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Cabo Denison e o vento de 70 km/h que nunca para

Na costa da Antártida, o ar gelado do planalto desce sem pausa, e a expedição de Douglas Mawson passou 2 invernos dentro dele.

Cabana de madeira de Mawson cercada de gelo no Cabo Denison, na Antártida.

Cabana de Mawson no Cabo Denison

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O vento bate na parede de madeira com o som de um trem que nunca termina de passar. Do lado de dentro da cabana, no Cabo Denison, na costa leste da Antártida, dezoito homens comem à luz de lampião em 1912, e a neve fina entra pelas frestas como farinha.

O líder do grupo era o geólogo Douglas Mawson, nascido na Inglaterra, criado na Austrália e professor da Universidade de Adelaide. Ele escolheu o cabo em janeiro de 1912 porque ali havia rocha exposta, rara naquela costa coberta de gelo, e um porto abrigado para o navio Aurora.

O preço da escolha apareceu depois que o navio partiu. O vento quase não parava. Os registros da própria expedição, publicados por Mawson em 1915, dão para 1912 uma média anual perto de 70 km por hora, a maior já medida ao nível do mar em qualquer lugar do planeta.

Setenta km por hora é vento de temporal em qualquer cidade brasileira. No Cabo Denison, era o dia comum. Nos piores momentos, a força derrubava homem em pé, e os expedicionários aprenderam a andar curvados, com o corpo inclinado contra o ar e cravos de ferro presos nas botas.

O plano previa um inverno só. A expedição acabou passando dois, de 1912 a 1914, por causa de uma viagem de trenó que deu errado e de um navio que não pôde esperar.

A cabana de madeira daquele inverno ainda está de pé, com o mesmo telhado inclinado que a neve enterrou por décadas, e os pregos que os homens bateram com as mãos dormentes.

A edição segue por três caminhos: onde fica esse cabo no mapa, o que existe ali até agora e por que o vento escolheu justo esse pedaço de costa.

O ponto de partida é a posição exata da baía, presa entre o mar e uma muralha de gelo.

Continue lendo ↓

 
 

I  O mapa do dia

I, Uma baía no pé do planalto

Da Tasmânia para o sul, até a ponta de rocha que o gelo deixou à mostra.

O Cabo Denison fica na Baía Commonwealth, na Terra de George V, um trecho da Antártida Oriental voltado para o sul da Austrália. A ponta de rocha está a cerca de 67 graus de latitude sul, e Hobart, na Tasmânia, de onde o Aurora zarpou, fica a uns 2.700 km ao norte.

Mawson batizou o cabo em homenagem a Hugh Denison, empresário de Sydney que ajudou a pagar a viagem. A baía ganhou o nome da Commonwealth, a federação australiana criada em 1901, que também entrou com dinheiro.

A expedição tinha nome oficial: Expedição Antártica Australásia, de 1911 a 1914. Ela foi a primeira a mapear essa costa por terra e montou três bases: a principal no Cabo Denison, uma na ilha Macquarie, no meio do caminho, e a Base Ocidental, na plataforma de gelo Shackleton, a mais de 2.000 km a oeste.

A ponta de rocha é pequena. São poucos quilômetros quadrados de gnaisse (rocha antiga dobrada pelo calor e pela pressão), escura e lisa, aflorando entre o mar e o gelo. Atrás dela, o terreno sobe sem pausa até o planalto que cobre o interior do continente.

A RAMPA ATRÁS DA CABANA

O manto de gelo da Antártida Oriental sobe da costa até mais de 3.000 metros de altitude no interior. O Cabo Denison fica no pé dessa rampa, num ponto em que a encosta afunila o ar frio direto para a baía.

Quem subia a rampa a pé encontrava gelo azul polido pelo vento, sem neve solta, e sastrugi (sulcos duros de neve esculpidos pelo vento) do tamanho de bancos de praça. O desenho dos sulcos já denunciava a direção dominante: todos apontavam para o mar.

A água da baía também sentia o ar. As rajadas arrancavam a superfície do mar e a levantavam em colunas de spray que corriam sobre as ondas, e o gelo novo que se formava no inverno era empurrado para fora antes de engrossar.

No mapa político, o cabo pertence ao Território Antártico Australiano, a fatia que a Austrália reivindica desde 1933. O Tratado da Antártida, assinado em 1959, congelou todas as reivindicações, e o lugar é administrado como área protegida, com visita controlada.

O acesso continua difícil. Navios de turismo chegam poucas vezes por temporada, e muitas viagens desistem na porta da baía porque o vento não deixa os botes infláveis desembarcarem.

 
 

II  O que tem ali

II, A cabana que ficou de pé

O que existe no Cabo Denison até agora é a casa que Douglas Mawson mandou levantar em 1912. Ela chegou desmontada no porão do Aurora, em peças numeradas de pinho do Oregon, e foi erguida pelos próprios expedicionários em poucas semanas.

