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As plantas que só nascem em Socotra

Isolada no mar da Arábia, Socotra tem 825 espécies de plantas e cerca de 307 delas não crescem em nenhum outro ponto do planeta.

Árvores sangue-de-dragão no planalto calcário de Dixam, na ilha de Socotra.

Sangue-de-dragão no planalto de Dixam

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O vento quente do sul cobre a pele de sal e de pó de calcário no planalto de Dixam, em Socotra, e range nos ouvidos sem parar. O tronco raspado da árvore mais próxima pinga uma resina espessa, vermelha como tinta de carimbo, que endurece em grãos escuros em menos de uma hora e cheira a incenso apagado. Quem pisa nos grãos caídos sente a crosta estalar sob a sola.

A árvore se chama Dracaena cinnabari, batizada sangue-de-dragão pelo tom da seiva. A copa dela cresce achatada e aberta como um guarda-chuva virado ao contrário, um desenho que recolhe a neblina que sobe da encosta e escorre a água condensada até a base do tronco, onde as raízes esperam.

Socotra é a ilha principal de um arquipélago do Iêmen, no mar da Arábia. Quando a Unesco inscreveu o arquipélago na lista do Patrimônio Mundial, em 2008, o dossiê contava 825 espécies de plantas e registrava 307 delas, cerca de 37% do total, sem ocorrência natural em qualquer outro lugar.

O número põe Socotra na companhia de Galápagos, no Equador, e da Nova Caledônia, no Pacífico, entre as ilhas com maior proporção de plantas exclusivas. Socotra nunca foi vulcânica: ela é pedaço de continente, com granito antigo por baixo e uma tampa de calcário por cima, e foi essa origem que segurou ali uma flora que sumiu do continente vizinho.

A ilha também fica escondida quatro meses por ano. A monção do sudoeste levanta o mar de junho a setembro, e até a abertura do aeroporto, em 1999, o arquipélago passava esse período sem barco atracando e sem correspondência chegando. O calendário da ilha se organizava em torno dessa pausa: comprar estoque antes do vento e esperar o mar baixar para vender resina, aloé e peixe seco no continente.

Vale começar pelo lugar exato: as distâncias que separam Socotra do continente, o relevo que ela tem dentro e quem mora nela.

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I  O mapa do dia

I, Quatro ilhas e uma montanha de granito

Quatro ilhas no mar da Arábia, a 240 km da África.

O arquipélago fica no mar da Arábia, perto da entrada do golfo de Áden, entre os paralelos 12° e 12°42' norte. A ilha de Socotra está a cerca de 380 quilômetros da costa sul do Iêmen continental e a cerca de 240 quilômetros do cabo Guardafui, a ponta oriental do Chifre da África, em território somali. O mar é mais curto até a África, e o país dono da ilha está do lado asiático.

São quatro ilhas e dois rochedos. Socotra, com cerca de 3.600 quilômetros quadrados, responde por quase todo o território; Abd al Kuri, Samhah e Darsah formam o resto, e os rochedos de Kal Farun e Sabuniyah aparecem no mapa como pedras isoladas. A Unesco protege o conjunto inteiro desde 2008, área terrestre e faixa marinha.

Hadibu, no litoral norte, é a maior cidade e concentra o porto, o mercado e o hospital. O censo iemenita de 2004 contou 42.842 habitantes no arquipélago, quase todos em Socotra, e o Iêmen criou a província de Socotra em dezembro de 2013, desmembrando o arquipélago da província de Hadramaute.

A MONÇÃO QUE FECHAVA A PORTA

De junho a setembro a monção do sudoeste sopra com força constante sobre o arquipélago e ergue ondas que impedem qualquer desembarque nas praias abertas; até 1999, quando a pista de Hadibu recebeu o primeiro voo, os moradores atravessavam quatro meses por ano sem barco, sem carga nova e sem visita de fora.

