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Doggerland, a terra de caça debaixo do mar do Norte

Entre a Inglaterra e a Dinamarca havia uma planície com rios e brejos; o mar cobriu tudo por volta de 6 mil anos antes de Cristo.

Arrastão de pesca sobre o Dogger Bank, no mar do Norte, onde ficava Doggerland.

Dogger Bank, no mar do Norte

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O guincho range, o cabo de aço pinga água gelada no convés, e o cheiro de óleo diesel se mistura ao de peixe e sal. No Colinda, um arrastão inglês (barco de pesca com rede de arrasto), a tripulação puxa a rede do fundo do mar do Norte, em 1931.

Junto com a solha e o bacalhau vem um bloco escuro e pesado, que se desfaz na mão como terra molhada. Os pescadores chamam esse material de moorlog (turfa do fundo, na gíria dos portos ingleses) e costumam devolvê-lo ao mar com um chute.

O capitão Pilgrim Lockwood quebra o bloco antes de jogar fora. Dentro dele aparece uma peça de chifre de uns 22 cm, com uma fileira de farpas numa das bordas.

A peça é uma ponta de arpão, talhada por mão humana. O barco estava entre os bancos de areia Leman e Ower, a uns 40 km de Cromer, na costa de Norfolk, no leste da Inglaterra.

Turfa se forma em brejo, em terra firme, nunca no fundo do mar. A ponta presa dentro dela mostra que ali existiu um pântano, com gente caçando na beira da água.

A datação por radiocarbono, feita décadas depois no próprio chifre, colocou a ponta no Mesolítico (Idade da Pedra Média), milhares de anos antes da primeira cidade da Europa.

Os arrastões do mar do Norte nunca pararam de recolher esse tipo de achado. Dentes de mamute, chifres de cervo, ossos de rinoceronte-lanoso e ferramentas de osso sobem enroscados nas redes, sobretudo no Dogger Bank e nos bancos ao sul dele.

Todos vêm de uma terra só, hoje coberta por dezenas de metros de água: uma planície que ligava a Grã-Bretanha ao continente, da costa inglesa até a Dinamarca e a Holanda.

O mapa abaixo parte das costas que existem hoje e desenha a terra que ficava entre elas.

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I  O mapa do dia

Uma planície entre duas costas

Do Dogger Bank ao vale do canal da Mancha.

Os arqueólogos chamam essa terra de Doggerland. A palavra foi criada em 1998 pela arqueóloga britânica Bryony Coles, da Universidade de Exeter, num artigo da revista Proceedings of the Prehistoric Society, e vem do Dogger Bank, o banco de areia mais alto da área.

O próprio banco herdou o apelido dos barcos holandeses de pesca de bacalhau dos séculos 17 e 18, os doggers (pesqueiros de linha), que trabalhavam aquelas águas rasas.

Hoje, o Dogger Bank fica no meio do mar do Norte, a uns 100 km da costa de Yorkshire. Por cima dele, a água tem de 15 a 36 metros de profundidade, pouca para um mar aberto. Em volta, o fundo desce para 50, 60 metros.

No auge da última glaciação, há cerca de 20 mil anos, quase todo o mar do Norte ao sul da Escócia era terra seca. A água do planeta estava presa em geleiras, e o nível do mar ficava muito abaixo do atual.

O MAPA FEITO COM DADOS DE PETRÓLEO

Ninguém escavou Doggerland: o mapa dela saiu de dados que as petroleiras coletaram para achar óleo e gás.

Em 2007, o arqueólogo Vince Gaffney e colegas da Universidade de Birmingham publicaram o livro Mapping Doggerland. O trabalho usou levantamentos sísmicos (ecos de ondas sonoras disparadas contra o subsolo) cedidos pela empresa norueguesa PGS.

Nos ecos apareceram margens de lagos, colinas baixas, brejos e o leito de um rio que corria para o norte, batizado pela equipe de rio Shotton, em homenagem ao geólogo britânico Fred Shotton.

Mais ao sul, o Tâmisa e o Reno corriam pela mesma planície. Os dois se juntavam antes de chegar ao mar e escoavam pelo vale que hoje é o canal da Mancha.

A ideia de uma terra afundada era antiga. O geólogo Clement Reid, do Serviço Geológico britânico, defendeu no livro Submerged Forests (Florestas Submersas), de 1913, que a turfa dragada pelos pescadores vinha de florestas e brejos cobertos pelo mar.

Reid não tinha como provar onde ficava cada pedaço. A ponta do Colinda, achada 18 anos depois do livro, trouxe a primeira prova de gente vivendo naquela terra.

Doggerland não sumiu de uma vez. Conforme o gelo derretia, o mar avançava pelas partes baixas. A costa recuava ano após ano, e a planície encolhia pelas bordas.

O Dogger Bank, mais alto, resistiu por mais tempo. Os mapas de Gaffney mostram que ele ficou como uma ilha cercada de água rasa depois que o resto da planície já estava submerso.

 
 

II  O que tem ali

O que a rede traz do fundo

Os achados do fundo têm duas idades. Os ossos de mamute-lanoso, rinoceronte-lanoso, leão-das-cavernas e hiena são mais antigos que a ponta do Colinda: pertencem à era glacial, quando Doggerland era uma estepe fria e aberta, de capim baixo e sem árvores.