São duas construções unidas. A maior servia de dormitório, cozinha e sala de trabalho para dezoito homens; a menor, encostada nela, guardava a oficina e os instrumentos. O telhado desce quase até o chão, em forma de pirâmide, e a neve acumulada em volta ajudou a segurar a estrutura contra o vento.

Lá dentro, o meteorologista Cecil Madigan lia os anemômetros (aparelhos que medem a velocidade do vento) várias vezes por dia. Os números entraram no volume de meteorologia dos relatórios científicos da expedição, publicado em 1929, e é deles que sai a média perto de 70 km por hora.

O vento cobrava trabalho diário. Para ler os instrumentos ou buscar gelo para derreter e beber, os homens saíam em duplas, às vezes presos por corda, e a neve soprada escondia o companheiro a poucos metros de distância.

O SEGUNDO INVERNO

O segundo inverno nasceu de uma viagem de trenó. Em novembro de 1912, Mawson saiu para leste com o oficial britânico Belgrave Ninnis e o esquiador suíço Xavier Mertz, para mapear a costa.

Em 14 de dezembro, Ninnis caiu numa fenda do gelo junto com o trenó que levava a barraca principal e quase toda a comida. Mertz morreu na volta, em janeiro de 1913. A causa mais citada é intoxicação por vitamina A, por comer o fígado dos cães, hipótese publicada pelos médicos John Cleland e Ronald Southcott em 1969; o corpo segue sob o gelo, e nenhum exame confirmou a tese.

Mawson chegou sozinho à cabana em 8 de fevereiro de 1913 e viu o Aurora no horizonte, saindo da baía horas antes. O navio não podia esperar mais sem arriscar ficar preso no gelo, e seis homens tinham ficado para procurá-lo.

Os sete passaram o inverno de 1913 no Cabo Denison. O Aurora voltou em dezembro e os recolheu, e a expedição chegou a Adelaide em fevereiro de 1914.

Mawson contou a viagem no livro de 1915 e deu ao lugar um apelido que pegou. Em “The Home of the Blizzard” (A Casa da Nevasca), ele escreveu: “Tínhamos descoberto um país amaldiçoado. Tínhamos encontrado a casa da nevasca.”

A cabana atravessou o século seguinte. Desde 1997, a Mawson's Huts Foundation, entidade australiana sem fins lucrativos, envia equipes de restauro que retiram gelo de dentro, trocam peças podres e mantêm os objetos onde os homens deixaram.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, O ar frio que desce a rampa

O vento do Cabo Denison tem nome técnico: vento catabático (ar frio e pesado que desce uma encosta puxado pela gravidade). Ele nasce no planalto, onde o gelo resfria o ar encostado nele até dezenas de graus abaixo de zero.

Ar frio é mais denso que ar quente. No alto do planalto, essa camada pesada começa a escorrer pela rampa de gelo em direção ao mar, como água descendo um telhado, e ganha velocidade conforme desce.

Só a gravidade não explicaria o recorde. Em boa parte da costa antártica, o ar que desce se espalha por uma frente larga. Atrás da Baía Commonwealth, o relevo do gelo forma um vale raso que junta o ar de uma área enorme e o despeja numa faixa estreita, justo sobre o cabo.

O FUNIL DE GELO

O vento do cabo junta três peças: um planalto que fabrica ar gelado o ano inteiro, uma rampa que acelera esse ar e um vale de gelo que concentra o fluxo num só ponto da costa.

A direção quase não muda. Os registros de Madigan mostram o vento soprando do sul e do sul-sudeste na maior parte das horas, sempre de terra para o mar. No inverno, quando o planalto esfria mais, a força sobe.

As rajadas extremas ficaram sem número exato. Mawson estimou no livro de 1915 que algumas passaram de 300 km por hora, mas os anemômetros da época quebravam ou travavam nos piores momentos, e o valor real dessas rajadas nunca foi medido.

Para ver a rampa e o funil no mapa, o caminho é curto:

1. Abra o Google Earth no navegador e busque “Cape Denison”.

2. Afaste a visão até aparecer a borda do planalto, ao sul da Baía Commonwealth.

3. Segure a tecla Shift e arraste o mouse para inclinar o mapa e ver o gelo subir da baía em direção ao interior.

“Quanto tempo você aguentaria andar curvado contra um vento que nunca para?”

A média de 70 km por hora vem dos registros de 1912 e 1913 publicados nos relatórios da expedição. Reconfira as séries recentes da estação automática do Cabo Denison no site da Divisão Antártica Australiana, antarctica.gov.au, em março de 2027, no fim do verão austral.

 
 
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Em 14 de dezembro de 1912, quem caiu numa fenda do gelo junto com o trenó que levava a barraca principal?

AXavier Mertz
BCecil Madigan
CBelgrave Ninnis
DDouglas Mawson

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