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As aldeias do Daguestão ficaram isoladas umas das outras porque cada uma ocupava o fundo ou a encosta de um vale fechado por paredes de rocha, e o caminho até a vizinha cruzava passos de montanha cobertos de neve boa parte do ano.
Em linha reta, duas aldeias podiam estar a poucos quilômetros. Pela trilha, eram horas de subida, travessia de garganta e descida por outra encosta.
O processo que gerou tanta língua pode ser lido em três passos:
1. Um povo antigo ocupou os vales da montanha e se espalhou por eles ao longo de milênios.
2. Cada grupo ficou preso ao seu vale, casando dentro da aldeia e falando quase só com os próprios vizinhos.
3. Sem contato diário, a fala de cada vale mudou no seu ritmo, e os dialetos viraram línguas que os vizinhos já não entendiam.
O JAMAAT DE CADA VALE
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Cada vale funcionava como uma pequena república, com terras, pastos e leis próprias, e a língua marcava quem era de dentro.
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Os daguestaneses chamavam essas comunidades de jamaat (a comunidade rural autônoma, palavra de origem árabe). Elas se juntavam em federações para guerra e comércio, mas cada uma guardava o seu conselho de anciãos e o seu modo de falar.
Para comerciar, os montanheses aprendiam a língua do vizinho de baixo, dono do mercado. A linguista Nina Dobrushina, da Escola Superior de Economia de Moscou, estudou esse padrão nas aldeias: quem morava no alto aprendia a fala de quem morava no vale, e quase nunca o contrário.
Por cima de tudo, o árabe servia para a religião e o cumuco, idioma turco das planícies, para o comércio entre povos. No século 20, o russo ocupou os dois lugares.
A montanha também resistiu a quem chegava de fora. O imã Shamil, líder avar, comandou a guerra contra o Império Russo por 25 anos e só se rendeu em 1859, na aldeia de Gunib, no alto de um planalto cercado de penhascos.
Desde os anos 1950, o governo soviético e, depois, o russo transferiram aldeias inteiras da montanha para a planície. Estradas chegaram às gargantas, e as crianças passaram a estudar em russo. Muitas línguas pequenas perderam falantes jovens, e a do archi entra nessa lista. Em Archib, as crianças ainda aprendem archi em casa, mas a escola da aldeia ensina em avar e em russo.
A contagem de falantes de cada língua sai do censo da Rosstat, feito a cada dez anos. O próximo está previsto para 2030, e os números por idioma costumam sair dois anos depois da coleta. Reconfira a lista de línguas e falantes do Daguestão na página da Rosstat, rosstat.gov.ru, em 2032.
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