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No Cáspio, navios afundados viraram o chão de uma cidade

Desde 1949, Neft Daşları cresce sobre estacas a uns 55 km da costa do Azerbaijão, em cima de um banco raso de petróleo.

Estacadas e alojamentos de Neft Daşları sobre o mar Cáspio, no Azerbaijão.

Neft Daşları, mar Cáspio, Azerbaijão

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O ar tem gosto de ferro e de óleo diesel. Sob as botas, as tábuas da passarela vibram a cada onda que bate nas colunas de aço, e o vento frio do norte assobia entre os cabos dos guindastes.

Embaixo, a água do mar é verde-escura e carrega uma película de arco-íris, que gira devagar em volta das estacas. Gaivotas pousam nos corrimãos enferrujados e levantam voo quando passa um caminhão.

Um caminhão, ali, no meio da água. A passarela é uma rua, com duas faixas, postes de luz e placas de velocidade. Ela segue reta por quilômetros, sobre pilares, até sumir no horizonte cinzento.

Ao longo dela aparecem torres de perfuração, tanques redondos e prédios de alojamento com janelas quadradas. Num canto, há canteiros com árvores plantadas em terra trazida de barco.

O lugar se chama Neft Daşları (Pedras do Petróleo, em azerbaijano). Fica no mar Cáspio, a uns 55 km da costa do Azerbaijão, e não aparece como ilha em nenhum mapa comum. Para os geógrafos, é um assentamento em mar aberto.

Os trabalhadores chegam de helicóptero ou de navio a partir de Baku, a capital, e ficam em turnos de duas semanas. Dormem, comem e trabalham sobre as estacas, sem tocar terra firme.

No refeitório, o cheiro de pão quente se mistura ao de graxa. Pela janela, a única paisagem é água em todas as direções, cortada pelas linhas retas das pontes de aço que levam aos poços mais distantes.

A cidade começou com uma decisão estranha. Para firmar o primeiro pedaço de chão, os engenheiros soviéticos afundaram navios velhos de propósito, um ao lado do outro, sobre um banco de rocha a poucos metros da superfície.

Esses cascos ainda estão lá, sob a ferrugem e a areia. Para entender por que alguém decidiu morar em cima deles, primeiro é preciso localizar o banco de rocha no mapa do Cáspio.

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I  O mapa do dia

Um recife escuro no meio do Cáspio

Da península de Absheron até as Pedras Negras.

O mar Cáspio é o maior corpo de água fechado do planeta. Não tem ligação natural com o oceano, e a superfície dele fica uns 28 metros abaixo do nível do mar.

Ele se estica por uns 1.200 quilômetros de norte a sul e banha cinco países: Rússia, Cazaquistão, Turcomenistão, Irã e Azerbaijão. A costa azerbaijana fica a oeste, no pé do Cáucaso.

No meio dessa costa, a terra avança para o mar numa ponta comprida e seca, a península de Absheron. Baku ocupa o lado sul dela, numa baía protegida do vento.

Do fim da península sai uma fileira de ilhotas e bancos de areia rumo a leste, o arquipélago de Absheron. Neft Daşları fica no fim dessa fileira, já em mar aberto.

O fundo do Cáspio tem três partes. O norte é raso, com poucos metros de água. O centro e o sul formam duas bacias fundas, a do sul passando dos mil metros.

ENTRE AS DUAS BACIAS

Uma crista submarina separa a bacia central da bacia sul, como um muro baixo no fundo do mar.

Ela se chama soleira de Absheron (soleira é o degrau elevado entre dois vales submarinos). A crista sai da península de Absheron e atravessa o Cáspio até a costa do Turcomenistão, na península de Cheleken.

Sobre essa crista, a água é rasa. Em alguns pontos, a rocha chega a poucos metros da superfície, e o mar quebra em espuma mesmo em dia calmo.

No resto do Cáspio central e do sul, a água passa rápido de dezenas para centenas de metros. A crista é o único trecho largo de mar raso longe da costa nessa metade do mar.

Um desses pontos era conhecido dos pescadores e marinheiros de Baku muito antes de 1949. Eles o chamavam de Pedras Negras, porque o petróleo que vazava do fundo pintava a rocha de preto.

A mancha escura servia de aviso. Navio que passava por cima encalhava, e os pilotos do porto de Baku marcavam o lugar para os capitães desviarem.

No mapa, a soleira aparece como uma linha de pontos rasos cortando o Cáspio de oeste a leste. Neft Daşları ocupa um desses pontos, onde o fundo sobe mais perto da luz.

 
 

II  O que tem ali

Uma cidade sobre estacas

Em 1949, uma expedição soviética chegou às Pedras Negras para furar o primeiro poço. O projeto tinha o apoio de Nikolai Baibakov, então ministro da indústria do petróleo da União Soviética.

No dia 7 de novembro de 1949, a brigada do mestre-perfurador Mikhail Kaverochkin tirou petróleo do poço, a uns mil metros de profundidade. A data marcava o aniversário da Revolução de 1917.

Faltava onde morar. Os primeiros homens dormiam em barracas e barcos ancorados, expostos às tempestades do norte.

