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As ovelhas que pagam 25 moedas para cruzar o centro de Madri

Todo outono, um rebanho atravessa Madri por uma via de gado protegida por lei. O pedágio segue um acordo de 1418.

Rebanho de ovelhas merinas cruzando uma rua do centro de Madri.

Ovelhas merinas no centro de Madri

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O chocalho chega antes das ovelhas. O som de metal batendo em metal desce pela Calle Mayor numa manhã fria de outubro, e logo atrás vem o cheiro de lã úmida e de esterco fresco sobre o asfalto de Madri.

Os cascos estalam nas pedras do calçamento. Centenas de ovelhas merinas, brancas e de lã grossa, ocupam a rua de calçada a calçada. Os pastores andam na frente, de cajado na mão e colete de couro, e os cães correm pelas bordas do rebanho para fechar os buracos da fila. O ar fica com um cheiro adocicado de lanolina, a gordura natural da lã.

Os ônibus ficam parados nas transversais. Turistas sobem nos bancos para filmar, e moradores descem dos prédios de roupão para ver o rebanho passar diante das vitrines.

Na Plaza de la Villa, em frente ao antigo prédio da prefeitura, o cortejo para. Um pastor entrega a um representante da cidade 25 maravedís (moedas de cobre da Castela medieval), o valor que um acordo de 1418 fixou para cada mil cabeças que cruzassem as terras de Madri.

O vereador recebe as moedas e devolve um recibo. Pago o pedágio, a passagem segue aberta por mais um ano, como mandava o acordo assinado seis séculos atrás entre o conselho da vila e os criadores de gado.

A cerimônia virou festa pública em 1994 e acontece todo outono desde então. Os pastores usam o trajeto que a lei espanhola ainda reconhece como via pecuária (estrada pública reservada ao trânsito do gado), mesmo coberto de asfalto e cercado de lojas.

A estrada não começa nem termina em Madri. Ela desce das serras do norte da Espanha e segue rumo ao sul, e a cidade cresceu em cima de um trecho dela.

A edição começa pelo mapa dessa estrada: uma faixa de terra de largura fixa que corta a Espanha de norte a sul sem desviar de cidade nenhuma.

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I  O mapa do dia

I, Uma estrada de 75 metros que corta a Espanha

Das serras de Soria às planícies do sul, por uma faixa de terra que ninguém pode cercar.

A Cañada Real Soriana (via real de gado de Soria) nasce nas serras da província de Soria, no norte de Castela, e desce até o sul da Península Ibérica. Ela tem dois braços. O oriental atravessa a Mancha rumo à Andaluzia; o ocidental segue para a Estremadura, perto da fronteira com Portugal.

A Soriana é uma de várias cañadas reales (as grandes vias de gado com proteção da Coroa). Outras famosas são a Segoviana, a Leonesa e a Galiana. Juntas, formam uma rede de linhas paralelas que liga os pastos do norte aos pastos do sul.

A Lei 3/1995 de Vías Pecuarias, aprovada pelo parlamento espanhol em 1995, calcula em seu preâmbulo cerca de 125.000 km de vias pecuárias no país inteiro. Dá para dar três voltas na Terra pela linha do equador só com as estradas de gado espanholas.

A lei separa as vias por largura máxima, herdada das medidas castelhanas em varas (a vara de Castela tinha cerca de 84 cm):

1. Cañada (via principal): até 75 metros de largura, o equivalente a 90 varas.

2. Cordel (via intermediária): até 37,5 metros, ou 45 varas.

3. Vereda (via secundária): até 20 metros, ou 25 varas.

Abaixo dessas três ficam as coladas, trilhas estreitas de largura variável que ligam as vias grandes a povoados, fontes e pastos locais.

FAIXAS QUE NINGUÉM PODE CERCAR

A lei de 1995 classifica todas essas faixas como bem público, inalienável (não pode ser vendido) e imprescritível (não vira propriedade de quem a ocupa por muitos anos).

Na prática, a estrada de gado aparece no mapa como uma fita de terra que atravessa trigais, olivais e estradas asfaltadas. Em muitos trechos, a faixa ainda é visível do alto: uma linha de mato mais claro, sem cerca e sem plantio, que segue reta por dezenas de quilômetros.

Ao longo da via, a lei também protege os descansaderos (áreas largas onde o rebanho para e dorme) e os abrevaderos (pontos de água para o gado beber). Sem esses pontos, a viagem a pé seria impossível: o rebanho precisa beber e descansar todo dia.

Em Madri, a rede chega à cidade por várias vias. O trajeto da festa entra pela Casa de Campo, o grande parque a oeste do centro, cruza o rio Manzanares e sobe pelo centro histórico até a Puerta del Sol e a Calle de Alcalá.

 
 

II  O que tem ali

II, Merinas, a Mesta e um pedágio de 1418

A rede de vias existe por causa de uma ovelha: a merina, raça de lã fina e crespa que fez a fortuna de Castela entre a Idade Média e o século XVIII. A lã merina era exportada para Flandres e para a Itália, onde virava tecido de luxo.

