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O Kali Gandaki cruza o Himalaia porque já corria naquele lugar antes de a cordilheira chegar à altura de hoje. Os geólogos chamam esse tipo de curso de rio antecedente (o rio que antecede o relevo que ele atravessa).
A cordilheira nasceu da colisão entre a placa da Índia e a placa da Ásia, há dezenas de milhões de anos. A Índia seguiu empurrando para o norte, e a crosta foi dobrada, empilhada e levantada aos poucos.
O rio já descia do planalto para o sul. Conforme a rocha subia, a água cortava o leito para baixo, carregando cascalho e areia que funcionavam como lixa.
O processo pode ser lido em três passos:
1. O rio corria do norte para o sul sobre um terreno ainda baixo.
2. A crosta começou a subir no meio do caminho, devagar, ao longo de milhões de anos.
3. O rio cortou o leito no mesmo ritmo da subida, e a montanha cresceu em volta dele.
UMA SERRA LENTA
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O rio venceu porque a montanha subiu devagar o bastante para a água acompanhar, como uma serra parada contra uma tábua que alguém empurra para cima.
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Se a rocha tivesse subido mais rápido, a água teria represado num lago ou mudado de rumo, como aconteceu com muitos rios menores da região. O Kali Gandaki tinha volume e força para manter o caminho.
Os geólogos ainda discutem quanto do curso atual é antecedente e quanto foi capturado depois, quando a erosão de um vale encontrou outro. A questão segue aberta porque os depósitos mais antigos do leito foram levados pela própria correnteza, e sobrou pouca rocha para datar.
A garganta também foi a porta de entrada para o primeiro pico de 8.000 metros escalado. Em 1950, a expedição francesa de Maurice Herzog subiu o Kali Gandaki para estudar o Dhaulagiri, desistiu dele e atravessou para o Annapurna.
Em 3 de junho de 1950, Herzog e Louis Lachenal chegaram ao cume do Annapurna. Na descida, os dois perderam dedos por congelamento. Herzog contou a viagem no livro “Annapurna”, de 1951, que vendeu milhões de cópias.
O Dhaulagiri esperou mais dez anos. Em 13 de maio de 1960, uma expedição suíça e austríaca chegou ao topo, com apoio de um pequeno avião que pousava numa geleira da montanha.
Hoje uma estrada de terra sobe pelo vale de Beni até Jomsom e Muktinath, aberta em trechos ao longo dos anos 2000. Ela encurtou a viagem dos moradores e mudou o trecho mais famoso do Circuito do Annapurna, que antes era feito só a pé.
A estrada fecha com frequência nas chuvas de verão, quando deslizamentos cortam a pista. A temporada de trekking de outono costuma terminar no fim de novembro. Reconfira as condições da trilha e das licenças na página do Annapurna Conservation Area Project, no site ntnc.org.np, no dia 1 de dezembro de 2026, antes de planejar a viagem.
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