abismo Challenger.

Abismo Challenger, 10.935 m abaixo do Pacífico

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O casco de titânio estala quando passa dos seis mil metros, um estalo seco de metal se ajustando à carga, e o ar dentro da esfera esfria até a temperatura de uma geladeira aberta. A descida leva perto de três horas e meia em queda livre controlada. Lá embaixo, o farol acende sobre um chão de lama bege, plano, quase sem relevo, com marcas finas deixadas por bichos pequenos demais para aparecer no enquadramento.

A profundidade medida ali é de 10.935 metros, valor apurado pela expedição Five Deeps em 2019, com o mapeamento batimétrico conduzido pela geodesista Cassie Bongiovanni a bordo do navio Pressure Drop. Sondagens anteriores do sonar do Kilo Moana, navio da Universidade do Havaí, tinham chegado a números na mesma casa em 2010, com incerteza de algumas dezenas de metros.

Ponha o Everest de cabeça para baixo dentro desse buraco. O cume mais alto do planeta tem 8.848,86 metros pela medição conjunta divulgada pelos governos de Nepal e China em dezembro de 2020. Ele desapareceria inteiro, e ainda restariam mais de dois quilômetros de água salgada entre o topo da montanha e a superfície do mar.

A pressão que atua sobre um casco naquele ponto passa de mil vezes a pressão do ar ao nível do mar. Uma esfera de aço comum implode muito antes. Cada centímetro quadrado de superfície carrega o equivalente a uma tonelada, e o número não oscila com a maré nem com a estação do ano, porque depende só da coluna de água acima.

Cinco pessoas pisaram na Lua mais de uma vez. O fundo do abismo Challenger recebeu bem menos visitas tripuladas do que a superfície lunar em toda a história da exploração, e cada uma delas custou uma engenharia inteira construída para um único ponto do mapa.

O ponto tem endereço fixo e fica bem mais perto de uma ilha habitada do que a maioria imagina. Vale começar pela carta náutica, antes do bicho e da rocha.

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I  O mapa do dia

Uma rachadura de 2.550 quilômetros a sudoeste de Guam

A calha mais funda do planeta tem voo comercial passando por cima.

A fossa das Marianas é uma calha estreita e curva no fundo do Pacífico ocidental, com cerca de 2.550 quilômetros de comprimento e 69 quilômetros de largura média, segundo a ficha da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, que administra o monumento marinho da região. A curva acompanha o arco das ilhas Marianas, de onde vem o nome.

O abismo Challenger fica na ponta sul dessa calha, por volta de 11 graus e 22 minutos de latitude norte e 142 graus e 35 minutos de longitude leste. Guam, território americano com aeroporto internacional e shopping, está a cerca de 300 quilômetros a nordeste. O lugar mais profundo do planeta tem voo comercial diário passando quase por cima.

A ORIGEM DO NOME

O nome vem de um navio de madeira. A corveta britânica HMS Challenger, na expedição científica de 1872 a 1876, baixou uma linha de sondagem com peso de chumbo na região em março de 1875 e registrou 4.475 braças, algo em torno de 8.184 metros. A leitura era feita pelo comprimento de corda pago e pelo momento em que a tensão cedia, método sujeito a erro, mas suficiente para mostrar que ali havia uma anomalia.

A confirmação veio 76 anos depois: em 1951, o HMS Challenger II usou ecobatímetro, um aparelho que mede o tempo de ida e volta de um pulso sonoro até o fundo, e registrou cerca de 10.900 metros no mesmo setor. O nome do abismo homenageia os dois navios.

O fundo da calha não é um funil. As medições de sonar multifeixe mostram uma depressão alongada, dividida em três bacias menores separadas por elevações de algumas centenas de metros. A bacia oriental abriga o ponto mais fundo, e o assoalho ali é surpreendentemente plano por vários quilômetros seguidos.

Medir a profundidade exata continua sendo trabalho de precisão duvidosa, porque a velocidade do som na água muda com temperatura, salinidade e pressão ao longo de onze quilômetros de coluna. Cada levantamento aplica correções próprias, e por causa delas os valores publicados por equipes diferentes variam em algumas dezenas de metros.

A mesma coluna de água que atrapalha a medição cria o ambiente do que vive lá embaixo.

 
 

II  O que tem ali

Anfípodes, lama de vidro e uma sacola plástica

A temperatura no fundo fica entre 1 e 4 graus Celsius, acima do congelamento por causa da pressão e do sal. A escuridão é total desde os mil metros. Nenhuma alga faz fotossíntese ali, e toda a energia disponível desce de cima em forma de carcaça, matéria orgânica em queda lenta e detrito arrastado pelas encostas da calha.

