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A reta que deixa 94% dos chineses no sudeste
Em 1935, Hu Huanyong ligou Heihe a Tengchong e partiu a China em duas metades que quase não mudaram de peso.
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A linha Hu, de Heihe a Tengchong
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O vapor da fonte de Rehai sobe com cheiro de enxofre, e a água borbulha perto dos 100 graus numa bacia de pedra escura. Em volta, os vendedores de Tengchong, no oeste da província de Yunnan, cozinham ovos em cestos de bambu mergulhados na nascente. O município encosta na fronteira com Mianmar.
No extremo nordeste do país, o rio Amur corre largo diante de Heihe, na província de Heilongjiang. No inverno ele congela, e o gelo fica grosso o bastante para caminhões cruzarem até Blagoveshchensk, a cidade russa da margem norte.
Em 1935, o geógrafo Hu Huanyong ligou essas duas cidades de fronteira com uma reta sobre um mapa da China coberto de pontos, cada ponto marcando uma quantidade fixa de moradores. A reta caiu exatamente onde a mancha de pontos rareava.
Nas contas que ele publicou naquele ano na revista Dili Xuebao (Revista de Geografia, em chinês), a parte sudeste da reta guardava 36% do território e 96% da população do país. A parte noroeste, com 64% da terra, ficava com 4% das pessoas.
Passaram nove décadas, uma guerra civil, uma revolução e a transformação de aldeias de pescadores em metrópoles industriais. Pelo censo de 2020 do Escritório Nacional de Estatísticas da China, o país tinha 1,41 bilhão de habitantes. Pelas contas do Instituto de Ciências Geográficas da Academia Chinesa de Ciências com os censos deste século, cerca de 94% deles continuam no sudeste.
O governo chinês tentou mexer nesse desenho. Em novembro de 2014, numa visita à Academia Chinesa de Ciências, o então primeiro-ministro Li Keqiang parou diante do mapa de Hu e perguntou se a linha podia ser rompida. A pergunta ganhou apelido na imprensa chinesa e virou tema de pesquisa em universidades do país.
Para entender por que a resposta continua sendo quase sempre não, o começo é o traçado: de onde a reta sai, por onde passa e o que ela deixa de cada lado.
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I O mapa do dia
I, Uma diagonal de 3.750 quilômetros
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Uma diagonal que parte o mapa da China em duas metades desiguais.
A linha Hu leva o sobrenome de Hu Huanyong (1901-1998), geógrafo nascido em Yixing, na província de Jiangsu, que estudou em Paris e dava aulas na Universidade Central, em Nanquim, quando publicou o mapa. Mais tarde ele fundou o departamento de geografia da Universidade Normal do Leste da China, em Xangai.
A reta parte de Heihe, na margem sul do rio Amur, e desce em diagonal para sudoeste até Tengchong, no Yunnan. Em linha reta sobre a superfície da Terra, as duas cidades ficam a cerca de 3.750 quilômetros uma da outra.
No texto de 1935, a ponta norte aparece como Aihui, o nome antigo da cidade. Foi em Aihui que a China assinou com a Rússia, em 1858, o tratado que entregou aos russos a margem norte do Amur. Aihui foi incorporada a Heihe no fim do século 20 e hoje é um distrito dela.
Entre as duas pontas, a reta corta a Mongólia Interior, passa a noroeste de Pequim, atravessa o planalto de Loess (terreno coberto de pó fino trazido pelo vento) e desce pela borda oeste da bacia de Sichuan até as montanhas do Yunnan.
O QUE A CONTA MOSTROU
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Hu mediu a China em duas partes e achou 36% da terra com 96% da gente. A reta não segue rio, fronteira de província nem cordilheira: ela seguiu a borda da mancha de pontos que ele mesmo espalhou pelo mapa.
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Pelo lado sudeste ficam Pequim, Xangai, Cantão, Wuhan, Chongqing e Chengdu. Pelo noroeste ficam Lhasa, capital do Tibete, Urumqi, capital de Xinjiang, e Xining, capital de Qinghai, além das cidades pequenas da Mongólia Interior.
O censo chinês de 2020 mostra a desproporção província por província. Guangdong, no litoral sul, tinha 126 milhões de habitantes. O Tibete, com área quase sete vezes maior, tinha 3,65 milhões.
Xinjiang, a maior província do país, somava 25,9 milhões de moradores no mesmo censo, menos que a cidade de Chongqing sozinha, que passava de 32 milhões dentro dos seus limites municipais.
O mapa mostra onde a gente está. O próximo passo é descer ao chão e ver que terra, que água e que plantação existem em cada metade.
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II O que tem ali
II, Planícies de arroz, planalto e deserto
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A metade sudeste junta as grandes planícies aluviais da China (terras planas formadas pelo sedimento que os rios depositam). A do Norte da China foi construída pelo rio Amarelo; a do médio e baixo Yangtzé, pelo rio mais longo do país.
Nessas planícies a agricultura se divide numa faixa que os geógrafos chineses conhecem bem: a linha Qinling-Huai (a serra de Qinling somada ao rio Huai). Ao norte dela se planta trigo e milho; ao sul, arroz em várzeas e terraços, com duas colheitas por ano em boa parte do território.
A bacia de Sichuan, cercada de montanhas por todos os lados, é outro bolsão fértil do sudeste. O solo avermelhado e o clima úmido sustentam arroz, colza e chá, e a bacia abriga Chengdu e boa parte de Chongqing.
O litoral completa o quadro com portos. Xangai, na foz do Yangtzé, e o delta do rio das Pérolas, onde ficam Cantão, Shenzhen e Hong Kong, concentram as fábricas que puxaram migrantes do interior nas últimas quatro décadas.
O NOROESTE DE ALTITUDE E AREIA
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O planalto do Tibete tem altitude média acima de 4 mil metros e ocupa cerca de um quarto do território chinês. No ar rarefeito, a lavoura se limita à cevada de altitude nos vales mais baixos, e o resto do planalto serve de pasto ao iaque.
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Mais ao norte, a bacia do Tarim guarda o deserto de Taklamakan, um mar de dunas no centro de Xinjiang. A leste dele, o Gobi se estende pela Mongólia Interior e atravessa a fronteira com a Mongólia, com cascalho no lugar da areia na maior parte do chão.
A vida do noroeste se agarra à água das montanhas. Em Xinjiang, as cidades-oásis como Kashgar e Turpan nasceram no pé das cordilheiras, onde a neve derretida desce em rios curtos que somem na areia.
Em Turpan, os moradores cavaram os karez (canais subterrâneos que levam a água do degelo até as lavouras sem deixá-la evaporar no calor). Graças a eles a depressão de Turpan, uma das mais baixas do planeta, produz uva e passas famosas em toda a China.
Nas estepes da Mongólia Interior e nos planaltos do Qinghai e do Tibete, o modo de vida tradicional é o pastoreio: mongóis com rebanhos de ovelhas e cavalos, tibetanos com iaques. Pasto magro sustenta pouca gente por quilômetro quadrado, e a densidade baixa aparece nos pontos do mapa de Hu.
Cada metade, portanto, tem sua terra e seu jeito de comer dela. Falta explicar por que a fronteira entre as duas cai justamente nessa diagonal.
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