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Na Patagônia, a geleira Perito Moreno fecha um braço do lago Argentino

O gelo avança até a península de Magallanes, a água presa sobe mais de dez metros e cava um túnel até a parede ceder.

Frente da geleira Perito Moreno diante da península de Magallanes, no lago Argentino.

Geleira Perito Moreno, Santa Cruz, Argentina

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O estalo chega antes da imagem: um tiro seco e abafado, que rola pela água leitosa e bate nas encostas. Na passarela de madeira, o ar fica a poucos graus acima de zero, e o vento traz um cheiro de pedra molhada.

À frente, separada da margem por um trecho curto de água, uma parede azul e branca sobe do lago como um prédio sem janelas. Um bloco do tamanho de uma casa se solta do topo, desce devagar e levanta uma onda que corre até as pedras da beira.

Os turistas aplaudem. Os guardas do parque mal levantam os olhos, porque a cena se repete várias vezes por dia no verão.

A parede é a frente da geleira Perito Moreno, na província de Santa Cruz, no sul da Argentina. O gelo desce dos Andes por um vale estreito e termina dentro do lago Argentino, o maior lago de água doce do país.

A passarela fica sobre a península de Magallanes, uma língua de terra coberta de mato baixo e árvores retorcidas que entra no lago. É o ponto mais próximo da frente de gelo aonde se chega a pé.

De tempos em tempos, a geleira avança até encostar na ponta dessa península. Quando o gelo toca a rocha, o lago fica partido em dois. A parte sul, o braço Rico, perde a saída e começa a encher.

Durante meses, a água presa sobe mais de dez metros acima do resto do lago, cobre praias e afoga árvores da margem. Um dia, a parede cede, e o lago volta a ser um só em poucas horas, com um estrondo ouvido de longe.

Para entender por que o gelo chega até a pedra, primeiro é preciso pôr a geleira no mapa: de onde ela desce, onde termina e como o lago se desenha em volta dela.

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I  O mapa do dia

Uma língua de gelo dentro do lago

Da calota dos Andes à ponta da península de Magallanes.

A geleira Perito Moreno fica no Parque Nacional Los Glaciares, no sudoeste da província de Santa Cruz, encostado na fronteira com o Chile. O parque foi criado em 1937, e a Unesco o pôs na lista do Patrimônio Mundial em 1981.

A cidade mais próxima é El Calafate, na margem sul do lago Argentino. De lá, uma estrada asfaltada corre para oeste, contorna o lago e termina na península de Magallanes, diante da frente de gelo.

A geleira nasce no Campo de Gelo Patagônico Sul, uma calota contínua que cobre o alto dos Andes por centenas de quilômetros, dividida entre Argentina e Chile. Dessa calota descem dezenas de línguas de gelo, para leste e para oeste.

A Perito Moreno é uma das línguas que descem para leste. Ela escorre por um vale entre montanhas, estreita-se no caminho e chega ao lago com uma frente de alguns quilômetros de largura.

O nome homenageia Francisco Pascasio Moreno, explorador e naturalista argentino nascido em 1852. Ele ganhou o título de perito (especialista técnico) por representar a Argentina na disputa de fronteira com o Chile, decidida por arbitragem do rei Eduardo VII, da Grã-Bretanha, em 1902.

Moreno percorreu a Patagônia a cavalo e de barco nos anos 1870 e chegou ao lago Argentino em 1877. Foi ele quem batizou o lago. A geleira recebeu o nome dele depois, como homenagem ao trabalho na fronteira.

O LAGO EM BRAÇOS

O lago Argentino tem a forma de uma mão aberta, com o corpo principal a leste e vários braços compridos que entram nos vales dos Andes, a oeste.

Um desses braços, o Norte, recebe as geleiras Upsala e Spegazzini. Mais ao sul, o canal dos Témpanos (blocos de gelo flutuante) passa diante da frente da Perito Moreno e liga o corpo do lago a dois braços menores.

Esses dois braços se chamam Rico e Sul. Eles ficam atrás da geleira, encaixados entre montanhas, e a única saída da água deles para o resto do lago é a passagem estreita entre a frente de gelo e a ponta da península de Magallanes.

A península é um morro baixo que avança de leste para oeste. Quando a geleira cresce alguns metros a mais, a ponta do gelo encosta no barranco dela, e a passagem se fecha.

No mapa, o desenho explica o fenômeno: a geleira desce como um dedo apontado para a península, e a península aponta de volta para a geleira.

 
 

II  O que tem ali

Gelo azul, bosque e témpanos

A frente da geleira tem cor de vidro de garrafa nas fendas e branco opaco no topo. O azul aparece onde o gelo é mais denso e antigo, porque o gelo compacto absorve a parte vermelha da luz e devolve a azul.

