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Kourou, onde a Terra lança o foguete

Desde 1964, a França lança foguetes da Guiana Francesa, a 5 graus do equador, com o Atlântico aberto a leste.

Torre de lançamento do Centro Espacial Guianense em Kourou, na Guiana Francesa.

Kourou, Guiana Francesa

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O ar da costa pesa de tão úmido. A camisa gruda nas costas antes das oito da manhã, e o cheiro de lama do mangue chega com a maré baixa, misturado ao de capim molhado.

Na praia, a areia é marrom, quase cor de café com leite. O rio Amazonas despeja tanto sedimento no Atlântico que a corrente costeira carrega essa lama até aqui, centenas de quilômetros a noroeste da foz.

Ao longe, por cima da linha verde da floresta, aparece uma torre branca e cinza. Ela tem quase 90 metros de altura e fica no meio de um clarão aberto na mata, cercado de cercas e estradas retas.

Um alto-falante conta em francês. No último número, a torre some atrás de uma nuvem de vapor laranja, e só alguns segundos depois o som chega à praia, um rugido grave que faz tremer o peito e espanta as garças do mangue.

O foguete sobe reto, depois deita devagar rumo ao leste, sobre o mar. Em dois minutos vira um ponto de luz, e a fumaça fica pendurada no céu azul, torta pelo vento.

O lugar se chama Kourou, uma cidade pequena na Guiana Francesa, na costa norte da América do Sul. A torre pertence ao Centre Spatial Guyanais (Centro Espacial Guianense), a base de onde a Europa manda seus foguetes ao espaço.

Na rua principal de Kourou, os cafés exibem pôsteres de lançamentos antigos. Moradores param o carro no acostamento para olhar a subida, como quem olha a chuva chegar.

A Guiana Francesa não é um país. Desde 1946, é um departamento da França, com euro, placas de trânsito francesas e voto nas eleições de Paris. Um foguete que decola dali sai de território europeu.

Em 1964, quando o governo do general Charles de Gaulle precisou de uma base nova, havia candidatos em vários continentes. Venceu esta faixa de mangue a uns 5 graus ao norte do equador.

O motivo está no globo, numa linha que ninguém vê e que passa logo ao sul daqui. Para entender a escolha, o primeiro passo é achar Kourou no mapa da América do Sul.

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I  O mapa do dia

Uma faixa de mangue a 5 graus do equador

Da costa da Guiana até a linha do equador.

A Guiana Francesa ocupa um pedaço da costa norte da América do Sul, entre o Suriname, a oeste, e o Amapá, no Brasil, a leste e ao sul.

O território tem uns 84 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho de Portugal. Mais de 90% dele é floresta amazônica, sem estrada, cortada só por rios que descem do planalto das Guianas até o mar.

A população se concentra numa tira estreita de litoral. Caiena, a capital, fica perto da fronteira leste. Kourou está uns 60 quilômetros a noroeste dela, na foz do rio Kourou, que deu nome à cidade.

As coordenadas da base são 5 graus e 10 minutos de latitude norte. A linha do equador passa uns 570 quilômetros ao sul, atravessando o Amapá perto de Macapá.

Poucas bases de lançamento do planeta ficam tão perto dessa linha. A dos Estados Unidos, em Cabo Canaveral, na Flórida, está a 28 graus norte. A de Baikonur, no Cazaquistão, a 46 graus.

O MAR NA FRENTE

Na frente da base, a leste e ao norte, só existe o oceano Atlântico até a costa da África.

A posição importa porque foguete perde pedaços na subida. Os estágios vazios (as partes do foguete que se soltam quando o combustível delas acaba) caem de volta, e precisam cair na água, longe de casas.

Em Kourou, a costa corre de sudeste para noroeste. Um foguete que sobe rumo ao leste passa sobre o mar quase logo depois da decolagem, e os estágios mergulham no Atlântico.

O mesmo vale para a rota norte, usada pelos satélites de órbita polar (a que passa por cima dos dois polos). Nessa direção, o foguete atravessa o mar do Caribe sem sobrevoar ilhas grandes.

A uns 14 quilômetros da costa ficam as Îles du Salut (ilhas da Salvação), três ilhotas de rocha. Numa delas, a ilha do Diabo, funcionou até 1953 a colônia penal mais temida da França.

Hoje as ilhas ficam embaixo da rota dos foguetes rumo ao leste. No dia de lançamento, a base manda retirar turistas e funcionários de lá, e os barcos de passeio ficam no porto.

O clima ajuda também. A Guiana fica ao sul do cinturão dos furacões do Atlântico, que se formam mais ao norte, e a região não tem registro de terremotos fortes.

 
 

II  O que tem ali

Uma vila de pescadores virou base europeia

A França tinha uma base de foguetes antes de Kourou. Ficava em Hammaguir, no deserto do Saara, na Argélia, e lançou em 1965 o primeiro satélite francês, o Astérix.

Em 1962, a Argélia conquistou a independência depois de oito anos de guerra. Os acordos de Évian, assinados naquele ano, davam à França só até 1967 para deixar as bases no Saara.

