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O Arco de Struve, a corrente de 2.820 km que hoje cruza 10 países

De 1816 a 1855, astrônomos mediram triângulos de Hammerfest ao Mar Negro. Sobraram 34 marcos espalhados pela Europa.

Coluna de granito do Arco de Struve no promontório de Fuglenes, em Hammerfest.

Coluna do Arco de Struve em Hammerfest

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A pedra estava fria sob a luva de lã e úmida de neblina salgada. No alto do promontório de Fuglenes, em Hammerfest, no norte da Noruega, o vento do mar de Barents assobiava contra uma coluna de granito com um globo de bronze no topo.

Na base da coluna, uma placa traz palavras em latim e em norueguês. Elas contam que ali termina uma medição feita por astrônomos da Noruega, da Suécia e da Rússia, com início às margens do Danúbio.

Quem desce o morro anda poucos minutos até o porto. Barcos de pesca balançam na água escura, e o cheiro de peixe seco sobe dos armazéns. Em junho o sol não se põe; em dezembro, quase não nasce.

A uns 2.820 km dali, perto do vilarejo de Staro-Nekrasivka, no sul da Ucrânia, outro marco fica num campo plano, a poucos quilômetros do delta do Danúbio e do Mar Negro. No verão, o ar ali pesa de calor e o capim seco estala sob o pé.

Ao longo do caminho existe uma fila de pontos que quase ninguém nota. Um furo de poucos centímetros numa rocha à beira de um lago finlandês. Uma cruz gravada no granito de uma ilha do golfo da Finlândia. Um obelisco no meio de um bosque da Bielorrússia.

Cada um desses pontos já foi o vértice de um triângulo. Por quase quatro décadas, equipes subiram em torres de madeira com lunetas, miraram umas nas outras de morro em morro e anotaram ângulos, um a um, em cadernos que hoje estão em arquivos de Tartu e de São Petersburgo.

A soma dessas anotações deu a medida de um pedaço comprido do planeta. Comparado com outros arcos medidos na mesma época, esse pedaço mostrou quanto a Terra se afasta da forma de uma bola perfeita.

Hoje, 34 desses pontos sobrevivem, e o trajeto inteiro, visto num mapa atual, corta dez fronteiras.

A linha que liga os dois extremos, com o desenho completo do percurso, abre a primeira seção.

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I  O mapa do dia

Uma fila de triângulos sobre a Europa

2.820 km de Hammerfest ao Mar Negro, medidos de 1816 a 1855.

O Arco Geodésico de Struve é uma corrente de triângulos medida entre 1816 e 1855 sobre o leste da Europa. Ele leva o sobrenome de Friedrich Georg Wilhelm von Struve, astrônomo alemão que dirigia o observatório de Dorpat, a atual Tartu, na Estônia, então parte do Império Russo.

O arco segue de perto um meridiano (linha imaginária que liga os dois polos). Vai de Fuglenes, em Hammerfest, a Staro-Nekrasivka, perto do Danúbio, e cobre cerca de 2.820 km em linha quase reta, de norte a sul.

O método era a triangulação (medir ângulos entre pontos visíveis uns dos outros). Basta conhecer com precisão o comprimento de um lado de um triângulo e os seus ângulos para calcular os outros dois lados. Cada lado calculado vira a base do triângulo seguinte, e a corrente avança.

AS BASES MEDIDAS NO CHÃO

Os poucos lados que não podiam ser calculados foram medidos no chão, com barras de metal colocadas ponta a ponta sobre terreno plano. Chamadas de bases, essas linhas conferiam a corrente inteira e impediam que um erro pequeno crescesse de triângulo em triângulo.

Uma base de poucos quilômetros levava semanas. As barras precisavam ficar niveladas e alinhadas, e a temperatura do metal era anotada, porque o calor dilata o ferro e muda o comprimento da medida.

Nos pontos altos, as equipes erguiam torres de madeira para enxergar acima das árvores. Na Finlândia e na Suécia, cheias de lagos e florestas, algumas torres passavam da altura dos pinheiros em volta.

Além dos ângulos, os astrônomos observavam estrelas em vários pontos para fixar a latitude (distância em graus até a linha do Equador). Comparando a distância em quilômetros com a diferença em graus, sabiam quanto media um grau de meridiano em cada trecho.

Struve chefiou o trecho do norte da Estônia, começado em 1816. O trecho do sul, da Lituânia ao Danúbio, ficou com o general Carl Tenner, oficial do exército russo e topógrafo. A Escandinávia foi medida por astrônomos de Suécia e Noruega, entre eles Christopher Hansteen, de Christiania, a atual Oslo.

O trabalho andava só nos meses de tempo bom. No norte, a neve fechava os morros de outubro a maio; no sul, a poeira do verão turvava as lunetas. Por esse ritmo, a corrente levou 39 anos para ficar completa.

