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Aogashima ficou 50 anos vazia depois do vulcão

Em 1785 a cratera explodiu e os sobreviventes fugiram de barco. A volta levou meio século, e hoje a ilha tem menos de 200 moradores.

Ilha de Aogashima com o cone Maruyama dentro da caldeira.

Aogashima, ilhas de Izu, Japão

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O cheiro de enxofre chegou antes do barulho. Na primavera de 1785, o chão de Aogashima esquentou sob os pés de quem capinava os terraços de batata-doce, e a água dos poços começou a sair morna.

Em abril, a cratera do centro da ilha abriu. Cinza quente caiu sobre os telhados de palha, e pedras do tamanho de um punho rolaram pelas encostas até as primeiras casas.

Aogashima é uma ilha japonesa no Pacífico, a 358 quilômetros ao sul de Tóquio, pequena o bastante para ser atravessada a pé numa manhã. Naquele ano, os registros do xogunato (o governo militar que mandava no Japão da época) contavam 327 moradores.

A ilha não tinha porto abrigado. O desembarque era feito numa laje de pedra ao pé do penhasco, e só funcionava com o mar calmo.

As famílias desceram com o que conseguiam carregar e lotaram os barcos de pesca. Remaram para o norte, rumo a Hachijojima, a ilha habitada mais próxima, a uns 64 quilômetros.

Nem todos couberam nos barcos. Quase um terço da população ficou para trás e não sobreviveu à erupção. Quem chegou a Hachijojima foi abrigado em casas de parentes e em galpões cedidos pela vila.

Aogashima ficou vazia. Por meio século, só o vapor e as aves marinhas ocuparam os terraços abandonados.

Os sobreviventes e seus filhos tentaram voltar várias vezes. Barcos viravam na travessia, e as ondas contra o penhasco impediam o desembarque. A volta definitiva só se completou em 1835, sob o comando de um líder local, Sasaki Jirodayu, que reorganizou as famílias, replantou os campos e negociou com o governo o perdão dos impostos atrasados.

Hoje a ilha tem menos de 200 moradores, e o vulcão continua soltando vapor pelas frestas do chão.

Para entender como alguém volta a morar num lugar assim, com o chão ainda quente e o mar fechando o porto, o primeiro passo é olhar a ilha de cima e medir o tamanho dela.

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I  O mapa do dia

Uma panela de pedra no Pacífico

Da borda de pedra ao fundo quente da caldeira.

Aogashima pertence ao arquipélago de Izu, uma fileira de ilhas vulcânicas que desce da baía de Tóquio rumo ao sul. É a mais meridional das ilhas habitadas do grupo.

No papel, a ilha faz parte da Metrópole de Tóquio, a mesma administração da capital. Os moradores votam para governador de Tóquio, e as crianças seguem o calendário escolar das escolas da cidade grande.

A ilha tem perto de 6 quilômetros quadrados, com uns 3,5 quilômetros de comprimento e 2,5 de largura. Uma pessoa sem pressa contorna o anel inteiro pelo alto em poucas horas.

Vista de um avião, Aogashima parece uma panela. A borda é um anel de rocha que sobe direto do mar, e o ponto mais alto, o pico Otonbu, chega a 423 metros.

Dentro do anel há uma caldeira (a cratera larga que sobra quando o topo de um vulcão desaba), com cerca de 1,5 quilômetro de diâmetro. O fundo dela fica bem abaixo da borda, protegido do vento.

No centro da caldeira ergue-se um segundo cone, o Maruyama (Montanha Redonda), coberto de mata baixa. É o vulcão dentro do vulcão, o mesmo que abriu na erupção de 1785.

UM ANEL DE PENHASCOS

Quase não existe praia: a costa inteira é parede de rocha caindo no mar.

O povoado ocupa o planalto do norte, no alto da borda, onde o terreno é menos inclinado. Ali ficam a prefeitura, a escola, o posto de saúde, um mercado pequeno e as casas.

A caldeira funciona como quintal da vila. Guarda plantações, uma área de camping, uma sauna e as frestas de onde sai o vapor do vulcão.

Um túnel escavado na parede da cratera liga o planalto ao fundo da caldeira. Sem ele, descer até as plantações exigiria trilha íngreme pela encosta.

Hachijojima, a vizinha de 64 quilômetros ao norte, é a porta de entrada. Tem aeroporto com voos diários para Tóquio, hospital maior e comércio.

Ao sul, as próximas ilhas são rochedos sem moradores. A mais conhecida é Torishima, refúgio protegido do albatroz-de-cauda-curta, uma ave marinha que quase desapareceu no século 20.

O vento do Pacífico bate na ilha o ano inteiro, e a umidade é alta. Nuvens se prendem na borda da cratera e cobrem o planalto do norte de neblina em muitas manhãs.

Do alto do Otonbu, num dia limpo, o horizonte é só água em todas as direções, com Hachijojima como uma sombra azul ao norte.

 
 

II  O que tem ali

Vapor no quintal e nove assentos no céu

O censo nacional do Japão de 2020 contou 169 moradores em Aogashima. É o menor município do país em população.

