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Enewetak e os 1.200 metros de coral sobre um vulcão
Darwin disse em 1842 que todo atol é a borda de um vulcão afundado. Em 1952, uma sonda no Pacífico desceu até a lava.
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Atol de Enewetak, nas Ilhas Marshall
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A broca gira com um gemido de metal contra pedra, e a lama que sobe pelo tubo cheira a sal e a calcário moído. É 1952, numa ilhota plana do Atol de Enewetak, no meio do Pacífico, e o sol esquenta as hastes de aço empilhadas na areia branca.
Os homens em volta da sonda trabalham para o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS. O chefe científico é o paleontólogo Harry Ladd, especialista em fósseis de recife. Cada metro que a broca desce traz à superfície um cilindro de rocha que ele lê como página de livro.
A pergunta que eles querem responder tem 110 anos. Em 1842, o naturalista inglês Charles Darwin publicou um livro sobre recifes de coral e propôs uma ideia ousada: todo atol, aquele anel de ilhas baixas em volta de uma lagoa, é a borda de um vulcão que afundou devagar enquanto o coral crescia por cima.
Darwin nunca conseguiu provar a tese. O coral que constrói recife só vive perto da superfície, onde a luz chega. Se a ideia estivesse certa, debaixo de cada atol haveria uma pilha enorme de calcário de coral, e no fundo dela, rocha vulcânica.
A broca de Enewetak desce e continua em calcário. Passa de 500 metros, passa de 1.000. Os cilindros trazem conchas e pedaços de coral de água rasa, enterrados a profundidades onde nenhum coral consegue crescer.
O relatório que Ladd e quatro colegas publicaram em 1953 registra o desfecho: depois de mais de 1.200 metros de calcário, a ponta bateu numa rocha escura e dura. Era basalto, a lava resfriada que forma os vulcões do Pacífico.
O vulcão estava lá. A prova saiu de um furo aberto num atol que, naquele mesmo ano, recebeu o teste da primeira bomba de hidrogênio da história.
A edição percorre o atol no mapa, o que sobrou nele depois das bombas e a mecânica que transforma um vulcão em anel de coral. A primeira parada é a posição de Enewetak no meio do oceano.
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I O mapa do dia
I, Um anel solto no Pacífico
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Do Havaí para oeste, até um anel de coral sobre um vulcão afundado.
O Atol de Enewetak fica no noroeste das Ilhas Marshall, país insular da Micronésia, a cerca de 11 graus de latitude norte. Honolulu, no Havaí, está a uns 4.300 km a leste; Guam, a uns 1.900 km a oeste.
O anel reúne cerca de 40 ilhotas de areia e coral, nenhuma com mais de poucos metros acima da maré alta. Somadas, dão uns 6 km² de terra firme. A lagoa que elas cercam tem mais de 30 km de um lado a outro, água calma e verde-clara contra o azul escuro do mar aberto.
Na língua marshalesa, o nome se escreve Ānewetak. Os mapas americanos da Segunda Guerra grafavam Eniwetok, e essa forma ficou em todos os relatórios científicos da década de 1950, inclusive no da perfuração.
O atol troca de dono várias vezes no século XX. A Alemanha anexou as Marshall em 1885; o Japão as recebeu em 1920, por mandato da Liga das Nações; tropas americanas tomaram Enewetak em fevereiro de 1944, na Batalha de Eniwetok. Desde 1986, as Ilhas Marshall são país independente, ligado aos Estados Unidos pelo Compacto de Livre Associação (acordo de defesa e ajuda financeira).
A ENTRADA DA LAGOA
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Visto de cima, o atol é um anel quebrado: recife contínuo na maior parte da volta, e canais fundos no sul, por onde a maré entra e sai da lagoa duas vezes por dia.
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Os marinheiros americanos chamaram os dois canais principais de Deep Entrance e Wide Passage (Entrada Funda e Passagem Larga). Navios de guerra, petroleiros e, depois, barcaças carregadas de equipamento atômico entraram por ali.
No mapa de relevo submarino, o atol é o topo achatado de uma montanha. As encostas despencam em volta do anel até o assoalho do oceano, a mais de 4.000 metros abaixo da superfície. Nenhum mergulhador vê o vulcão: ele inteiro está coberto, primeiro pelo calcário e depois pela água.
Enewetak não está sozinho. As Marshall formam duas fileiras de atóis, Ratak (nascer do sol) e Ralik (pôr do sol), e quase todas as ilhas das duas fileiras seguem o mesmo desenho de anel em volta de lagoa. Bikini, outro atol usado em testes nucleares, fica a uns 300 km a leste de Enewetak.
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II O que tem ali
II, Um domo de concreto na ilha Runit
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O que existe hoje em Enewetak é uma comunidade marshalesa que voltou para casa e uma cúpula de concreto que guarda os restos das bombas.
Em dezembro de 1947, a Marinha americana tirou os moradores do atol e os levou para Ujelang, um atol menor e mais pobre a sudoeste. Eles ficaram lá por mais de três décadas. Enewetak virou campo de provas.
A lista oficial de testes do Departamento de Energia dos Estados Unidos, revisada em 2015, registra 43 explosões nucleares em Enewetak entre 1948 e 1958. A mais famosa é Ivy Mike, em 1º de novembro de 1952, a primeira bomba de hidrogênio já detonada.
Ivy Mike apagou do mapa a ilhota de Elugelab, na borda norte do anel. No lugar dela ficou uma cratera submarina larga, que aparece até hoje nas imagens de satélite como um círculo escuro cortando o recife.
O TÚMULO
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Entre 1977 e 1980, militares americanos limparam parte do atol. Rasparam solo contaminado de várias ilhas, misturaram com cimento e despejaram tudo na cratera Cactus, aberta por um teste de 1958 na ilha Runit, no leste do anel.
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Por cima, ergueram uma cúpula de concreto, o Domo Runit. Os moradores o chamam de “o Túmulo”. A cratera nunca recebeu revestimento no fundo, e a água do mar entra e sai pelo calcário poroso embaixo dela.
Um relatório do Departamento de Energia ao Congresso americano, em 2020, concluiu que o domo não corre risco imediato de desabar e que o vazamento para a lagoa é pequeno perto da contaminação que já existia no sedimento. Moradores e o governo marshalês contestam a conclusão, e a ilha Runit segue fechada.
Os moradores voltaram em 1980. Vivem sobretudo nas ilhotas do sul, onde a limpeza foi mais completa. As ilhas do norte, mais próximas dos testes, têm uso restrito, e parte da comida chega de barco porque coco e fruta-pão cultivados ali acumulam césio radioativo.
Os furos de Ladd não deixaram marca que um visitante encontre. Os cilindros de rocha viajaram para os laboratórios do USGS nos Estados Unidos, e a prova de Darwin hoje mora em gavetas de museu, não no atol.
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