Em 1273, o rei Alfonso X de Castela reuniu os criadores de ovelhas numa associação com privilégios reais, o Honrado Concejo de la Mesta (o conselho dos criadores de gado). A Mesta tinha juízes próprios, os alcaldes entregadores, que percorriam as cañadas para punir quem plantasse ou cercasse a faixa de passagem.

Os privilégios da Mesta irritavam as vilas. Cada cidade no caminho queria cobrar pela passagem do rebanho, e os criadores queriam passar sem pagar nada. As brigas iam parar nos tribunais do rei com frequência.

O ACORDO QUE MADRI ASSINOU

Em 1418, o conselho da vila de Madri e a Mesta assinaram um acordo: os rebanhos podiam cruzar as terras da vila pelas cañadas marcadas, desde que pagassem 25 maravedís por cada mil cabeças.

O valor ficou congelado no texto. Em 1418, as moedas pesavam no bolso dos criadores; hoje, a entrega das moedas na Plaza de la Villa é simbólica e serve para manter o acordo de pé.

A Mesta perdeu força ao longo dos séculos. As Cortes de Cádiz atacaram os privilégios dela em 1813, e a associação foi extinta em 1836. As vias de gado ficaram, abandonadas aos poucos à medida que o trem e depois o caminhão passaram a levar os rebanhos.

Em 1994, a Asociación Concejo de la Mesta, criada por pastores e ambientalistas, organizou a primeira travessia festiva de Madri. A ideia era lembrar à cidade que a faixa ainda estava lá, no papel e embaixo do asfalto.

O que não se sabe com precisão é o traçado exato da passagem medieval dentro da vila. Os documentos de 1418 citam as cañadas sem desenhar o percurso rua por rua, e a Madri do século XV era uma vila pequena, com muros e portas que não existem mais. O trajeto da festa segue as vias pecuárias registradas hoje. Ninguém consegue provar que ele repete, passo a passo, a rota de 1418.

A festa ganhou programa fixo. Além da travessia, há feira de queijos e de lã, oficinas de tosquia e debates sobre o futuro do pastoreio. O rebanho que entra na cidade costuma ser emprestado por criadores da serra de Madri e de Castela.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, Do verão nas serras ao inverno no sul

A linha da Cañada Real Soriana passa onde passa por causa do clima. O rebanho segue a grama, e a grama muda de lugar conforme a estação.

No verão, o sul da Espanha seca. A Mancha e a Andaluzia ficam amarelas, com pasto queimado pelo sol. Nas serras de Soria, a mais de mil metros de altitude, o capim segue verde até setembro.

No inverno, a situação se inverte. As serras do norte ficam cobertas de neve e geada, e o pasto some. No sul, as chuvas de outono fazem o capim brotar nas dehesas (bosques ralos de azinheira e sobreiro, usados como pasto).

A transumância (deslocamento do rebanho entre pastos de verão e de inverno) resolve as duas faltas com uma viagem. Em outubro, o rebanho desce para o sul; em maio ou junho, sobe de volta para as serras.

O TRAÇADO QUE A ÁGUA DESENHOU

A estrada evita a lavoura, procura a água e cruza as serras pelos passos mais baixos, e a soma das três regras explica cada curva da linha no mapa.

O traçado acompanha vales de rio onde dá, porque o rebanho precisa beber todo dia. Onde precisa cruzar uma cordilheira, como o Sistema Central, procura o desfiladeiro mais baixo. E desvia das várzeas cultivadas, onde o gado comeria a plantação dos lavradores.

A viagem a pé leva semanas. Um rebanho anda entre 20 e 30 km por dia, com paradas nos descansaderos ao entardecer. De Soria às planícies do sul, o percurso inteiro pode passar de um mês de caminhada.

Hoje, a maioria dos rebanhos viaja de caminhão. Alguns pastores ainda fazem o caminho inteiro a pé por tradição ou por convicção, e associações de criadores registram a travessia todo ano.

A lei de 1995 deu às vias um segundo uso. Além do gado, elas servem para caminhada, cavalgada e bicicleta, e funcionam como corredores verdes por onde passam também lobos, cervos e aves que fogem das áreas cercadas.

A proteção no papel não impediu as perdas. Trechos inteiros foram engolidos por estradas, loteamentos e plantações, e as comunidades autônomas seguem trabalhando na demarcação oficial (medição e registro do limite exato de cada via), um processo que ainda não terminou.

“Quantas ruas de uma cidade grande continuam sendo, por lei, estrada de ovelha?”

A Prefeitura de Madri publica a data e o percurso da Fiesta de la Trashumancia (Festa da Transumância) de 2026 na agenda de madrid.es. Reconfira lá em 20 de outubro de 2026, antes do último domingo do mês.

 
 
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Segundo o acordo de 1418, quantos maravedís um pastor entrega na Plaza de la Villa por cada mil cabeças de ovelhas?

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