O relevo tem três andares. A planície costeira do Noged, no sul, é uma faixa de areia e dunas encostada no mar. Acima dela sobem os planaltos calcários de Dixam e Momi, entre 300 e 700 metros, com desfiladeiros fundos cortados por rios que só correm depois da chuva.

No topo ficam as montanhas Haggeher, um bloco de granito com picos irregulares, pontas afiadas e paredes lisas. O ponto mais alto passa de 1.500 metros e prende neblina quase todo o inverno, o que mantém encostas úmidas num arquipélago que, no litoral, é quase deserto.

A água doce segue esse desenho. Nascentes brotam no contato do granito com o calcário, alimentam poças permanentes nos desfiladeiros e somem antes de chegar ao mar na maior parte do ano. As aldeias antigas se instalaram justamente nesses pontos de nascente, e os rebanhos de cabra descem até elas todo fim de tarde.

Descrito o terreno, cabe olhar o que cresce e o que anda em cima dele.

 
 

II  O que tem ali

II, A árvore que sangra e a vizinhança dela

A Dracaena cinnabari cresce nos planaltos calcários acima de 300 metros e vive séculos. O tronco se divide em galhos que se dividem de novo, sempre em dois, até formar a copa chata que segura neblina. A resina vermelha escorre de cortes na casca, seca em lágrimas e serviu por séculos como verniz, tinta de tecido e remédio caseiro para gengiva inflamada.

O comércio dessa resina é antigo. O Périplo do Mar Eritreu, manual de navegação escrito por um mercador grego do Egito no século I, já chamava a ilha de Dioscórida e listava entre as mercadorias de lá o cinábrio recolhido gotejando das árvores, além de casco de tartaruga e aloés.

O aloé de Socotra é outra espécie da casa. A Aloe perryi dá uma resina amarga que os boticários europeus vendiam sob o nome de aloés socotrino, e ela ainda é colhida por famílias da ilha, fervida em latas e vendida em placas escuras.

O QUE A ILHA GUARDA DE PLANTA

O levantamento botânico publicado por Anthony Miller e Miranda Morris, do Real Jardim Botânico de Edimburgo, em 2004, descreve a flora do arquipélago espécie por espécie e mostra que a árvore-pepino, Dendrosicyos socotranus, de tronco inchado e casca de papel, é a única planta da família do pepino e da abóbora que cresce em forma de árvore no mundo inteiro.

O tronco gordo se repete em outras plantas da ilha. A rosa-do-deserto de Socotra, subespécie da Adenium obesum, arma um caule bojudo que parece pé de elefante grudado na rocha e floresce em rosa forte no fim do inverno. Várias espécies de Boswellia, o gênero do incenso, se agarram a paredes de calcário quase verticais e só existem ali.

A fauna terrestre seguiu o mesmo caminho. A BirdLife International classifica o arquipélago como área de aves endêmicas e lista dez espécies exclusivas, entre elas o estorninho de Socotra, o pardal de Socotra e a coruja-de-orelhas de Socotra, descrita formalmente apenas em 2015.

Os répteis levaram o isolamento mais longe. O trabalho de campo do herpetólogo Salvador Carranza, do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona, publicado em 2018, contabiliza cerca de trinta espécies de répteis terrestres no arquipélago, e quase todas não ocorrem fora dele. Anfíbio nativo não existe: sapo e rã nunca atravessaram o mar aberto.

Os ciclones Chapala e Megh, que atingiram Socotra em novembro de 2015 com uma semana de diferença, derrubaram centenas de árvores sangue-de-dragão adultas, e o rebanho caprino da ilha come as mudas novas antes de elas endurecerem, o que deixa as populações da espécie formadas quase só por indivíduos velhos.

Ninguém tem hoje uma contagem completa e atual de quantas árvores sangue-de-dragão restaram, porque a guerra civil iemenita interrompeu o monitoramento de campo depois de 2015. Os viveiros cercados montados por moradores em Dixam e Firmihin são a resposta prática: mudas crescem protegidas da cabra por muro de pedra até atingirem altura que o animal não alcança.

