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No Nepal, um rio cruza o Himalaia entre dois picos de 8.000 metros

O Kali Gandaki corre a 2.500 metros entre o Dhaulagiri e o Annapurna porque já existia antes de a cordilheira subir.

Rio Kali Gandaki correndo entre bancos de seixos, com o Dhaulagiri nevado ao fundo, no Nepal.

Kali Gandaki entre Tukuche e Lete, Nepal

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O vento chega ao meio-dia com areia fina, e a areia estala na lona das barracas como chuva miúda. Em poucos minutos, ela entra no colarinho, nos cílios e no açúcar do chá de quem espera na beira da trilha.

De manhã, o vale estava parado. A pedra do leito ainda guardava o frio da noite, e a água cinzenta corria baixa entre bancos de seixos redondos, alguns do tamanho de uma bola de futebol.

Depois das onze, o ar começa a subir. Ele entra pelo sul, sobe o vale com força e só para no fim da tarde. As mulas baixam a cabeça, os carregadores amarram lenços no rosto e as bandeiras de oração dos telhados batem sem parar.

O lugar é o distrito de Mustang, no centro-norte do Nepal, perto da fronteira com o Tibete. As casas têm telhado plano, com lenha empilhada na borda, e paredes de pedra caiadas. Ao redor, os morros são pardos e quase sem árvore.

O piloto que voa até a pista de Jomsom sabe do vento de cor. Os voos curtos que saem de Pokhara pousam de manhã cedo; com o vento da tarde, o pequeno avião balança demais entre as paredes do vale, e a companhia cancela a viagem.

Quem olha para cima, num dia limpo, vê gelo dos dois lados. A oeste, uma parede branca sobe sem fim. A leste, outra. As duas pertencem a montanhas com mais de 8.000 metros, e o rio passa entre elas, muito mais baixo, como se a cordilheira tivesse sido aberta a machado.

O rio se chama Kali Gandaki. Ele atravessa o Himalaia de norte a sul, de ponta a ponta da cordilheira mais alta do planeta, e o caminho dele tem uma explicação de idade.

Antes da explicação, vale seguir o rio no mapa, da nascente no planalto até a planície da Índia.

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I  O mapa do dia

Do planalto tibetano à planície do Ganges

Do Alto Mustang até a foz no Ganges.

O Kali Gandaki nasce no extremo norte do Nepal, em Upper Mustang (o Alto Mustang), um planalto seco encostado na fronteira com o Tibete, de onde descem as primeiras águas de geleira que formam o rio.

Ali o terreno já pertence ao lado tibetano da cordilheira. Chove pouco, porque as montanhas ao sul seguram as nuvens da monção (o regime de chuvas de verão que vem do oceano Índico). O vale é marrom, cortado por falésias de arenito cheias de cavernas antigas.

A antiga capital do reino de Lo, Lo Manthang, fica nesse planalto, dentro de uma muralha de barro. O Alto Mustang ficou fechado a estrangeiros até 1992, e ainda hoje o governo do Nepal cobra uma licença especial de quem quer entrar.

O rio desce para o sul e passa por Kagbeni, vila de casas coladas umas às outras. Logo abaixo fica Jomsom, a sede do distrito, com a pista de pouso, o hospital e o comércio da região.

O TRECHO ENTRE OS GIGANTES

O ponto mais famoso do curso fica entre Tukuche e Lete, onde o leito passa entre dois dos dez picos mais altos do mundo.

A oeste fica o Dhaulagiri, com 8.167 metros. A leste, o Annapurna, com 8.091. Os dois cumes estão a uns 34 km um do outro em linha reta, e o rio corre no meio, a uns 2.500 metros de altitude.

Por isso o vale aparece em listas como a garganta mais funda do planeta, medida do cume ao leito. A conta varia conforme o ponto escolhido, e os geógrafos não usam um método único para medir a profundidade de um vale.

Abaixo de Ghasa, o vale muda de cara. A monção volta a molhar as encostas, aparecem pinheiros, depois bambu e plantações de arroz em terraços.

Em Tatopani, nome que em nepali quer dizer “água quente”, fontes termais brotam na margem, e os trekkers param para descansar nas piscinas de pedra.

O rio segue para o sul, passa por Beni e recebe outros afluentes. Ao encontrar o Trishuli, já na planície, ganha o nome de Narayani. Atravessa o Parque Nacional de Chitwan, cruza a fronteira com a Índia como Gandak e deságua no Ganges perto de Patna.

 
 

II  O que tem ali

Fósseis, maçãs e sal

Nos seixos do leito, perto de Kagbeni e de Jomsom, aparecem pedras pretas e redondas que, partidas ao meio, mostram uma espiral perfeita. São amonites (moluscos marinhos extintos de concha enrolada) do período Jurássico.

Os fósseis vêm de camadas de xisto escuro que se formaram no fundo de um mar, o Tétis, que existia entre a Índia e a Ásia. Quando a Índia empurrou o fundo do mar contra o continente, essas camadas subiram junto com a montanha.

