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Banco de Terra Nova, o mar de 100 metros a 400 km da costa

Ali a corrente fria do Labrador encontra a quente do Golfo. O bacalhau farto durou cinco séculos, até a moratória de 1992.

Mapa do Banco de Terra Nova, planalto raso a sudeste da ilha canadense.

O Banco de Terra Nova, no Atlântico Norte

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A neblina gruda na lã do casaco e deixa gosto de sal na boca. No convés de um navio parado no Atlântico Norte, o apito de nevoeiro soa a cada dois minutos, e a água bate no casco com um som curto, de mar pouco fundo.

O navio está a uns 400 km da ilha de Terra Nova, no leste do Canadá. Nenhuma costa aparece no horizonte. Mesmo assim, a sonda marca menos de 100 metros até o fundo, a altura de um prédio de trinta andares.

A uns poucos quilômetros dali, o fundo despenca para mais de 3.000 metros. O navio flutua sobre a borda de um planalto submerso do tamanho de um país europeu.

Na água, a temperatura muda de uma hora para outra. Um termômetro jogado pela amurada marca perto de zero grau num ponto e passa dos dez graus pouco adiante. Onde as duas águas se tocam, o ar morno condensa, e o nevoeiro cobre o convés por dias seguidos.

Durante quase cinco séculos, esse pedaço de mar encheu porões. Barcos bascos, portugueses, franceses e ingleses atravessavam o oceano todo verão, ancoravam no nevoeiro e desciam linhas com anzol. Voltavam carregados de peixe salgado para a mesa da Europa.

Os portugueses chamaram aquelas águas de Terra Nova, e o nome ficou. O peixe que vinha de lá virou o bacalhau da Sexta-feira Santa nas casas de Lisboa e, depois, nas do Brasil.

Em julho de 1992, o governo do Canadá fechou a pesca do bacalhau do norte. Os barcos ficaram amarrados no cais, e as fábricas de processamento da ilha apagaram as luzes.

O fundo raso continua lá, e as duas correntes ainda se encontram em cima dele. O mapa logo abaixo desenha o contorno desse planalto e mostra onde ele começa e onde acaba.

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I  O mapa do dia

Um planalto no fundo do Atlântico

Até 100 metros de fundo, a 450 km da costa de Terra Nova.

O Banco de Terra Nova (Grand Banks, em inglês) é um trecho raso da plataforma continental (a parte do fundo do mar que prolonga o continente antes do declive para o oceano profundo). Fica a sudeste da ilha de Terra Nova, província canadense de Terra Nova e Labrador.

O banco se estende por perto de 280 mil km², área próxima à do estado de São Paulo, e avança para leste e para sul até uns 450 km da costa. Na maior parte, o fundo fica entre 25 e 100 metros de profundidade.

O contorno tem nomes de corpo. A ponta leste, que passa da linha de 200 milhas náuticas do Canadá, é chamada de Nariz do Banco. A ponta sul, que também escapa dessa linha, é a Cauda do Banco.

SOBRAS DE GELO

O planalto é feito de areia, cascalho e pedra deixados pelas geleiras da última era glacial. Quando o gelo cobria o leste do Canadá, o nível do mar estava mais baixo, e partes do banco ficavam acima da água como ilhas baixas.

Quando o gelo derreteu, o mar subiu e cobriu tudo, mas o monte de sedimento continuou alto. Em alguns pontos, como o Virgin Rocks, a pedra chega a poucos metros da superfície, e as ondas quebram em pleno oceano aberto.

Para o norte, o banco se liga à costa da ilha por uma faixa rasa. Para o leste e o sul, termina numa encosta íngreme, o talude continental (a rampa que desce da plataforma até o fundo do oceano).

Em 18 de novembro de 1929, um terremoto de magnitude 7,2 sacudiu essa encosta sul. O deslizamento de lama submarina rompeu doze cabos de telégrafo transatlânticos, um a um, e a ordem das rupturas mostrou aos geólogos a velocidade da avalanche no fundo.

O tremor também empurrou uma onda gigante contra a península de Burin, na costa sul da ilha. Vinte e oito pessoas perderam a vida, o pior desastre sísmico registrado no Canadá.

O nevoeiro do banco nasce do encontro das correntes. A corrente do Labrador desce do Ártico rente à costa, fria e carregada de icebergs. A corrente do Golfo sobe do Caribe, quente e úmida. O ar aquecido pela segunda passa sobre a água gelada da primeira, esfria e vira névoa espessa, sobretudo na primavera e no verão.

Mais ao sul, a pouca distância da Cauda do Banco, o Titanic afundou em abril de 1912, depois de bater num iceberg trazido pela corrente do Labrador.

 
 

II  O que tem ali

O peixe que alimentou um continente

O fundo raso deixa a luz do sol chegar longe na coluna de água. Com luz e com sais minerais que sobem do fundo, o plâncton (algas e animais microscópicos que flutuam na água) se multiplica em quantidade enorme na primavera.

O plâncton alimenta o capelim, um peixe pequeno e prateado. O capelim alimenta o bacalhau-do-atlântico (Gadus morhua, no nome científico). O bacalhau desova no próprio banco, e os filhotes crescem nas águas rasas, perto da comida.

