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A terra solta cheira a chuva velha e esfarela entre os dedos como pó de café úmido. Na beira de uma lavoura da região de Poltava, no centro da Ucrânia, o barranco cortado por um trator mostra a cor do chão: preto até a altura da cintura de um adulto.
Esse chão tem nome próprio, chernozem (em ucraniano e em russo, literalmente "terra preta"). Ele cobre a maior parte das lavouras do país e explica por que a Ucrânia ganhou, ainda no século 19, o apelido de celeiro da Europa.
A cor vem do húmus (a matéria orgânica já decomposta, que segura água e nutrientes). Em solo comum de floresta, a camada escura mal passa de um palmo. No chernozem da estepe ucraniana, ela desce mais de um metro.
Nenhum agricultor fabricou essa camada. Ela começou como pó. Nas glaciações, as geleiras do norte moeram rocha até virar farinha, e o vento levou essa farinha para o sul, onde ela assentou em camadas sobre a planície.
O pó tem nome técnico, loess (sedimento fino trazido e depositado pelo vento), e forma a base de quase todo o chernozem. Por cima dele cresceu a estepe, um mar de capim alto sem árvores, e o capim fez o resto ao longo de milhares de anos.
O chão preto já foi peça de exposição em Paris, já mudou de mãos sob ocupação e, no século 21, virou assunto de lei sobre quem pode vender terra na Ucrânia. Tudo por causa de uma camada que qualquer pessoa reconhece a olho, sem laboratório.
A edição anda em três etapas: onde fica o cinturão de terra preta, o que existe dentro dela que a deixa tão fértil e por que o cinturão termina numa linha desenhada pelo clima.
O ponto de partida é o mapa, numa faixa que atravessa a Ucrânia de oeste a leste.
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I O mapa do dia
I, Uma faixa preta de oeste a leste
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Da floresta do norte à estepe do mar Negro, a faixa de terra preta.
O cinturão de chernozem ucraniano começa na Podólia, o planalto do oeste em torno de Vinnytsia, e corre para leste pelas regiões de Poltava e Kharkiv até o Donbas. Para o sul, ele desce pela estepe até perto de Odesa e Zaporizhzhia, a poucas centenas de quilômetros do mar Negro.
A faixa não para na fronteira. Ela continua pela Rússia, nas regiões de Kursk e Voronezh, e segue até o norte do Cazaquistão. Solos da mesma família aparecem nas Grandes Planícies dos Estados Unidos e nos pampas da Argentina, sempre sob campo nativo.
Quem desenhou esse mapa pela primeira vez foi o geólogo russo Vasily Dokuchaev. Entre 1877 e 1878, a pedido da Sociedade Econômica Livre de São Petersburgo, ele percorreu a estepe cavando trincheiras e anotando a cor e a espessura do chão.
O resultado saiu em 1883 no livro "O Chernozem Russo". Ali Dokuchaev defendeu que o solo é um corpo próprio, formado pela rocha, pelo clima, pelas plantas, pelo relevo e pelo tempo, e o livro é tratado hoje como a certidão de nascimento da pedologia (a ciência que estuda o solo).
TRÊS FAIXAS DE NORTE A SUL
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O território ucraniano se divide em três faixas de solo. No norte fica a Polissia, terra de floresta e pântano, com solo claro e arenoso. No meio fica a floresta-estepe, com o chernozem mais espesso. No sul fica a estepe aberta, com chernozem mais fino conforme o clima seca.
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A floresta-estepe é o miolo do cinturão. Ali, manchas de carvalho alternam com campo, e a camada escura alcança a maior espessura do país, passando de um metro nos perfis descritos por Dokuchaev em Poltava.
Kyiv, a capital, fica na borda norte dessa faixa, no ponto em que a floresta-estepe encosta na Polissia e o chão escuro começa a clarear.
O chernozem também viajou. Na Exposição Universal de Paris de 1900, um bloco de terra preta cortado inteiro, do topo até o loess, foi exibido como amostra da riqueza agrícola do Império Russo, e o pavilhão recebeu medalha.
Na Segunda Guerra Mundial, as tropas alemãs ocuparam a Ucrânia de 1941 a 1944, e o controle das lavouras de chernozem estava entre os objetivos declarados do plano de abastecimento do Reich. Circula a história de que trens levaram terra preta para a Alemanha; nenhum documento de transporte publicado até hoje comprova a carga, e os historiadores tratam o caso como lenda.
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II O que tem ali
II, Mil anos de raiz em cada palmo
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A espessura do chernozem nasce embaixo da terra. O capim da estepe, como a stipa (o capim-pluma de folha fina que cobria a planície), coloca a maior parte do corpo nas raízes, que descem fundo e se renovam todo ano.
Cada raiz que morre vira comida de fungo e bactéria. Na estepe, porém, o verão seco e o inverno gelado freiam esses decompositores durante boa parte do ano, e uma fração da raiz morta sobra como húmus, ano após ano, por milênios.
O loess entra com o cálcio. A poeira das geleiras é rica em carbonato de cálcio, e o cálcio se liga ao húmus e forma grumos (bolinhas de terra do tamanho de ervilhas) que não se desfazem com a chuva e deixam o ar e a água circularem.
Cada grumo funciona como esponja: guarda a água do degelo da primavera e a devolve às raízes no verão seco, o que permite plantar trigo e girassol sem irrigação em boa parte do cinturão.
COMO A CAMADA ESCURA ENGROSSA
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O húmus da estepe nasce das raízes que morrem dentro da terra, espalhadas por toda a profundidade que o capim alcança. Assim a camada escura desce até onde as raízes chegam, e cada geração de capim soma um pouco de carbono ao perfil.
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Os bichos completam o trabalho. Marmotas da espécie bobak e roedores chamados suslik (esquilos-terrestres da estepe) cavam tocas por gerações e misturam a terra de cima com a de baixo.
As tocas antigas viram krotovinas (galerias de bicho entupidas de terra de outra cor), manchas redondas que aparecem no barranco como furos preenchidos. Dokuchaev desenhou várias delas nos perfis do livro de 1883.
Quase nada sobrou da estepe original. O que se conhece melhor é a reserva de Askania-Nova, na região de Kherson, protegida desde 1898 pelo proprietário Friedrich Falz-Fein, onde trechos de capim nunca foram arados.
A reserva está sob ocupação russa desde 2022. Os pesquisadores ucranianos que mediam o solo virgem ali perderam o acesso, e o estado atual das parcelas de estudo não foi publicado desde então.
O arado gasta o que o capim acumulou. O Instituto de Ciência do Solo e Agroquímica Sokolovsky, de Kharkiv, registra em seus levantamentos uma queda do teor de húmus nas lavouras ucranianas desde os perfis medidos por Dokuchaev no século 19.
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