A língua da ilha também é exclusiva. O soqotri pertence ao grupo das línguas sul-arábicas modernas, aparentado do mehri falado no continente, e circulou por séculos só na fala, sem alfabeto próprio, com vocabulário próprio para cada parte da árvore e cada tipo de pasto.

Catalogado o que vive ali, falta a razão de tudo isso estar concentrado numa ilha só.

 

Quem banca a edição de hoje

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Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Por que a linha passa ali

III, Um pedaço de continente que o mar soltou

A chave está na origem do terreno. Socotra não emergiu do fundo do mar: ela é crosta continental, com embasamento de granito e gnaisse coberto por calcário marinho depositado quando o bloco ficou submerso, e esse bloco pertencia à margem sul da Arábia antes de o mar abrir passagem ali.

A Unesco, no documento de inscrição de 2008, descreve o arquipélago como fragmento de origem gondwânica separado do continente no fim do Terciário, quando a abertura do golfo de Áden rasgou a placa e empurrou a Arábia para o norte. Desde então nenhuma ponte de terra ligou a ilha ao continente.

"A ilha chamada Dioscórida é muito grande, deserta e úmida, com rios, crocodilos, muitas víboras e grandes lagartos; produz casco de tartaruga, e também o cinábrio, chamado indiano, que se recolhe gotejando das árvores."

Périplo do Mar Eritreu, autor anônimo, século I.

O resultado biológico vem desse corte. Tudo que chegou depois da separação teve de atravessar mar aberto: semente carregada por pássaro, fruto boiando na corrente, aranha subindo no vento. Grupos que não conseguem fazer essa travessia ficaram de fora, e a ausência de anfíbios e de mamíferos terrestres nativos, fora os morcegos, é a assinatura dessa peneira.

O clima terminou o serviço. O arquipélago escapou das oscilações que secaram e recongelaram o continente vizinho, manteve neblina nos planaltos e umidade nas encostas altas, e guardou linhagens de plantas que foram extintas na Arábia e no Chifre da África. Parentes próximos das espécies de Socotra vivem hoje em manchas isoladas da Somália e da Etiópia, restos do mesmo conjunto antigo.

1. Abra o mapa do mar da Arábia e ache a boca do golfo de Áden, entre o Iêmen e a Somália.

2. Deslize o dedo para leste, mar adentro: a mancha comprida a cerca de 240 quilômetros do cabo Guardafui é Socotra.

3. Suba do litoral norte, em Hadibu, para o interior: em 20 quilômetros você passa de praia a planalto calcário e chega ao granito das Haggeher.

O isolamento que criou a flora agora depende de decisão humana. O arquipélago entrou em 2008 na lista do Patrimônio Mundial, e as ameaças citadas pela própria Unesco são estrada nova cortando planalto, pastoreio sem controle de cabra e espécie exótica trazida de barco, todas dependentes do que a ilha fizer nos próximos anos.

"Quantas espécies do lugar onde você mora existem apenas ali, e quem está contando?"

O estado de conservação do arquipélago e os alertas em vigor saem na ficha do sítio Socotra Archipelago no portal do Patrimônio Mundial da Unesco, em whc.unesco.org. Reconfira a ficha nessa página em 22/10/2026.

 
 
O Olho de Geógrafo: oito pistas, uma por dia: A mão da estrada, A sombra ao meio do dia, A placa que o país assina, A chapa do carro, O poste que a rua repete, O telhado, o muro e a caixa d'água, A vegetação e a cor do chão, A letra na parede e o acento que decide. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual é a distância aproximada entre a ilha de Socotra e o cabo Guardafui, na Somália?

A380 quilômetros
B240 quilômetros
C600 quilômetros
D100 quilômetros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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