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Na Louisiana, uma barragem segura o Mississippi no próprio leito

Desde 1963, a Estrutura de Old River deixa só 30% da água descer pelo Atchafalaya, o caminho curto até o golfo.

Comportas da Estrutura de Old River entre o Mississippi e o Atchafalaya, na Louisiana.

Estrutura de Old River, Louisiana, EUA

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O concreto treme de leve sob as botas. Embaixo da passarela, a água marrom passa pelas comportas com um ronco grave e constante, e o ar úmido tem cheiro de lama quente e de capim cortado.

A margem é plana até onde a vista alcança. Nenhum morro, nenhuma pedra, só aterro de grama, mato baixo e uma linha de árvores ao longe. O céu de outubro pesa, cinza e abafado, a poucos metros da água.

Na estrada de cascalho, uma caminhonete branca do governo americano para ao lado da casa de controle. Um técnico desce, confere um painel de leitura e volta a dirigir sem pressa. Atrás dele, um bando de garças levanta voo do canal e pousa de novo na lama da margem, a poucos metros das comportas abertas.

O lugar fica na paróquia de Concordia, no leste da Louisiana, perto da cidade de Simmesport. Por ali, o rio Mississippi corre a poucos quilômetros de um outro rio, mais estreito, chamado Atchafalaya.

As comportas sob a passarela fazem parte da Estrutura de Old River, um conjunto de barragens montado pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e inaugurado em 1963.

O trabalho dela cabe numa frase: deixar passar para o Atchafalaya só 30% da água que desce do norte, e mandar o resto pelo leito de sempre, rumo a Baton Rouge e Nova Orleans.

Sem as comportas, o rio grande escorregaria inteiro para o leito menor. Pelo Atchafalaya, a água chegaria ao golfo do México em menos da metade da distância, e a correnteza sempre prefere o caminho mais curto e mais inclinado.

O técnico da caminhonete faz parte de uma equipe que vigia o ponto dia e noite. Para entender por que uma represa no meio do mato segura o maior rio da América do Norte, primeiro é preciso pôr os dois rios no mapa.

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I  O mapa do dia

Dois rios a um passo

Da curva de Old River até o golfo do México.

O Mississippi nasce no lago Itasca, em Minnesota, e desce o centro dos Estados Unidos até o golfo do México. No caminho, recebe o Missouri, o Ohio e centenas de rios menores.

Quando chega ao sul, já no estado da Louisiana, o rio serpenteia por uma planície baixa e mole, feita de lama que ele mesmo trouxe ao longo de milhares de anos.

A estrutura fica no ponto onde três cursos de água quase se tocam. O Mississippi passa a leste. O rio Vermelho (Red River, em inglês) chega do noroeste, vindo do Texas e de Oklahoma. O Atchafalaya sai para o sul.

O nome Atchafalaya vem da língua dos choctaw, povo nativo da região, e costuma ser traduzido como "rio comprido". Ele corre para o sul, quase em linha reta, até a cidade de Morgan City e a baía de Atchafalaya, na beira do golfo.

O trecho que liga os três se chama Old River (rio Velho). É um pedaço curto de canal, sobra de uma curva antiga do Mississippi, que hoje faz a ponte entre o rio grande e o Atchafalaya.

DOIS CAMINHOS ATÉ O MAR

Do ponto de Old River até o golfo, o Atchafalaya percorre uns 230 quilômetros, e o Mississippi, quase 500.

O Mississippi faz a volta longa. Passa por Baton Rouge, a capital do estado, desce por Nova Orleans e só entra no golfo no fim de um braço de terra comprido, o delta em forma de pé de pássaro.

Como os dois rios partem do mesmo nível e terminam no mesmo mar, o caminho curto tem mais inclinação por quilômetro. A água desce mais rápido por ali, cava o fundo com mais força e ganha volume a cada cheia.

Nas margens do Mississippi, nesse trecho, ficam refinarias, usinas químicas, silos de grãos e alguns dos portos mais movimentados do país. Todo esse cinturão industrial depende de água doce e de um canal fundo diante do cais.

No mapa, a Estrutura de Old River aparece como um ponto pequeno no meio de um cotovelo de rio. É ali que o desenho dos dois cursos se encosta, e é ali que o Corpo de Engenheiros decidiu fincar o pé.

 
 

II  O que tem ali

Comportas, usina e pântano

O conjunto tem quatro peças principais, todas na margem oeste do Mississippi, a poucos quilômetros umas das outras.

A primeira é a Estrutura de Soleira Baixa (Low Sill Structure), terminada em 1959 e posta em uso em 1963. É uma barragem de concreto com comportas de aço, que regula a passagem da água o ano inteiro.

A segunda é a Estrutura de Transbordo (Overbank Structure). Ela fica seca a maior parte do tempo e só abre nas grandes cheias, quando a água sobe acima das margens e precisa de saída extra.

A terceira é a Estrutura Auxiliar, inaugurada em 1986. O Corpo de Engenheiros a construiu para aliviar a Soleira Baixa, que quase cedeu numa enchente, como conta a seção seguinte.

