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Mianmar ergueu uma capital nova no mato em 2005

Naypyidaw ocupa mais terra do que o Distrito Federal, tem avenida de 20 pistas e bairros a quilômetros uns dos outros.

Avenida larga e vazia em Naypyidaw, capital de Mianmar.

A avenida de 20 pistas de Naypyidaw, quase sem carros

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O asfalto ferve às duas da tarde e cheira a piche novo. Não passa carro. Um motoqueiro surge no horizonte, cresce devagar e some de novo, e o zumbido do motor demora a sumir junto.

A pista tem vinte faixas, contadas de um meio-fio a outro. No canteiro central, jardineiros de chapéu de palha aparam arbustos em forma de bola, e um aspersor gira sobre a grama sem ninguém para pisar nela.

Ao longe, um prédio de ministério aparece atrás de um portão dourado, recuado da rua por um gramado do tamanho de um campo de futebol. O prédio seguinte fica a quilômetros dali.

Este é o centro de Naypyidaw, capital de Mianmar, o país do Sudeste Asiático espremido entre a Índia, a China e a Tailândia, que até 1989 se chamava oficialmente Birmânia.

Quem chega pela estrada vinda do sul atravessa horas de arrozal, aldeia de palafita e mata baixa. De repente o acostamento ganha meio-fio pintado, poste de luz a intervalos curtos e rotatória com chafariz. Placas em birmanês e inglês anunciam a capital sem nenhuma casa à vista.

Até 2005 quase nada daquela paisagem existia. O lugar era terra de lavoura e floresta perto de Pyinmana, cidade pequena de madeireiros a uns 320 km ao norte de Yangon, a capital antiga.

Hoje o território administrativo da capital passa de 7 mil km², mais do que o Distrito Federal brasileiro inteiro, com seus 5.760 km². A cidade foi desenhada para carro e caminhão, com zonas separadas por função: governo, quartéis, hotéis, comércio e moradia.

O resultado impressiona pela escala e estranha pelo silêncio. Um visitante pode dirigir vários minutos pela avenida principal sem cruzar outro veículo, e o barulho mais alto da tarde costuma ser o dos aspersores.

O mapa abaixo mostra como esse tabuleiro foi riscado, quem mandou riscar e quem mora em cada casa dele.

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I  O mapa do dia

Uma capital riscada em zonas

Uma capital inteira, plantada longe de tudo.

Naypyidaw saiu do papel a mando do general Than Shwe, chefe da junta militar que governava Mianmar desde 1992. Ele nunca deu entrevista sobre a obra, e a cidade foi erguida em sigilo, longe de jornalistas.

A mudança começou na madrugada de 6 de novembro de 2005. Comboios de caminhões militares deixaram Yangon carregados de arquivos, mesas e servidores de ministérios, avisados da transferência com poucos dias de antecedência.

O nome veio meses depois, em 27 de março de 2006, Dia das Forças Armadas. Naypyidaw quer dizer, em birmanês, “morada dos reis”, título que os monarcas antigos davam às cidades onde instalavam a corte.

AS ZONAS DO TABULEIRO

O plano separa a capital em zonas fechadas por função, ligadas por avenidas largas e quase vazias. Ninguém mora perto do lugar onde trabalha.

Nos mapas da cidade, as peças principais ficam assim:

• Zona dos ministérios: um prédio isolado por pasta.

• Parlamento: complexo de 31 edifícios cercado por fosso.

• Zona militar: fechada a civis.

• Zona hoteleira: hotéis enfileirados à beira da estrada.

• Bairros de servidores: blocos de apartamentos.

Os bairros de moradia seguem a hierarquia do serviço público. Funcionário de escalão baixo vive em bloco de quatro andares; ministro, em casa isolada com jardim. Jornalistas estrangeiros que visitaram a cidade relataram telhados pintados conforme o ministério dos moradores.

A avenida mais famosa, a Yaza Thingaha, corre diante do Parlamento com vinte faixas no trecho mais largo. Fora do horário de entrada e saída do expediente, ela fica deserta.

A largura alimentou uma suspeita entre diplomatas: a avenida serviria de pista de pouso para aviões militares numa emergência. O governo nunca confirmou nem negou, e a razão do tamanho continua sem explicação oficial.

No eixo do plano fica o pagode Uppatasanti (nome em páli, a língua dos textos budistas, que significa “proteção contra calamidades”), terminado em 2009. É uma réplica do Shwedagon, o santuário dourado de Yangon, mantida alguns centímetros mais baixa, em respeito ao templo mais sagrado do país.

Entre uma zona e outra há quilômetros de gramado, mata replantada e asfalto. Não existe calçada contínua ligando os bairros, e quem não tem carro ou moto depende dos ônibus de servidores, que rodam em horário fixo.

A energia elétrica também segue o mapa. Nos anos em que Yangon e Mandalay passavam horas por dia no escuro, a capital nova tinha luz nos postes da avenida a noite inteira.

 
 

II  O que tem ali

Pinguins, gramados e hotéis vazios

Naypyidaw tem o equipamento de uma metrópole e a população de uma cidade média. O censo de 2014 do governo de Mianmar contou 1.160.242 moradores no território inteiro da capital, boa parte em aldeias rurais que já estavam ali antes da obra.