UM PEIXE QUE CABIA NUM CESTO

Em dezembro de 1497, o diplomata Raimondo de Soncino escreveu ao duque de Milão sobre a viagem de João Caboto à costa da Terra Nova. Contou que os marinheiros diziam que o mar estava tão cheio de peixe que bastava baixar um cesto com uma pedra para puxá-lo carregado.

Nas décadas seguintes, bascos, portugueses e franceses passaram a cruzar o Atlântico todos os anos. Os barcos pescavam com linha de mão no nevoeiro e salgavam o peixe a bordo, ou secavam em armações de madeira nas praias da ilha.

O bacalhau salgado e seco durava meses sem estragar. Viajava nos porões até Lisboa, Bilbao e Bristol, e dali seguia para as colônias. Abastecia navios em viagens longas e entrava no cardápio dos dias de jejum da Igreja, quando a carne era proibida.

Portugal manteve a Frota Branca, de veleiros pintados de branco, no banco até o século XX. Os pescadores desciam do navio em dóris (pequenos botes a remo de um homem só) e passavam o dia sozinhos na neblina, puxando a linha.

A partir da década de 1950, chegaram os arrastões-fábrica (navios que pescam com rede de arrasto e congelam o peixe a bordo). O britânico Fairtry, lançado em 1954, abriu caminho para frotas da União Soviética, da Espanha e da Alemanha, que trabalhavam dia e noite, inverno e verão.

O encontro das correntes também mexe a água de baixo para cima. A água fria do Labrador é rica em sais minerais, e a mistura com a água morna do Golfo, sobre um fundo raso, mantém o alimento perto da superfície, onde o plâncton consegue usá-lo.

As redes de arrasto pegavam também os cardumes que se juntavam para desovar. Os peixes grandes sumiram primeiro, e as capturas desabaram no fim da década de 1980.

Em 2 de julho de 1992, o ministro das Pescas do Canadá, John Crosbie, anunciou a moratória (proibição temporária) da pesca do bacalhau do norte. O governo canadense contou perto de 30 mil empregos perdidos em Terra Nova e Labrador, a maior demissão em massa da história do país.

 

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III  Por que a linha passa ali

A linha de 200 milhas que não cobriu tudo

A moratória só alcançava o mar sob controle do Canadá. Em 1977, o país estendeu sua zona econômica exclusiva (faixa de mar onde só ele decide quem pesca) a 200 milhas náuticas da costa, uns 370 km.

A linha foi traçada pela distância até a costa, sem olhar o relevo do fundo. Como o banco avança até uns 450 km, o Nariz e a Cauda ficaram fora dela, em águas internacionais.

O PEIXE NÃO RESPEITA FRONTEIRA

Os cardumes se movem pelo banco inteiro, dentro e fora da linha. Barcos estrangeiros pescavam legalmente no Nariz e na Cauda os mesmos estoques que o Canadá tentava proteger do lado de dentro.

As águas de fora da linha ficaram sob a Organização de Pescas do Atlântico Noroeste (NAFO, na sigla em inglês), criada em 1979, que fixa cotas para os países membros. As cotas dependiam de acordo, e o acordo demorava.

Em março de 1995, o choque virou caso de polícia. Navios canadenses perseguiram e apreenderam o arrastão espanhol Estai em águas internacionais, na Cauda do Banco, e acusaram o barco de usar rede de malha menor que a permitida.

A Espanha enviou um navio da marinha, e o episódio ficou conhecido como Guerra da Palmeta, nome português do alabote-da-groenlândia, o peixe chato de águas frias que o Estai pescava. Canadá e União Europeia fecharam um acordo em abril do mesmo ano, com fiscais a bordo dos barcos.

Debaixo da Cauda e do Nariz existe ainda outra riqueza. Em 1979, a perfuração do poço Hibernia achou petróleo no banco, e a plataforma de mesmo nome começou a produzir em 1997, sobre 80 metros de água, a uns 315 km de St. John's, a capital da província.

Os vinte anos seguintes à moratória mostraram o tamanho do estrago. O bacalhau do norte cresce devagar e só começa a desovar com uns seis ou sete anos, e o capelim, sua comida principal, também encolheu no começo da década de 1990. Sem peixes adultos para repor a população, o estoque ficou anos parado no fundo.

O bacalhau voltou devagar. Em junho de 2024, o governo do Canadá encerrou a moratória do bacalhau do norte, depois de 32 anos, e liberou uma cota comercial de 18 mil toneladas para aquele ano.

O tamanho da cota de cada ano sai da avaliação do estoque feita pelo Departamento de Pescas e Oceanos do Canadá (DFO). Reconfira o número na página de avaliações de estoque do DFO, em dfo-mpo.gc.ca, na primavera de 2027, quando sai a avaliação seguinte do bacalhau do norte.

 
 
Quiz da edição

Em que data o governo do Canadá anunciou a moratória da pesca do bacalhau do norte, fechando o Banco de Terra Nova para a pesca comercial?

A18 de novembro de 1929
B2 de julho de 1992
CDezembro de 1497
DMarço de 1995

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