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No Daguestão, cada vale do Cáucaso guarda a própria língua

Em 50 mil km² de montanha, mais de trinta idiomas nativos sobreviveram porque cada garganta funda isolou uma aldeia das vizinhas.

Aldeia de casas de pedra em degraus numa encosta do Cáucaso, no Daguestão.

Aldeia de pedra no alto Daguestão, Rússia

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O martelo bate na prata fina, e o som seco volta da parede de pedra da casa em frente, na rua estreita. Na oficina, cheira a carvão e a cera quente, e o chão de terra batida guarda limalha brilhante entre as tábuas.

O ourives trabalha sentado, com a peça presa num bloco de resina. Ele grava um arabesco numa bainha de punhal, ponto por ponto, sem desenho no papel. O pai dele fazia o mesmo, e o avô também.

Na prateleira, ao lado das ferramentas, esperam um jarro de cobre, um cinto de placas e uma pulseira ainda sem o trinco. Os compradores vêm de Makhachkala, de Moscou e de fora da Rússia, e alguns sobem a estrada de terra só para ver a oficina funcionando.

A aldeia se chama Kubachi. Fica a uns 1.700 metros de altitude, encravada numa encosta do Cáucaso oriental, no sul da Rússia. As casas sobem a montanha em degraus, e o telhado plano de uma serve de quintal para a de cima.

Quando o ourives fala com o filho, usa o kubachi, língua que só existe nesta aldeia e em mais um punhado de famílias que saíram dela. Quando vende uma peça a um comprador do vale ao lado, troca de idioma. Quando vai à capital, troca de novo.

Três línguas numa tarde de trabalho é rotina nesta montanha. A república russa do Daguestão tem uns 50 mil km², pouco menos que o estado do Rio Grande do Norte, e abriga mais de trinta línguas nativas.

No século 10, o geógrafo árabe al-Masudi já havia reparado no excesso. Ele chamou o Cáucaso de “montanha das línguas”, e a expressão ficou.

A explicação para tanta fala num pedaço tão pequeno de terra está no relevo. Antes dela, convém pôr o Daguestão no mapa: onde começa, onde termina e o que o espreme entre a cordilheira e o mar.

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I  O mapa do dia

Entre o Cáucaso e o Cáspio

Da estepe do Terek às muralhas de Derbent.

O Daguestão é uma república da Federação Russa, a mais ao sul do país. O nome junta o turco dag (montanha) ao persa stan (terra): terra das montanhas. A capital é Makhachkala, cidade portuária no litoral.

A leste, a república inteira se apoia no mar Cáspio, o maior lago fechado do planeta, com uma costa baixa e arenosa que corre de norte a sul. A oeste e ao sul, sobe o Grande Cáucaso, a cordilheira que serve de fronteira com a Geórgia e o Azerbaijão.

Ao norte, o terreno desce até a planície do rio Terek e se abre em estepe seca, já encostada na Chechênia e na Calmúquia.

QUATRO FAIXAS EM POUCO ESPAÇO

O Daguestão cabe em quatro faixas de paisagem empilhadas, da planície à geleira, num território que um carro atravessa em poucas horas.

A primeira é a planície do norte, baixa e plana, onde parte do chão fica abaixo do nível do mar. A segunda é o litoral, com praias de areia e cidades antigas.

A terceira é o pé da serra, de morros redondos e pomares de damasco. A quarta é a alta montanha, onde os cumes passam de 4.000 metros e o Bazardüzü, no limite com o Azerbaijão, chega a 4.466.

Os rios descem da cordilheira para o Cáspio e cavam o caminho na rocha. O Sulak abre um cânion de paredes verticais perto da aldeia de Dubki, e o Samur marca boa parte da fronteira sul.

No litoral fica Derbent, uma das cidades mais antigas da Rússia. Ali a montanha encosta quase no mar e deixa só uma faixa estreita de terra plana.

Os persas sassânidas fecharam essa faixa no século 6 com muralhas de pedra que desciam da fortaleza de Naryn-Kala até a água. Quem viajava entre a estepe e o Oriente Médio pela costa tinha de passar por ali. Os árabes chamaram a cidade de Bab al-Abwab (a porta das portas). A Unesco pôs a cidadela e as muralhas na lista do Patrimônio Mundial em 2003.

A população da república, segundo o censo de 2021 da Rosstat, o serviço federal de estatística da Rússia, passa de 3,1 milhões de pessoas. A maioria mora hoje nas cidades do litoral e do pé da serra, mas as famílias seguem ligadas às aldeias da montanha de onde vieram.

 
 

II  O que tem ali

Uma aldeia, um idioma

As línguas nativas do Daguestão pertencem, em sua maioria, à família nakh-daguestanesa (o grupo de idiomas que só existe no Cáucaso nordeste). Elas não têm parentesco conhecido com o russo, o turco, o persa ou o árabe.

