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Mar Morto, o lago que baixa 1 metro por ano

A 430 metros abaixo do nível do mar, a água recua e a margem entre Israel e Jordânia desaba em milhares de buracos.

Mapa do Mar Morto entre Israel e Jordânia, com as dolinas da margem.

O Mar Morto, 430 metros abaixo do mar

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O ar desce pesado e morno pela garganta, com cheiro de enxofre. Na margem oeste do Mar Morto, a areia branca range sob a bota como açúcar grosso, e a crosta de sal brilha tanto ao sol que obriga a apertar os olhos.

O termômetro passa dos 40 graus antes do meio-dia. A água está parada, oleosa ao toque, e arde em qualquer arranhão da pele. Quem entra flutua sentado, sem esforço, como numa poltrona.

Alguns passos para trás, uma fita amarela cerca um buraco redondo no chão. Ele tem uns dez metros de largura e paredes retas de lama seca. Lá no fundo, a uns cinco metros, uma poça verde reflete o céu.

Mais adiante há outro buraco, e depois outro. Uma placa em hebraico, árabe e inglês avisa: perigo, área de colapso, não ultrapasse.

Na estrada que acompanha a costa, um trecho de asfalto mais novo, de cor diferente, marca o lugar onde o chão afundou e a pista teve de ser refeita. Uma lanchonete de praia está fechada, com as cadeiras empilhadas e a areia entrando pela porta.

Uma escada de concreto desce de um antigo balneário até o nada. Os degraus terminam numa encosta de lama seca, e a água ficou lá embaixo, a uma caminhada de vários minutos.

Quem visitou o lugar nos anos 1970 lembra da água batendo no último degrau. Desde então, o nível caiu dezenas de metros, e a linha da praia foi andando para longe, ano após ano.

Ali fica o ponto mais baixo em terra firme do planeta, a cerca de 430 metros abaixo do nível do mar. Os buracos se espalham pelos dois lados do lago, em Israel e na Jordânia, e já passam de 6 mil.

O mapa logo abaixo mostra onde fica essa fossa entre dois países e por que ela é tão funda.

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I  O mapa do dia

Uma fenda entre duas placas

430 metros abaixo do mar, e descendo mais de 1 metro por ano.

O Mar Morto é um lago de água salgada no fundo do vale do Jordão, entre Israel e a Cisjordânia a oeste e a Jordânia a leste. Tem uns 50 km de comprimento de norte a sul e até 15 km de largura.

A superfície fica a cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, e o fundo do lago desce mais uns 300 metros. Nenhum outro lugar seco da Terra fica tão baixo.

O vale existe porque a crosta está se rasgando ali. A placa Arábica desliza para o norte em relação à placa Africana, poucos milímetros por ano, ao longo da falha do Mar Morto, que vai do golfo de Aqaba até a Turquia.

UMA BACIA QUE SE ABRE

Num trecho da falha, os dois lados se afastam um pouco enquanto escorregam. O chão entre eles afunda, como uma caixa que perde o fundo, e forma uma bacia de afastamento, longa e estreita, cercada de paredões.

As escarpas sobem dos dois lados. A oeste ficam os montes da Judeia, a leste o planalto de Moabe, que passa dos mil metros de altitude. Do alto, a diferença até a água chega a 1.400 metros.

Por milhões de anos, o mar entrou e saiu dessa fossa. Quando a ligação com o oceano se fechou, a água que restava evaporou e deixou camadas grossas de sal no fundo. O monte Sodoma, na margem sudoeste, é um bloco de sal-gema empurrado para cima, com uns 11 km de comprimento.

O lago só tem entrada e nenhuma saída. O rio Jordão chega pelo norte, e uns poucos riachos descem dos paredões. A água vai embora pelo ar, evaporada pelo sol forte e pelo vento seco do deserto.

Toda evaporação deixa o sal para trás. Por essa razão, a água do Mar Morto tem perto de 34% de sais, quase dez vezes a salinidade do oceano. Peixe nenhum vive nela, só micróbios adaptados.

Na margem leste, a península de Lisan avança como uma língua de terra. Ela separava a bacia norte, funda, da bacia sul, rasa, com poucos metros de água.

A densidade da água salgada também explica a flutuação. Um litro do lago pesa perto de 1,24 kg, contra 1 kg da água doce, e empurra o corpo para cima com mais força. Os banhistas boiam com metade do tronco fora d'água.

 
 

II  O que tem ali

A praia que anda e o chão que cede

Durante séculos, o nível do lago oscilou com as chuvas, alguns metros para cima ou para baixo. Na década de 1930, a superfície ficava perto de 390 metros abaixo do nível do mar.

