|
|
No Mar Negro, a madeira não apodrece
A água doce dos rios boia sobre a salgada que entra pelo Bósforo, trava a mistura e deixa 90% do volume sem oxigênio.
|
O mar que não mistura a própria água
|
| ▼ |
| |
|
Madeira que afunda tem prazo de validade. No fundo do Atlântico ou do Mediterrâneo, um casco de navio vira comida: o teredo, molusco de corpo mole que perfura madeira submersa, come as tábuas de dentro para fora e deixa só o metal, a cerâmica e a pedra do lastro.
O resultado é que quase todo naufrágio antigo chega até nós como um monte de ânforas espalhadas no leito, com o contorno do casco marcado no sedimento e nada mais. O arqueólogo lê a carga e imagina a embarcação pelo desenho que o vazio deixou.
Existe um lugar no planeta onde essa conta não vale. Entre a Turquia, a Bulgária, a Romênia, a Ucrânia, a Rússia e a Geórgia, uma bacia quase fechada guarda cascos de madeira com o mastro em pé, o leme no lugar e os bancos de remador visíveis na câmera do robô.
O motivo não é a temperatura nem a falta de correnteza. É a ausência de oxigênio. Abaixo de uma faixa rasa perto da superfície, o Mar Negro é uma coluna de água onde nenhum animal respira, nenhuma bactéria aeróbia trabalha e nenhum molusco perfurador sobrevive.
Essa camada sem ar não é um bolsão preso no fundo de um vale. Ela ocupa 90% de todo o volume do mar, quase meio milhão de quilômetros cúbicos de água em que a vida se resume a bactérias que dispensam oxigênio e devolvem sulfeto de hidrogênio, o gás com cheiro de ovo podre.
A explicação está na porta de entrada. A bacia recebe rio demais e se liga ao resto do oceano por um corredor estreito e raso, e as duas coisas juntas montam uma barreira de densidade que nenhum inverno consegue quebrar. O resultado é um mar de dois andares que nunca se embaralha.
O mapa de hoje é essa bacia e o corredor de 31 quilômetros na saída dela. Onde ela fica, o que a água guarda lá embaixo e por que a linha entre o vivo e o conservado se instala sempre na mesma profundidade.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O mapa do dia
Dois mil metros de fundo, 35 de porta
|
|
Uma bacia funda com uma porta rasa demais.
O Mar Negro chega a 2.212 metros no ponto mais fundo e se liga ao resto do oceano por uma soleira de rocha de pouco mais de 30 metros. A distância entre as duas medidas explica o resto.
A bacia cobre 436.400 quilômetros quadrados, quase o tamanho da Suécia, e guarda perto de 547 mil quilômetros cúbicos de água. A profundidade média passa de 1.200 metros, um mar fundo de verdade e não uma plataforma alagada.
A forma é de tigela. A borda noroeste, onde o Danúbio deságua, é uma plataforma larga que se estende por mais de cem quilômetros com menos de 200 metros de coluna d'água. No resto da costa a plataforma some rápido e o talude desce direto para a planície abissal.
A costa soma cerca de 4.340 quilômetros divididos por seis países. Ao norte, o Mar de Azov funciona como antessala rasa, com sete metros de profundidade média.
A única saída natural fica no sul. São 31 quilômetros de canal no Bósforo, 700 metros de largura no ponto mais apertado, e uma soleira perto da entrada sul que deixa a passagem em torno de 35 metros de profundidade útil.
Depois do Bósforo vem o Mar de Mármara, depois o estreito de Dardanelos e só então o Egeu. Entre o fundo do Mar Negro e o do Mediterrâneo existem dois estreitos e duas soleiras rasas, e nenhuma massa de água pesada desce direto até lá.
Pela superfície do Bósforo sai água. Perto de 600 quilômetros cúbicos por ano descem para o Mármara, empurrados pelo excesso que os rios despejam na bacia.