O CNES (Centre National d'Études Spatiales, a agência espacial francesa), criado em 1961, precisava de outro lugar. Os técnicos compararam terrenos na África, nas Antilhas, no Pacífico e na América do Sul.

A ESCOLHA DE 1964

Em abril de 1964, o governo francês assinou a escolha de Kourou, por causa da latitude, do mar aberto e do território que já era francês.

Na época, Kourou era uma vila de algumas centenas de moradores, pescadores e pequenos agricultores, com casas de madeira junto ao rio. Famílias que moravam no terreno da base foram removidas e reassentadas.

A obra trouxe engenheiros da França metropolitana e operários do Brasil, do Suriname e das Antilhas. Em poucos anos, a vila ganhou bairros planejados, escolas, hotel e um hospital.

O primeiro lançamento saiu em 9 de abril de 1968. Foi um Véronique, foguete de sondagem (o que sobe, mede e cai, sem entrar em órbita). Em 1970, o foguete Diamant B colocou ali o primeiro satélite em órbita.

Em 1975 nasceu a ESA (Agência Espacial Europeia), e a base deixou de ser só francesa. Os países europeus passaram a pagar a maior parte da operação e a lançar dali os seus foguetes.

O primeiro Ariane decolou em 24 de dezembro de 1979. A família Ariane cresceu em cinco versões e transformou Kourou na principal porta de satélites comerciais do mundo nos anos 1980 e 1990.

O Ariane 5 levou dali, em 25 de dezembro de 2021, o telescópio espacial James Webb, da NASA, da ESA e da agência espacial do Canadá. O último Ariane 5 voou em julho de 2023.

Entre 2011 e 2022, a base teve também uma plataforma para o foguete russo Soyuz, na vizinha Sinnamary. A parceria acabou depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

O Ariane 6, sucessor do Ariane 5, fez o primeiro voo em 9 de julho de 2024. Ao lado dele, o Vega, um foguete menor de fabricação italiana, leva satélites leves.

A base ocupa hoje uma faixa de uns 650 quilômetros quadrados de costa, entre Kourou e Sinnamary. Kourou passou a viver dela: hotéis, restaurantes e parte grande dos empregos dependem dos lançamentos.

 

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III  Por que a linha passa ali

A velocidade de graça no equador

A Terra gira de oeste para leste e dá uma volta completa em pouco menos de 24 horas. Quem está parado no chão gira junto, sem perceber.

A velocidade desse giro muda com a latitude. Um ponto no equador percorre os 40 mil quilômetros da volta inteira e anda a uns 465 metros por segundo. Perto do polo, o círculo encolhe e a velocidade cai quase a zero.

Em Kourou, a 5 graus, o chão anda a uns 463 metros por segundo rumo ao leste. Em Cabo Canaveral, a uns 409. Em Baikonur, a uns 323.

O ganho segue quatro passos:

1. Antes de ligar os motores, o foguete parado na torre já viaja a 463 metros por segundo para o leste, junto com o chão.

2. Lançado rumo ao leste, ele soma essa velocidade à dos motores, sem gastar combustível por ela.

3. Para ficar em órbita baixa, um satélite precisa chegar a uns 7.800 metros por segundo; o giro da Terra entrega uma parte dessa conta logo na largada.

4. Cada quilo de combustível poupado na subida pode virar carga útil (o peso do satélite que o foguete carrega).

A ÓRBITA DOS SATÉLITES DE TV

O maior ganho aparece nos satélites geoestacionários, que ficam parados sobre o mesmo ponto do equador.

Esses satélites de TV e de clima giram a uns 36 mil quilômetros de altura, numa órbita colada ao plano do equador. Ali, a volta deles dura o mesmo tempo da volta da Terra, e a antena no chão aponta sempre para o mesmo lugar do céu.

Um foguete lançado de qualquer latitude deixa o satélite numa órbita inclinada (com um ângulo em relação ao equador) igual, no mínimo, à latitude da base. De Cabo Canaveral, o ângulo inicial é de 28 graus. De Kourou, de 5.

O satélite precisa zerar esse ângulo com o próprio motor para chegar à órbita do equador. Quanto maior o ângulo, mais combustível ele queima na manobra.

Quem sai de Kourou chega lá quase alinhado e guarda combustível no tanque. Esse combustível extra serve depois para corrigir a posição em órbita, o que estica a vida útil do satélite.

A França juntou, em 1964, as três exigências numa faixa só de costa: o equador perto, o mar aberto a leste e ao norte, e o território sob a própria bandeira.

O calendário de lançamentos do Ariane 6 e do Vega para 2027 sai no site da Arianespace, a empresa que opera os voos. Reconfira as datas em arianespace.com em janeiro de 2027, quando a empresa publica a programação do ano.

 
 
Quiz da edição

Antes de se instalar em Kourou, de onde a França lançava seus foguetes?

ADe uma base na Polinésia Francesa, no oceano Pacífico
BDe uma base no deserto do Saara, na Argélia
CDe uma base nas Antilhas francesas, no mar do Caribe
DDe uma base no sul da própria França metropolitana

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