O CHÃO DE FERRO

Para criar o primeiro pedaço de chão firme, os engenheiros afundaram sete navios velhos sobre o banco raso, lado a lado, e encheram os cascos de pedra.

Um deles era o Zoroaster, construído na Suécia em 1878 para os irmãos Nobel, que exploravam petróleo em Baku. Foi um dos primeiros navios-tanque do mundo a levar petróleo em compartimentos no próprio casco.

Sobre os cascos, os operários ergueram as primeiras casas de madeira. Depois vieram as estacadas, plataformas de aço apoiadas em colunas cravadas no fundo e ligadas por pontes.

As pontes cresceram até formar uma malha de ruas. Nos anos 1960, a rede de estacadas somava centenas de quilômetros, com poços, oficinas e caminhões circulando sobre o mar.

O assentamento ganhou a vida de uma cidade pequena. Havia prédios de alojamento de vários andares, refeitório, padaria, hospital, biblioteca, cinema e uma fábrica de limonada.

A terra dos canteiros veio de barco, desde a costa. Os moradores plantaram árvores numa praça, e algumas resistem ao vento salgado até hoje.

Os turnos traziam homens de todo o Azerbaijão e de outras repúblicas soviéticas. Muitos passavam décadas indo e voltando, duas semanas sobre as estacas e duas em casa.

O abastecimento vinha todo de Baku. Navios traziam água doce, comida, peças e combustível, e levavam de volta o petróleo em navios-tanque ou, mais tarde, por oleodutos no fundo do mar.

Em dezembro de 1957, uma tempestade derrubou um trecho de estacada com uma torre de perfuração, e os homens que trabalhavam nela foram arrastados pelo mar. O caso entrou na memória do lugar como o maior desastre dos primeiros anos.

Com o fim da União Soviética, em 1991, a produção caiu e parte das estacadas ficou sem manutenção. Trechos inteiros enferrujaram e desabaram na água.

Hoje a operação é da SOCAR, a companhia estatal de petróleo do Azerbaijão. A empresa mantém dezenas de quilômetros de estacadas em uso e segue tirando petróleo dos poços mais antigos.

Em 1999, o filme de James Bond The World Is Not Enough (O Mundo Não É o Bastante) gravou cenas em Neft Daşları. A entrada de visitantes segue restrita: só entra quem tem autorização da SOCAR.

 

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III  Por que a linha passa ali

A dobra de rocha sob o banco raso

O petróleo fica embaixo das Pedras Negras por causa de uma dobra na rocha do fundo do Cáspio.

O sul do Cáspio é uma bacia que afunda há milhões de anos. Os rios, principalmente o Volga, despejaram nela camadas e camadas de areia e lama, que hoje somam uma espessura de vários quilômetros.

O material orgânico preso nessas camadas, restos de algas e plâncton, foi enterrado fundo, esquentou e virou petróleo e gás ao longo de milhões de anos.

O caminho do petróleo até a soleira segue quatro passos:

1. A placa da Arábia empurra para o norte e aperta a região do Cáucaso e do Cáspio.

2. O aperto enruga as camadas de sedimento em dobras compridas, como um tapete empurrado contra a parede.

3. A parte de cima de cada dobra forma um arco, chamado anticlinal (dobra de rocha em forma de arco voltado para cima).

4. O petróleo, mais leve que a água, sobe pelas camadas porosas e fica preso no alto do arco, sob uma camada de argila que não deixa passar.

A FILEIRA DE ARCOS

A soleira de Absheron é uma fileira desses arcos de rocha, um atrás do outro, e cada banco raso marca o topo de um deles.

O arco empurra o fundo do mar para cima, e a água fica rasa justamente onde o petróleo se acumula. O banco que encalhava navios e o depósito de óleo são o mesmo arco de rocha.

Em alguns pontos, a argila de cima tem rachaduras, e o petróleo escapa até o fundo do mar. Foi esse vazamento natural que pintou de preto as Pedras Negras e deu o nome ao lugar.

A mesma dobra explica os vulcões de lama da península de Absheron e do Azerbaijão. Neles, gás e lama sobem por fendas e formam cones na superfície, alguns em chamas.

Em Absheron, o gás que escapa do chão alimenta até hoje o Yanar Dag (montanha que arde, em azerbaijano), uma encosta onde o fogo queima sem parar há décadas.

A pouca profundidade também decidiu a engenharia. Em água de poucos metros, era possível cravar colunas no fundo e afundar navios com a tecnologia de 1949. As bacias fundas ao lado passam de centenas de metros de água.

A cidade nasceu sobre as Pedras Negras porque o arco reunia, no mesmo lugar, o petróleo, o fundo raso e o chão de rocha firme para as estacas.

A produção atual de Neft Daşları sai no relatório anual da SOCAR. Reconfira o número de poços e de estacadas em uso no site socar.az quando sair o relatório de 2026, previsto para o primeiro semestre de 2027.

 
 
Quiz da edição

Quantos navios velhos os engenheiros soviéticos afundaram lado a lado sobre o banco raso para criar o primeiro pedaço de chão firme de Neft Daşları?

ACinco
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CNove
DDoze

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