O avar é a maior, falado por quase um terço dos moradores, no centro e no oeste da montanha. Depois vêm o dargin, o lezguiano, o lak e o tabasarão, cada um com centenas de milhares de falantes.

Ao lado delas, a república fala também idiomas de outras famílias: o cumuco e o nogai, ambos turcos, nas planícies; o azeri em Derbent; o tat, de origem persa, entre os judeus da montanha; e o checheno no oeste.

O ARCHI DE UMA ALDEIA SÓ

O archi tem uma aldeia inteira de falantes, Archib, e nenhuma outra no mundo.

Archib fica no alto de um vale do distrito de Charoda, a mais de 2.000 metros. Os moradores, pouco mais de mil, falam archi em casa e avar com os vizinhos.

O archi ficou famoso entre linguistas pela gramática. Um verbo pode mudar de forma para indicar o tempo, a certeza de quem fala e a classe do sujeito, e a combinação desses traços gera uma quantidade de formas sem paralelo nas línguas europeias. O linguista russo Aleksandr Kibrik, da Universidade Estatal de Moscou, dedicou décadas a descrever a língua.

As línguas daguestanesas também classificam os substantivos em classes (grupos gramaticais parecidos com o masculino e o feminino do português, só que em maior número). Algumas têm duas, outras chegam a quatro ou mais, e o verbo concorda com elas.

A maioria dessas línguas não tinha escrita própria. Por séculos, a escrita da montanha foi o árabe, língua do Alcorão e das escolas religiosas, e alguns povos registravam o próprio idioma com o alfabeto árabe adaptado.

O governo soviético trocou esse alfabeto pelo latino nos anos 1920 e, em 1938, pelo cirílico, que segue em uso. Só as línguas maiores ganharam livros, jornais e ensino; as de uma aldeia ou duas continuaram só na fala.

Hoje, a Constituição do Daguestão dá ao russo e às línguas dos povos da república o papel de línguas oficiais. Na prática, catorze delas têm escrita padronizada, e as outras vivem em casa, no pasto e na conversa da praça.

 

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III  Por que a linha passa ali

Gargantas que fecham no inverno

As aldeias do Daguestão ficaram isoladas umas das outras porque cada uma ocupava o fundo ou a encosta de um vale fechado por paredes de rocha, e o caminho até a vizinha cruzava passos de montanha cobertos de neve boa parte do ano.

Em linha reta, duas aldeias podiam estar a poucos quilômetros. Pela trilha, eram horas de subida, travessia de garganta e descida por outra encosta.

O processo que gerou tanta língua pode ser lido em três passos:

1. Um povo antigo ocupou os vales da montanha e se espalhou por eles ao longo de milênios.

2. Cada grupo ficou preso ao seu vale, casando dentro da aldeia e falando quase só com os próprios vizinhos.

3. Sem contato diário, a fala de cada vale mudou no seu ritmo, e os dialetos viraram línguas que os vizinhos já não entendiam.

O JAMAAT DE CADA VALE

Cada vale funcionava como uma pequena república, com terras, pastos e leis próprias, e a língua marcava quem era de dentro.

Os daguestaneses chamavam essas comunidades de jamaat (a comunidade rural autônoma, palavra de origem árabe). Elas se juntavam em federações para guerra e comércio, mas cada uma guardava o seu conselho de anciãos e o seu modo de falar.

Para comerciar, os montanheses aprendiam a língua do vizinho de baixo, dono do mercado. A linguista Nina Dobrushina, da Escola Superior de Economia de Moscou, estudou esse padrão nas aldeias: quem morava no alto aprendia a fala de quem morava no vale, e quase nunca o contrário.

Por cima de tudo, o árabe servia para a religião e o cumuco, idioma turco das planícies, para o comércio entre povos. No século 20, o russo ocupou os dois lugares.

A montanha também resistiu a quem chegava de fora. O imã Shamil, líder avar, comandou a guerra contra o Império Russo por 25 anos e só se rendeu em 1859, na aldeia de Gunib, no alto de um planalto cercado de penhascos.

Desde os anos 1950, o governo soviético e, depois, o russo transferiram aldeias inteiras da montanha para a planície. Estradas chegaram às gargantas, e as crianças passaram a estudar em russo. Muitas línguas pequenas perderam falantes jovens, e a do archi entra nessa lista. Em Archib, as crianças ainda aprendem archi em casa, mas a escola da aldeia ensina em avar e em russo.

A contagem de falantes de cada língua sai do censo da Rosstat, feito a cada dez anos. O próximo está previsto para 2030, e os números por idioma costumam sair dois anos depois da coleta. Reconfira a lista de línguas e falantes do Daguestão na página da Rosstat, rosstat.gov.ru, em 2032.

 
 
Quiz da edição

No Daguestão, qual língua tem falantes nativos em apenas uma aldeia do mundo?

ALak
BDargin
CArchi
DTabasarão

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