Boa parte da vila trabalha para o serviço público: prefeitura, escola, posto de saúde, manutenção de estradas e do porto. Professores e enfermeiros costumam vir de fora por contratos de alguns anos.

Chegar exige paciência. Um helicóptero de nove assentos sai de Hachijojima uma vez por dia e faz a travessia em uns 20 minutos. Os lugares se esgotam semanas antes nas épocas de férias.

A outra opção é o barco de passageiros e carga que parte de Hachijojima em cerca de três horas. A viagem é cancelada com frequência, porque o porto de Sanbo fica virado para o mar aberto.

Em Sanbo, os barcos de pesca não ficam na água. Um guindaste os ergue até o cais de concreto ao pé do penhasco, longe das ondas que chegam a cobrir o quebra-mar.

O FOGÃO DO CHÃO

No fundo da caldeira, o vapor do vulcão sai quente o bastante para cozinhar comida.

Os moradores chamam essas frestas de hingya (palavra local para o buraco onde o vapor escapa da terra). Junto à sauna da caldeira existe um fogão geotérmico, uma caixa de pedra aquecida pelo vapor.

Quem visita leva ovos, batata-doce ou legumes numa cesta, deixa dentro da caixa e espera. Em meia hora a comida sai cozida, com um leve gosto de enxofre.

O mesmo calor serve para fazer sal. A água do mar é evaporada em tanques aquecidos pelo vapor, devagar, por vários dias, e o resultado é vendido como hingya no shio (sal do hingya).

A bebida da ilha é o aochu, um shochu (destilado japonês) de batata-doce. Cada produtora segue a própria receita de fermentação, e o lote varia de garrafa para garrafa.

A batata-doce chegou cedo à ilha porque cresce em solo vulcânico pobre e aguenta vento salgado. Os terraços de 1785 eram de batata-doce, e os de hoje também.

A vila tem uma escola só, que reúne os anos do primário e do ginásio no mesmo prédio. Em várias séries, a turma inteira cabe numa mesa.

O médico do posto atende o básico. Casos graves seguem de helicóptero para Hachijojima ou para Tóquio, e o tempo de espera depende do vento.

À noite, com pouca luz elétrica e nenhuma cidade por perto, a Via Láctea aparece nítida sobre a caldeira. O camping do fundo da cratera recebe visitantes que vão só para fotografar o céu.

 

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III  Por que a linha passa ali

Onde uma placa afunda sob a outra

Aogashima é um ponto numa fileira de vulcões com mais de 1.000 quilômetros, o arco de Izu-Bonin (cadeia de ilhas vulcânicas que vai de Tóquio às ilhas Ogasawara, chamadas Bonin pelos navegadores ocidentais).

A causa está no fundo do mar, a leste da ilha. Ali corre a fossa de Izu-Ogasawara, uma vala no leito do Pacífico com mais de 9.000 metros de profundidade.

Na fossa, duas placas tectônicas se encontram. A placa do Pacífico mergulha sob a placa do Mar das Filipinas, num movimento de alguns centímetros por ano.

A FRENTE VULCÂNICA

Os vulcões nascem numa linha paralela à fossa, todos mais ou menos à mesma distância dela.

O caminho do magma até a superfície segue quatro passos:

1. A placa do Pacífico, velha e pesada, afunda na fossa e desce inclinada para baixo do arquipélago.

2. Quando chega a uns 100 quilômetros de profundidade, o calor espreme a água presa nos minerais da rocha que afunda.

3. Essa água sobe para o manto logo acima e baixa o ponto de derretimento da rocha, que vira magma.

4. O magma, mais leve, sobe, fura a crosta e forma um vulcão bem em cima do ponto onde a placa atingiu essa profundidade.

Daí a fila de Oshima, Miyakejima, Hachijojima e Aogashima, alinhadas quase numa reta norte-sul. Cada uma marca o lugar onde a placa do Pacífico passa dos 100 quilômetros de profundidade.

A vizinha Miyakejima mostrou o risco em 2000. Uma erupção com gás tóxico obrigou os 3.800 moradores a deixar a ilha, e a volta só foi liberada em 2005.

Em Aogashima, a última erupção registrada é a de 1785. O vapor das frestas, a água morna e o chão quente da caldeira mostram o magma ainda perto da superfície.

Quem reconstruiu a vila em 1835 escolheu o planalto do norte, o ponto mais alto e mais distante do Maruyama. O povoado continua no mesmo lugar, e o fundo da caldeira ficou para a lavoura, o vapor e os visitantes.

A Agência Meteorológica do Japão classifica Aogashima como vulcão ativo e mantém sensores na ilha, com alerta no nível 1, o mais baixo da escala de cinco.

O boletim mensal de vulcões da agência sai na primeira semana de cada mês. Reconfira o nível de alerta de Aogashima na página de vulcões da agência, jma.go.jp, na primeira semana de dezembro, quando sai o boletim de novembro.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantos moradores os registros do xogunato contavam em Aogashima pouco antes da erupção de 1785?

A169 moradores
B200 moradores
C327 moradores
D64 moradores

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