A partir dos anos 1960, a conta mudou. Israel inaugurou o Aqueduto Nacional em 1964, que tira água do mar da Galileia para o resto do país. A Jordânia abriu o Canal do Rei Abdullah, que desvia o rio Yarmouk para irrigar o vale. A Síria represou afluentes mais acima.

O Jordão, que levava mais de um bilhão de metros cúbicos por ano ao lago, passou a chegar com uma fração desse volume, boa parte esgoto e água de drenagem agrícola.

Nas duas margens do sul, as fábricas de potassa (sal de potássio usado como adubo) bombeiam água do lago para tanques rasos, onde o sol a evapora. A Dead Sea Works, de Israel, e a Arab Potash Company, da Jordânia, tiram dali milhões de toneladas por ano.

Com menos água entrando e mais saindo, o nível passou a cair mais de 1 metro por ano. A bacia sul secou por inteiro e hoje só existe como tanques de evaporação das fábricas.

O SAL ENTERRADO

Debaixo da margem antiga há uma camada de sal deixada pelo próprio lago, há uns 10 mil anos, quando a água era mais alta. Enquanto o lago estava cheio, a água salgada encharcava essa camada e o sal ficava intacto.

Quando o lago recua, a água doce que desce dos paredões pelo subsolo avança atrás dele. Ela encontra a camada de sal e a dissolve, como a água quente desmancha um torrão de açúcar.

Forma-se uma cavidade escondida, a dezenas de metros de profundidade. O teto de lama e areia aguenta por um tempo e depois desaba de uma vez. O resultado é a dolina (buraco circular aberto pelo colapso do chão), que pode surgir da noite para o dia.

As primeiras apareceram nos anos 1980. Hoje passam de 6 mil, numa faixa estreita que acompanha a linha onde a margem estava algumas décadas atrás.

Elas engoliram trechos de estrada, plantações de tâmaras, estacionamentos e parte do balneário de Ein Gedi, que fechou a praia em 2015.

O recuo também mexe nos rios. Os riachos que descem dos paredões precisam vencer um desnível cada vez maior até a nova margem, cavam o leito mais fundo e derrubam pontes e trechos de estrada construídos para o nível antigo.

 

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III  Por que a linha passa ali

A linha d'água que dois países dividem

A fronteira entre Israel e Jordânia corta o Mar Morto de norte a sul, pelo meio da água. Ela segue a linha do armistício de 1949 e foi confirmada no tratado de paz assinado pelos dois países em 1994.

Os dois lados tiram água do mesmo rio e potassa do mesmo lago. Nenhum dos dois controla o nível sozinho, e o recuo da praia aparece nas duas margens ao mesmo tempo.

Na margem oeste, a situação é mais complicada. Ali fica a Cisjordânia, cujo trecho de costa no norte do lago é administrado por Israel desde 1967 e reivindicado pelos palestinos.

UM CANO DE 200 QUILÔMETROS

Em 2013, Israel, Jordânia e a Autoridade Palestina assinaram em Washington um acordo para estudar um canal entre o mar Vermelho e o Mar Morto. A ideia era usar o desnível de 400 metros para gerar energia e dessalinizar água.

O plano previa bombear água do golfo de Aqaba, dessalinizar parte dela para as cidades e mandar a salmoura que sobrasse para o lago, numa tubulação de uns 200 km pelo deserto.

Biólogos alertaram que a mistura de água do mar com a do lago poderia formar crostas de gesso e manchas de algas na superfície. O projeto passou anos parado entre estudos e licitações e foi abandonado pela Jordânia em 2021.

Enquanto o cano não sai, os dois países tratam o recuo como obra de estrada. Israel desviou trechos da rodovia 90 para longe das dolinas, e a Jordânia mapeia com radar de satélite as áreas que afundam alguns centímetros antes de ceder.

No kibutz Ein Gedi, os agricultores perderam parte do palmeiral de tâmaras para os buracos. Hotéis da margem sul passaram a levar os hóspedes de trator até a água, que fica cada ano mais longe dos prédios.

Os pesquisadores do Serviço Geológico de Israel usam o mesmo método. O chão costuma baixar devagar por meses antes do colapso, e o satélite consegue ver essa descida.

O nível continua caindo. Para parar o recuo, seria preciso devolver ao lago perto de 800 milhões de metros cúbicos de água por ano, o volume que deixou de chegar desde os desvios.

O número do nível sai a cada mês do Serviço Hidrológico de Israel, medido numa estação de medição em Ein Gedi. Reconfira a marca em outubro de 2027, quando a série completar mais um ano, e compare com os cerca de 430 metros abaixo do nível do mar desta edição.

 
 
Quiz da edição

Depois de anos entre estudos e licitações, em que ano a Jordânia abandonou o projeto do canal entre o mar Vermelho e o Mar Morto?

A2013
B1994
C2021
D1964

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