As ferramentas de osso e chifre vêm de uma fase mais recente. Quando o clima esquentou, a estepe deu lugar a florestas de bétula, pinheiro e carvalho, lagoas e pântanos, cheios de cervos, javalis, aves e peixes.

O MUSEU DOS PESCADORES

Quase tudo o que se sabe de Doggerland chegou à terra pelas redes de pesca, e não por escavação.

Os pescadores holandeses do porto de Urk trazem há décadas ossos dos bancos ao sul do Dogger, como o Brown Bank. O paleontólogo holandês Dick Mol passou anos comprando e catalogando esse material com as tripulações.

Em 2009, uma equipe liderada pelo paleoantropólogo francês Jean-Jacques Hublin descreveu, na revista Journal of Human Evolution, um pedaço de testa de neandertal (espécie humana extinta) achado em areia dragada do fundo, na costa da Zelândia, na Holanda. O fóssil ganhou o apelido de Krijn.

Krijn é muito mais velho que os caçadores do Colinda. Ele mostra que a planície recebeu gente em várias épocas, de espécies humanas diferentes.

Outra fonte de achados fica na praia. Desde 2011, a Zandmotor (motor de areia), uma praia artificial perto de Haia feita com areia bombeada do fundo do mar, devolve a colecionadores fósseis e pontas de osso parecidas com a do Colinda.

Os caçadores do Mesolítico deixaram poucas pistas do jeito de viver, e quase todas indiretas:

• Pontas de arpão com farpas, para pescar e caçar na água.

• Ossos de animais com marcas de corte feitas por lâmina de pedra.

• Lascas de sílex (pedra dura que se lasca em gume afiado) misturadas à turfa.

Nenhum esqueleto completo dessa fase saiu do fundo até hoje. Por esse vazio, ninguém sabe ao certo quantas pessoas viviam ali, que língua falavam ou se moravam o ano inteiro na planície ou só nas estações de caça. O fundo está coberto por metros de areia e lama, e a busca depende do acaso das redes.

Os sítios em terra firme ajudam a preencher o retrato. Em Star Carr, no norte da Inglaterra, à beira de um antigo lago, arqueólogos acharam máscaras feitas de crânio de cervo e restos de uma casa de madeira, tudo da mesma fase, a poucos dias de caminhada da antiga margem de Doggerland.

 

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III  Por que a linha passa ali

O gelo, o mar e a onda de Storegga

A costa do mar do Norte passa onde passa hoje porque três forças agiram juntas no fim da era glacial:

• O gelo derretido devolveu água aos oceanos, e o nível do mar subiu por milhares de anos.

• A Escócia, livre do peso das geleiras, subiu devagar, enquanto o sul da Inglaterra e a Holanda afundaram.

• Uma onda gigante varreu o que restava da planície.

As duas primeiras forças trabalharam devagar. A subida do mar engolia faixas de terra ao longo de gerações, e os moradores recuavam para os terrenos mais altos, sem um dia marcado para a perda.

A ONDA QUE VEIO DA NORUEGA

Por volta de 6150 antes de Cristo, um deslizamento submarino na costa da Noruega mandou um tsunami contra a costa de Doggerland.

O deslizamento leva o nome de Storegga (grande borda, em norueguês). Um trecho da plataforma continental do tamanho de um país pequeno escorregou para o fundo do mar da Noruega e empurrou a água para todos os lados.

A onda deixou camadas de areia marinha em lagos da Escócia, das ilhas Shetland e da Noruega, achadas por geólogos a quilômetros da praia atual. Em Shetland, a areia aparece em encostas bem acima do nível do mar de hoje.

Em 2008, o arqueólogo alemão Bernhard Weninger e colegas publicaram na revista Documenta Praehistorica uma análise das datas do tsunami. O grupo concluiu que a onda atingiu Doggerland quando a planície já estava reduzida a ilhas e terras baixas, e que ela deve ter apagado boa parcela das comunidades da costa.

Depois de Storegga, a subida do mar terminou o trabalho. Em poucos séculos, por volta de 6 mil anos antes de Cristo, o último pedaço seco sumiu, e a Grã-Bretanha virou ilha.

A linha de costa que aparece nos mapas de hoje se formou ali. O estreito de Dover, aberto pela água, separou a Inglaterra da França, e o Dogger Bank ficou como um banco raso no meio do mar.

O banco voltou a ser disputado no século 21. O parque eólico Dogger Bank, em construção a uns 130 km da costa de Yorkshire, finca turbinas no antigo chão de caça, e as empresas são obrigadas a contratar arqueólogos para examinar o fundo antes de cada estaca.

A profundidade de 15 a 36 metros sobre o Dogger Bank vem das cartas náuticas do Serviço Hidrográfico do Reino Unido, corrigidas pelos Avisos aos Navegantes, publicados toda quinta-feira. Reconfira a carta do banco no portal admiralty.co.uk na quinta-feira, 5 de novembro de 2026.

 
 
Quiz da edição

Em 1931, o capitão do arrastão Colinda quebrou um bloco de turfa puxado do fundo do mar do Norte. O que apareceu dentro dele?

AUm crânio de rinoceronte-lanoso
BUma máscara feita de crânio de cervo
CUma ponta de arpão de chifre, com cerca de 22 cm
DUm pedaço de testa de neandertal

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