A USINA NO CANAL

A quarta peça gera eletricidade com a mesma água que a barragem precisa deixar passar.

É a usina hidrelétrica Sidney A. Murray Jr., aberta em 1990 e batizada com o nome de um prefeito da cidade vizinha de Vidalia. Ela usa a diferença de nível entre os dois rios para girar turbinas e vende energia para a rede da região.

A operação segue o mesmo limite das comportas. A soma do que passa pela usina e pelas três estruturas tem que bater, ao fim de cada dia, com a cota de 30% para o Atchafalaya.

Ao sul das comportas começa a Bacia do Atchafalaya, o maior pântano de rio dos Estados Unidos. São florestas de cipreste-calvo (uma árvore de pântano que cresce dentro da água), lagos rasos, canais e ilhas de lama.

Na bacia vivem jacarés-americanos, garças, colhereiros e lagostins, o pequeno crustáceo de água doce que os pescadores da região tiram aos milhares na primavera. A cultura cajun, de descendentes de franceses, cresceu em volta dessa pesca.

Os 30% de água que descem pelo Atchafalaya carregam lama. Na foz, essa lama assenta e forma terra nova, e o delta do Atchafalaya é um dos poucos trechos da costa da Louisiana que crescem, numa costa que perde terra para o mar.

A passagem do rio pela bacia é contida por diques compridos dos dois lados, que mantêm a água num corredor largo e protegem cidades como Morgan City das cheias.

Mais ao sul, perto de Baton Rouge, fica o vertedouro de Morganza, outra comporta que manda água extra do Mississippi para a bacia nas enchentes mais fortes. Ele só abriu poucas vezes, a mais recente em 2011.

 

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III  Por que a linha passa ali

O leito que o rio quer trocar

O Mississippi troca de caminho até o mar de tempos em tempos, quase sempre na escala de séculos. O delta da Louisiana é um mosaico de bocas antigas, cada uma abandonada quando o rio achou uma rota mais curta.

O motivo é a lama. Na foz, o rio deposita sedimento, o leito vai ficando comprido e plano, e a água perde força. Quando uma cheia rompe a margem e acha uma descida mais íngreme, o rio inteiro vai atrás.

O Atchafalaya é essa descida. Por séculos, porém, ele ficou fechado por uma barreira de troncos chamada jangada (raft, em inglês), um entulho de árvores caídas que entupia o leito por dezenas de quilômetros.

Em 1831, o capitão Henry Miller Shreve cortou uma curva do Mississippi, a Turnbull, para encurtar a viagem dos barcos a vapor. O pedaço abandonado da curva virou o Old River, o canal que liga os dois rios.

Pouco depois, o estado da Louisiana começou a tirar a jangada do Atchafalaya para abrir navegação. Sem os troncos, o rio menor passou a puxar cada vez mais água do Mississippi.

O AVISO DE 1952

Em 1952, o geólogo Harold Fisk entregou ao Corpo de Engenheiros um estudo que previa a captura do Mississippi pelo Atchafalaya por volta de 1975.

Fisk mostrou que a fatia de água desviada crescia a cada década. Se nada fosse feito, o rio grande trocaria de leito, e Baton Rouge e Nova Orleans ficariam diante de um braço de água salgada e parada.

O Congresso americano reagiu com a Lei de Controle de Enchentes de 1954, que autorizou a obra e fixou a divisão: 70% para o Mississippi, 30% para o Atchafalaya, contando a água do rio Vermelho junto.

O controle segue quatro passos, repetidos o ano inteiro:

1. Os técnicos medem a vazão que chega do norte pelo Mississippi e pelo rio Vermelho.

2. Calculam quanto dá 30% dessa soma naquele dia.

3. Abrem ou fecham as comportas da Soleira Baixa, da Auxiliar e da usina até a passagem bater com a cota.

4. Nas cheias grandes, abrem também a Estrutura de Transbordo, sempre de olho no mesmo limite.

O teste mais duro veio na enchente de 1973. A correnteza cavou um buraco sob a Soleira Baixa, arrancou uma das paredes laterais e deixou a barragem apoiada em menos chão. A estrutura aguentou, e a Auxiliar nasceu desse susto.

O escritor John McPhee contou a história no ensaio "Atchafalaya", publicado no livro "The Control of Nature" (O Controle da Natureza), de 1989. Ele ouviu os engenheiros da obra e descreveu o lugar como o ponto onde a força do rio encontra a vontade do país.

Ninguém sabe se as comportas aguentam para sempre. O Atchafalaya continua mais íngreme, e a pressão sobre a obra não diminui. O Corpo de Engenheiros mantém o conjunto e o inspeciona a cada cheia.

A vazão diária e a divisão entre os dois rios ficam publicadas pelo Distrito de Nova Orleans do Corpo de Engenheiros. Reconfira a fatia do Atchafalaya na página do distrito, mvn.usace.army.mil, em abril de 2027, no auge da cheia de primavera.

 
 
Quiz da edição

Que fração da água que desce do Mississippi a Estrutura de Old River deixa passar para o rio Atchafalaya?

A10%
B30%
C50%
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