O bicho mais abundante do fundo é o Hirondellea gigas, um anfípode pequeno, parecido com um camarão translúcido, que aparece aos milhares assim que uma isca é deixada no sedimento. O animal digere madeira afundada com enzimas próprias, um cardápio raro para crustáceo, e o exoesqueleto dele incorpora alumínio dissolvido do sedimento, o que forma uma camada de gel que protege a carapaça de se dissolver na água pressurizada.

Sobre a lama vivem os xenofióforos, organismos de célula única que chegam ao tamanho de um prato de sobremesa. Eles montam uma carcaça própria colando grãos de sedimento e fragmentos minerais, e as estruturas que deixam servem de abrigo para outros bichos. Um único ser microscópico constrói uma casa visível a olho nu.

"O fundo parecia um deserto lunar, desolado e vazio."

Jacques Piccard, Seven Miles Down, 1961.

O relato veio da primeira descida tripulada, em 23 de janeiro de 1960, quando o batiscafo Trieste levou Jacques Piccard e o tenente Don Walsh ao fundo da fossa. A janela de acrílico rachou durante a subida e a dupla ficou cerca de vinte minutos no assoalho, tempo curto demais para observação séria.

A visita seguinte só aconteceu em 26 de março de 2012, com o cineasta James Cameron a bordo do submersível Deepsea Challenger, sozinho, em mergulho registrado pela National Geographic Society. A partir de 2019, os mergulhos do Limiting Factor, operados por Victor Vescovo, passaram a repetir a descida com regularidade.

Foi em um desses mergulhos recentes que a câmera registrou uma sacola plástica no sedimento. O registro conversa com o banco de dados de detritos de mar profundo mantido pela JAMSTEC, a agência japonesa de ciência marinha, que cataloga objetos humanos filmados por submersíveis e já listou plástico abaixo dos dez mil metros.

Amostras de tecido de anfípodes coletadas em 2017 pela equipe do biólogo Alan Jamieson, publicadas na revista Nature Ecology and Evolution, mostraram poluentes orgânicos persistentes em concentração alta nos animais da fossa. A matéria que desce por gravidade não escolhe o que carrega.

 

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III  Por que a linha passa ali

A placa mais velha do oceano afundando debaixo de outra

A fossa marca uma zona de subducção, o lugar onde uma placa tectônica mergulha por baixo da vizinha. Ali a placa do Pacífico desce sob a placa do mar das Filipinas, e a calha é a dobra que se forma na linha de contato entre as duas.

Toda zona de subducção produz uma fossa, e existem dezenas delas ao redor do Pacífico. Nenhuma chega perto dos onze quilômetros. O que torna a das Marianas mais funda é a idade da crosta que está descendo: a placa do Pacífico naquele setor tem cerca de 180 milhões de anos, a mais antiga ainda existente no assoalho oceânico do planeta.

Crosta velha já perdeu quase todo o calor que trouxe da dorsal onde nasceu. Fria, ela fica densa e pesada, e afunda com ângulo íngreme, perto da vertical no trecho profundo. Uma placa jovem e quente desce em rampa suave e cava uma calha rasa. A geometria do mergulho define a profundidade do risco no mapa.

Há um segundo fator. Atrás da fossa, a placa superior está sendo esticada e abrindo uma bacia própria, a fossa de Mariana, e o recuo da linha de contato deixa o mergulho ainda mais íngreme. Nada de sedimento espesso preenche a calha, porque não existe rio grande despejando material por perto. Em fossas junto a continentes, a terra levada pelos rios entope a depressão e reduz a profundidade medida.

1. Abra qualquer mapa de relevo do oceano e procure o arco de ilhas a leste das Filipinas, com Guam no meio. A linha azul-escura colada a leste desse arco é a fossa.

2. Siga a linha até a ponta sul, onde ela se curva para oeste. A mancha mais escura de todas, pequena, é o abismo Challenger.

3. Compare a largura da fossa com a distância até a costa asiática. A calha está em mar aberto, longe da foz de qualquer rio, e por causa disso o fundo dela continua limpo de sedimento continental.

A atividade da subducção aparece em forma de vulcão de lama serpentinítica, montes submarinos que expelem pasta fria e alcalina vinda da placa que desce, alguns deles a mais de cem quilômetros da fossa. O mergulho de uma placa reorganiza a química do fundo do mar por uma área enorme.

"Você desceria onze quilômetros num casco de titânio para ver lama bege?"

O valor de 10.935 metros é o publicado pela Five Deeps e adotado nas grades batimétricas do GEBCO, o projeto internacional de mapeamento do fundo oceânico, que divulga uma versão nova da grade mundial todo fim de ano. Reconfira o número na ficha do Challenger Deep no site do GEBCO na primeira semana de janeiro de 2027, depois da publicação da grade de dezembro de 2026.

 
 

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Segundo a NOAA, quantos quilômetros de comprimento tem a calha da fossa das Marianas?

Acerca de 1.200 km
Bcerca de 2.550 km
Ccerca de 4.000 km
Dcerca de 690 km

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