O resultado saiu em dois volumes, publicados por Struve entre 1857 e 1860, com o título Arc du méridien de 25° 20' entre le Danube et la Mer Glaciale (arco do meridiano de 25° 20' entre o Danúbio e o Mar Glacial). Os 25° 20' do título indicam a amplitude do arco em latitude, do sul ao norte.

 
 

II  O que tem ali

Furos, cruzes e obeliscos

Dos centenas de pontos medidos no século XIX, a maior parte sumiu sob estradas, plantações e cidades. Em 2005, a UNESCO inscreveu 34 pontos que sobraram na lista do Patrimônio Mundial, como um bem só, dividido entre dez países.

A distribuição dos marcos segue o mapa atual: Finlândia, com 6; Bielorrússia, com 5; Noruega, Suécia e Ucrânia, com 4 cada; Estônia e Lituânia, com 3; Letônia e Rússia, com 2; e Moldávia, com 1.

COMO É UM MARCO DE STRUVE

O marco original costuma ser pequeno. Pode ser um furo cilíndrico aberto na rocha, um tijolo enterrado, uma cruz entalhada no granito ou uma pedra com um sinal no centro. Sobre ele ficava o instrumento, e é dele que saíam as miradas para os vizinhos.

Nos séculos seguintes, os países acrescentaram monumentos para que os pontos fossem achados. Na Lituânia, em Meškonys, há um obelisco. Na Bielorrússia, vários pontos ganharam pilares de pedra com o desenho do arco gravado.

Na Estônia, um dos pontos fica dentro do antigo observatório de Tartu, no prédio onde Struve trabalhava. Ali, a medição começou pelo ponto zero da cidade, ainda hoje visível para quem visita o museu.

Na Rússia, os dois pontos ficam na ilha de Gogland, no golfo da Finlândia. A ilha é pequena, rochosa e servia de ponte de mira entre a costa da Finlândia e a da Estônia, separadas por água demais para uma mirada única.

Na Finlândia, alguns marcos estão em ilhas de lagos e em morros de floresta, onde só se chega a pé. Em Tornio, na fronteira com a Suécia, um ponto fica no alto da igreja de Alatornio, porque a torre do templo já era a construção mais alta da região.

No extremo norte, a coluna de Fuglenes foi erguida em 1854 para marcar o fim do arco. No sul, em Staro-Nekrasivka, a Ucrânia ergueu um monumento perto do último ponto medido.

Visitar os 34 marcos exige uma viagem que passa por línguas, moedas e alfabetos diferentes: latino, cirílico, e as letras próprias do finlandês e do lituano.

 

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III  Por que a linha passa ali

Um império que virou dez países

O arco cruza dez países porque as fronteiras mudaram depois que a medição terminou. Em 1816, a corrente passava por apenas dois Estados: o Império Russo e o Reino Unido da Suécia e da Noruega, que tinham um só rei.

A Finlândia era um grão-ducado dentro do Império Russo. A Estônia, a Letônia, a Lituânia, a Bielorrússia, a Moldávia e o sul da Ucrânia também respondiam ao czar. O lado sueco e norueguês dependia de acordo entre os dois governos, e o czar Nicolau I e o rei Oscar I apoiaram o trabalho.

O TRAÇADO QUE ESCOLHEU O TERRITÓRIO

Struve não escolheu o meridiano por política. Ele precisava de um arco longo, sobre terra firme, com morros e torres visíveis entre si, e o território russo oferecia a maior faixa contínua de norte a sul na Europa.

A meta era científica. Quanto mais longo o arco, mais fácil perceber como o tamanho de um grau muda do sul para o norte, e a partir dessa mudança calcular o achatamento da Terra nos polos.

Struve morreu em 1864, e no século seguinte a Europa se repartiu. A Noruega se separou da Suécia em 1905. A Finlândia se tornou independente em 1917. Os países bálticos, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Moldávia ganharam fronteiras próprias depois da Primeira Guerra ou com o fim da União Soviética, em 1991.

“Como um bem só pode pertencer a dez governos ao mesmo tempo?”

A resposta está na inscrição da UNESCO: o arco é um bem transnacional (dividido entre países). Cada governo cuida dos pontos no seu território, e os dez assinaram a candidatura conjunta aprovada em 2005, durante a sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Durban, na África do Sul.

Hoje, quem segue o arco de carro cruza postos de fronteira onde Struve passava sem mostrar papel. Em 1850, o caminho de Tartu ao Danúbio corria dentro de um país só; em 2026, o mesmo trecho cruza Estônia, Letônia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia e Moldávia.

Os dados da medição continuaram em uso por décadas. Os números de Struve entraram nos cálculos da forma da Terra feitos no século XIX, até a chegada das medições por satélite.

A lista dos 34 pontos e o estado de conservação de cada um são revistos nos relatórios periódicos que os dez países entregam à UNESCO. Reconfira na página do bem 1187, em whc.unesco.org, depois da sessão do Comitê do Patrimônio Mundial de 2027.

 
 
Quiz da edição

Quantos marcos do Arco de Struve a UNESCO inscreveu como Patrimônio Mundial em 2005?

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B39
C34
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