Pelo fundo do mesmo canal entra água. Cerca de 300 quilômetros cúbicos anuais de água mediterrânea, bem mais salgada e mais densa, sobem o corredor em sentido contrário, colados ao leito.
|
O Bósforo é um estreito com duas correntes em sentidos opostos: água leve saindo por cima, água pesada entrando por baixo, separadas por poucos metros de coluna.
|
A água que entra por baixo tem salinidade perto de 35 partes por mil. A que sai por cima fica em torno de 18, quase metade da salinidade oceânica, porque a bacia recebe um volume enorme de rio.
Quase um terço da Europa continental drena para cá. O Danúbio atravessa dez países e entrega sozinho cerca de 200 quilômetros cúbicos por ano. Somando Dniepre, Dniester, Bug do Sul e Don, o aporte de água doce passa de 300 quilômetros cúbicos anuais.
O desenho fecha aí. Uma coluna d'água em dois andares, o de cima leve e o de baixo pesado, e uma porta rasa demais para trocar o conteúdo do porão.
|
|
|
|
|
II O que tem ali
Peixe em cima, naufrágio embaixo
|
|
Toda a vida animal do Mar Negro cabe nos primeiros 150 metros. Abaixo dessa faixa, a coluna d'água vira um vidro de conserva de quase meio milhão de quilômetros cúbicos.
|
A camada de cima é produtiva. Anchova, cavala e chicharro sustentam frotas dos seis países da costa, e a plataforma em frente ao delta do Danúbio já foi das áreas de pesca mais fartas da Europa.
Entre 50 e 100 metros existe uma camada intermediária fria. É água que esfriou no inverno na superfície do noroeste, afundou até onde a densidade permitiu e ficou presa ali, com temperatura em torno de sete graus o ano inteiro.
Perto dos 100 metros o oxigênio começa a cair. Por volta dos 150 ele acaba. Dali para baixo, mais de dois mil metros de coluna d'água sem uma molécula de oxigênio dissolvido.
Vida existe, mas é outra. Bactérias redutoras de sulfato usam o sulfato da água salgada no lugar do oxigênio e devolvem sulfeto de hidrogênio. A concentração chega perto de nove miligramas por litro nas camadas mais fundas.
É o maior corpo de água anóxica do planeta. Nenhum peixe entra, nenhum verme escava o sedimento, nenhum crustáceo passa raspando. O que cai lá embaixo pousa e fica.
|
"De todos os mares, o Ponto Euxino é o mais admirável."
Heródoto, Histórias, 440 a.C.
|
A conservação vem da lista de ausências. O maior inimigo da madeira submersa é o teredo, que perfura casco e some com a estrutura em poucas décadas. Ele precisa de oxigênio, e nunca desceu abaixo da linha dos 150 metros.
Em 2000, uma expedição perto de Sinop, na costa turca, achou a 320 metros uma embarcação com o mastro ainda em pé, fincado no leito. A madeira estava firme o bastante para mostrar marca de ferramenta.
Entre 2015 e 2017, um levantamento com robôs na costa búlgara mapeou mais de sessenta naufrágios em fila, de embarcações otomanas e bizantinas a cascos muito mais antigos, todos abaixo da linha do oxigênio.
O mais velho da lista estava a cerca de dois mil metros. A datação por carbono devolveu algo perto de 400 antes de Cristo: um mercante grego com casco, leme, mastro e bancos de remador no lugar, a embarcação mais antiga já encontrada inteira.
O desenho dele bate com o navio pintado num vaso grego do século V antes de Cristo, exposto no Museu Britânico, em que Ulisses aparece amarrado ao mastro. A ilustração de cerâmica ganhou um casco correspondente no fundo do mar.
Nada dessa lista teria sobrado a dois mil metros no Egeu. A mesma carga, no mesmo tempo, chegaria hoje como um tapete de ânforas espalhado sobre o sedimento.
|
|
|