A superfície é rasgada por gretas (fendas abertas pelo movimento do gelo) e por agulhas pontudas chamadas séracs (torres de gelo partido). Ninguém caminha ali sem guia, grampos de aço presos às botas e corda.

As agências de El Calafate levam grupos para caminhar sobre a geleira desde os anos 1990. O passeio sai de barco pelo braço Rico, desembarca na margem de pedra e sobe pelo gelo na borda sul, longe da frente que desaba.

A ÁGUA COR DE LEITE

O lago Argentino tem cor de leite com menta por causa da farinha glacial, o pó de rocha que a geleira mói ao se arrastar pelo fundo do vale.

O pó é tão fino que fica em suspensão na água e rebate a luz do sol. Quanto mais longe da geleira, mais o pó assenta, e a água vai ficando verde e depois azul.

Nas encostas em volta crescem bosques de lenga e ñire, duas espécies de faia austral (árvores do gênero Nothofagus, típicas do sul dos Andes). No outono, em abril, as folhas viram vermelho e laranja.

Os galhos tortos e os troncos inclinados são obra do vento oeste, que sopra forte quase o ano inteiro. Na península, as árvores crescem curvadas para o mesmo lado.

No céu, o condor-dos-andes plana entre os paredões. Na margem, aparecem a raposa-cinzenta, o tatu-peludo e lebres europeias trazidas pelos colonos.

No canal dos Témpanos boiam os pedaços que caem da frente. Alguns são do tamanho de um carro, outros do tamanho de uma casa, e todos derretem devagar enquanto a corrente os leva para leste.

O braço Rico guarda o rastro das cheias. Quando a geleira fecha a passagem, a água sobe e invade os campos baixos da margem, e estâncias (fazendas de criação de ovelhas) já perderam pastos e cercas debaixo do lago.

Nas encostas do braço, uma faixa de árvores mortas e de pedra sem musgo marca até onde a água chegou nas cheias maiores. A faixa fica bem acima do nível normal do lago e se vê do barco.

 

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III  Por que a linha passa ali

O dique de gelo e o túnel

A Perito Moreno chega até a península porque recebe neve suficiente para repor o gelo que perde na frente. A maioria das geleiras vizinhas encolhe há décadas, e ela se manteve quase no mesmo lugar ao longo do século 20.

A neve vem do Pacífico. Os ventos de oeste carregam umidade do oceano, batem nos Andes, sobem e esfriam, e a água cai como neve no alto da calota de gelo.

Lá em cima, a neve se acumula, se compacta e vira gelo. O peso empurra esse gelo morro abaixo, e ele desce pelo vale como uma massa lenta até o lago.

Na frente, a geleira perde gelo por ablação (derretimento e desprendimento de blocos). Enquanto a neve que entra no alto compensa o gelo que sai embaixo, a frente fica parada, ou avança um pouco.

O vale ajuda. Ele é estreito na descida, o que segura o gelo em volume, e a frente apoia no fundo raso perto da península, o que a deixa menos exposta à água que derrete o gelo por baixo.

COMO O DIQUE SE ROMPE

O fechamento do braço Rico termina sempre do mesmo jeito: a água presa abre caminho por dentro do gelo até a parede não aguentar o próprio peso.

O processo segue quatro passos:

1. A frente avança e encosta na ponta da península de Magallanes, fechando a passagem do canal.

2. Os rios e as geleiras menores continuam despejando água no braço Rico, e o nível sobe mês após mês.

3. A água infiltra pelas frestas do contato entre o gelo e a rocha, alarga um túnel e forma um arco de gelo sobre a passagem.

4. O arco fica cada vez mais fino até desabar na água, e o braço Rico esvazia no resto do lago.

O primeiro fechamento registrado aconteceu em 1917. Desde então o ciclo voltou várias vezes, com intervalos irregulares. Houve rompimento em 1988 e depois um longo hiato até março de 2004, quando milhares de pessoas foram à península para ver o arco cair.

Ninguém consegue prever a data exata de um rompimento. A velocidade com que a água abre o túnel depende da temperatura do lago, do volume que chega dos rios e de fissuras escondidas no gelo, e nenhum desses fatores se mede inteiro de fora.

Nos últimos anos, a frente começou a recuar em alguns pontos, e o contato com a península ficou mais raro. Se a tendência continuar, o dique pode deixar de se formar, mas ainda não há como saber quando.

O nível do braço Rico e a posição da frente são acompanhados pela Administración de Parques Nacionales da Argentina. Reconfira a situação do contato com a península no site parquesnacionales.gob.ar em março de 2027, no fim do verão austral, quando o gelo costuma estar mais avançado.

 
 
Quiz da edição

Quando a geleira Perito Moreno fecha a passagem para o braço Rico, até quanto a água represada chega a subir acima do nível do resto do lago Argentino?

ACerca de dois metros
BMais de dez metros
CCerca de trinta centímetros
DMais de cem metros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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