O rio arranca os blocos das encostas, rola as pedras e as deixa limpas nos bancos de seixos, prontas para quem se abaixa para procurar.

A PEDRA DE VISHNU

Para os hindus, cada amonite do Kali Gandaki é um shaligram (pedra sagrada que representa o deus Vishnu), e o rio é o único lugar onde ela nasce.

Peregrinos levam as pedras para altares domésticos no Nepal e na Índia. As famílias passam o shaligram de geração em geração, e muitos templos guardam coleções inteiras.

A rota de peregrinação sobe até Muktinath, templo a uns 3.700 metros, a leste de Kagbeni. O nome quer dizer “senhor da libertação”, e o lugar é sagrado para hindus e budistas. No pátio, 108 bicas em forma de cabeça de touro despejam água gelada, e os fiéis passam correndo debaixo de todas.

Os moradores do vale médio são os thakali, povo que viveu por séculos do comércio. Pela garganta passava a rota do sal: caravanas de iaques e mulas traziam sal do Tibete e levavam arroz e cevada do sul.

Tukuche era o mercado principal. Os comerciantes thakali construíram ali casas grandes com pátio interno, onde as caravanas descarregavam, e algumas seguem de pé, com janelas de madeira entalhada.

O comércio de sal perdeu força a partir dos anos 1960, depois que a fronteira com o Tibete foi fechada e o sal indiano, mais barato, passou a subir de caminhão até as cidades do sul.

Os thakali passaram a viver de hospedaria. A cozinha deles ficou famosa no Nepal inteiro: o dal bhat (arroz com sopa de lentilha) servido em pratos de latão, com refil à vontade.

Em Marpha, vila de vielas de pedra, os moradores plantam maçã desde a segunda metade do século 20. A fruta virou suco, conhaque e torta, vendidos nas casas de chá da trilha.

 

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III  Por que a linha passa ali

Um rio mais velho que a montanha

O Kali Gandaki cruza o Himalaia porque já corria naquele lugar antes de a cordilheira chegar à altura de hoje. Os geólogos chamam esse tipo de curso de rio antecedente (o rio que antecede o relevo que ele atravessa).

A cordilheira nasceu da colisão entre a placa da Índia e a placa da Ásia, há dezenas de milhões de anos. A Índia seguiu empurrando para o norte, e a crosta foi dobrada, empilhada e levantada aos poucos.

O rio já descia do planalto para o sul. Conforme a rocha subia, a água cortava o leito para baixo, carregando cascalho e areia que funcionavam como lixa.

O processo pode ser lido em três passos:

1. O rio corria do norte para o sul sobre um terreno ainda baixo.

2. A crosta começou a subir no meio do caminho, devagar, ao longo de milhões de anos.

3. O rio cortou o leito no mesmo ritmo da subida, e a montanha cresceu em volta dele.

UMA SERRA LENTA

O rio venceu porque a montanha subiu devagar o bastante para a água acompanhar, como uma serra parada contra uma tábua que alguém empurra para cima.

Se a rocha tivesse subido mais rápido, a água teria represado num lago ou mudado de rumo, como aconteceu com muitos rios menores da região. O Kali Gandaki tinha volume e força para manter o caminho.

Os geólogos ainda discutem quanto do curso atual é antecedente e quanto foi capturado depois, quando a erosão de um vale encontrou outro. A questão segue aberta porque os depósitos mais antigos do leito foram levados pela própria correnteza, e sobrou pouca rocha para datar.

A garganta também foi a porta de entrada para o primeiro pico de 8.000 metros escalado. Em 1950, a expedição francesa de Maurice Herzog subiu o Kali Gandaki para estudar o Dhaulagiri, desistiu dele e atravessou para o Annapurna.

Em 3 de junho de 1950, Herzog e Louis Lachenal chegaram ao cume do Annapurna. Na descida, os dois perderam dedos por congelamento. Herzog contou a viagem no livro “Annapurna”, de 1951, que vendeu milhões de cópias.

O Dhaulagiri esperou mais dez anos. Em 13 de maio de 1960, uma expedição suíça e austríaca chegou ao topo, com apoio de um pequeno avião que pousava numa geleira da montanha.

Hoje uma estrada de terra sobe pelo vale de Beni até Jomsom e Muktinath, aberta em trechos ao longo dos anos 2000. Ela encurtou a viagem dos moradores e mudou o trecho mais famoso do Circuito do Annapurna, que antes era feito só a pé.

A estrada fecha com frequência nas chuvas de verão, quando deslizamentos cortam a pista. A temporada de trekking de outono costuma terminar no fim de novembro. Reconfira as condições da trilha e das licenças na página do Annapurna Conservation Area Project, no site ntnc.org.np, no dia 1 de dezembro de 2026, antes de planejar a viagem.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, até que ano o Alto Mustang, planalto onde nascem as primeiras águas do Kali Gandaki, ficou fechado a estrangeiros?

A1975
B1992
C1960
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Dia 3 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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