A parte urbana reúne servidores públicos e suas famílias. Eles chegaram por ordem de transferência, e muitos deixaram mulher e filhos em Yangon nos primeiros anos, porque a cidade nova ainda não tinha escola, mercado nem hospital prontos.

PINGUINS NO CALOR

O Jardim Zoológico de Naypyidaw, aberto em 2008, mantém pinguins numa ala refrigerada, numa região onde o calor de abril passa dos 40 °C.

O zoológico divide terreno com um safári, um jardim botânico e um parque de fontes com chafarizes iluminados à noite. Todos ficam a quilômetros dos bairros de moradia, e ir a pé até lá é inviável no sol do meio-dia.

Nos fins de semana, famílias de servidores chegam de ônibus ou de moto para ver os pinguins e os elefantes brancos, animais sagrados na tradição birmanesa, que vivem num pavilhão próprio perto do pagode.

Os hotéis formam uma zona própria. Muitos foram construídos para receber delegações oficiais e grandes eventos, como os Jogos do Sudeste Asiático de 2013, e passam boa parte do ano com poucos hóspedes.

Destino parecido tiveram o estádio Wunna Theikdi, erguido para os Jogos, e o centro de convenções onde Mianmar recebeu as cúpulas da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) em 2014, quando presidiu o bloco.

A capital tem shoppings, um aeroporto internacional inaugurado em 2011 e uma estação de trem de porte grande, na linha entre Yangon e Mandalay. O movimento de passageiros fica muito abaixo do tamanho dos saguões.

O complexo do Parlamento virou palco da história recente em primeiro de fevereiro de 2021. Naquela manhã, data marcada para a posse dos deputados eleitos em 2020, o Exército prendeu a líder civil Aung San Suu Kyi e o presidente Win Myint na capital e tomou o poder.

O desenho da cidade ajudou os generais. Com ministérios isolados, quartéis a poucos quilômetros e nenhuma praça central onde uma multidão pudesse se juntar, os maiores protestos contra o golpe encheram as ruas de Yangon e Mandalay, longe dos gabinetes.

Naypyidaw também teve manifestação. Numa delas, em fevereiro de 2021, a jovem Mya Thwe Thwe Khine, de 19 anos, levou um tiro na cabeça disparado pela polícia e virou o primeiro nome conhecido entre as vítimas da repressão.

 

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III  Por que a linha passa ali

O vale entre duas serras

O governo de Than Shwe deu um motivo oficial para a mudança: Naypyidaw fica perto do centro do país e facilita administrar as regiões distantes, inclusive os estados das minorias étnicas nas montanhas da fronteira.

O relevo sustenta a parte da posição. A capital ocupa o vale do rio Sittaung, faixa plana entre a serra de Bago Yoma (yoma: cordilheira, em birmanês), a oeste, e o planalto Shan, a leste.

Esse vale é o corredor natural entre o delta úmido do sul e a planície seca de Mandalay. Por ele correm a ferrovia Yangon-Mandalay, concluída pelos britânicos em 1889, e a rodovia expressa entre as duas cidades, inaugurada em 2010. Naypyidaw fica perto da metade do caminho.

OS MOTIVOS SEM DONO

O governo nunca publicou documento explicando a escolha do lugar nem da data. O que circula são hipóteses de diplomatas, jornalistas e historiadores, e nenhuma foi confirmada pela junta.

A hipótese mais repetida é militar. Yangon fica na costa, na borda do delta do Irrawaddy, num período de pressão dos Estados Unidos e do Reino Unido sobre o regime. Uma capital no interior, protegida por serras dos dois flancos, fica mais difícil de alcançar a partir do mar.

A segunda é política. Em 1988, protestos liderados por estudantes tomaram Yangon e acabaram esmagados pelo Exército, com milhares de vítimas. Uma capital sem praça central, com servidores morando em blocos separados, dificulta uma multidão cercar o governo.

A terceira é astrológica. Than Shwe tinha fama de consultar astrólogos, e a imprensa local e estrangeira atribuiu a hora exata da partida dos comboios a um cálculo de mapa astral. A junta nunca comentou.

Pesa ainda a tradição. Reis birmaneses trocavam de capital para marcar um reinado novo: o rei Mindon fundou Mandalay em 1857, e Ava e Amarapura tiveram sua vez antes dela. Na praça de desfiles de Naypyidaw, três estátuas gigantes de reis guerreiros, Anawrahta, Bayinnaung e Alaungpaya, põem o general nessa linhagem.

O efeito, esse sim, é conhecido. Yangon segue como a maior cidade, o porto e o centro de negócios do país, e a maior parte das embaixadas estrangeiras continuou lá por anos depois da mudança.

A área de 7.054 km² e os 1.160.242 moradores vêm do censo de 2014. A junta fez um recenseamento novo em outubro de 2024: reconfira os números de Naypyidaw no relatório do Departamento de População de Mianmar, em dop.gov.mm, no próximo 6 de novembro, aniversário da mudança.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, qual é o tamanho do território administrativo de Naypyidaw comparado ao Distrito Federal?

APassa de 7 mil km², mais do que o Distrito Federal
BFica em 3 mil km², menos da metade do Distrito Federal
CTem exatos 5.760 km², o mesmo tamanho do Distrito Federal
DPassa de 15 mil km², maior que o estado do Rio de Janeiro

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