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ED 018

A passagem de 800 km que congelou a Antártida

Entre o cabo Horn e a Antártida passam mais de 100 milhões de metros cúbicos de água por segundo, a maior corrente do planeta.

Vista de satélite da Passagem de Drake, com o cabo Horn na ponta da América do Sul de um lado e as ilhas Shetland do Sul, na Península Antártica, do outro.

O mar entre o cabo Horn e a Antártida

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O navio deixa Ushuaia no fim da tarde e passa a noite inteira dentro do canal de Beagle, com montanha dos dois lados e água lisa como piso de cozinha. Quem embarca pela primeira vez costuma dormir tranquilo e achar que a fama era exagero.

Por volta das cinco da manhã, a terra acaba. O casco começa a bater de um jeito diferente, mais fundo, e o movimento deixa de ser balanço e vira queda. Copo preso na mesa, corrimão em todo corredor, saco plástico em cada esquina do convés interno.

A tripulação tem duas palavras para o que vem pela frente. Quando a travessia sai calma, com ondas de dois ou três metros, chamam de tanque. Quando sai brava, com ondas de oito a doze metros batendo de través, chamam de sacudida. Não existe rota alternativa: o navio entra ali ou não chega.

Nenhuma tempestade explica bem essa diferença de comportamento. A poucas horas dali, o mesmo navio atravessava água protegida. A latitude não mudou tanto, o vento nem sempre está mais forte, e o barco continua o mesmo.

O que mudou foi o que existe embaixo e ao redor. A partir daquele ponto, se você traçar um círculo em volta do planeta na mesma linha de latitude, o dedo não encontra nenhum continente pela frente. Nenhuma costa, nenhuma península, nenhuma barreira de terra em 360 graus.

Água que gira o mundo inteiro sem esbarrar em nada ganha uma inércia difícil de imaginar. Ela empurra, o vento empurra junto, e a onda cresce sem parede que a interrompa.

Essa faixa aberta é mais do que um problema de estômago para turista de expedição. Ela é a razão pela qual existe uma calota de gelo permanente no fundo do mapa e não uma floresta temperada.

Houve um tempo em que aquele pedaço de mar não existia, e a Antártida tinha árvore. O que separou os dois mundos foi a abertura de um corredor.

O mapa de hoje é essa faixa de água entre duas pontas de continente. Onde ela fica, o volume absurdo que passa por ela e por que a fronteira do gelo resolveu se instalar exatamente ali.

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I  O mapa do dia

Onde a terra acaba e a água dá a volta

Duas pontas de continente, um vão sem terra.

O extremo sul da América do Sul termina numa ilha pequena do arquipélago da Terra do Fogo, chamada Hornos. O penhasco escuro dela, com pouco mais de 400 metros de altura, é o cabo Horn, o marco que navegador usa há séculos como fim do continente.

Do outro lado, a Antártida não termina numa linha reta. Ela projeta um braço estreito para o norte, a Península Antártica, coroado pelo arquipélago das Shetland do Sul, com ilhas como a Rei George e a Livingston.

Entre a ponta de um e a ponta do outro fica a Passagem de Drake. A largura mais citada é de cerca de 800 quilômetros, medida entre o cabo Horn e as Shetland do Sul, o que faz dela o trecho mais apertado de todo o cinturão de mar que circunda a Antártida.

Apertado, ali, é um adjetivo relativo: em qualquer outra longitude do mesmo paralelo, a distância entre a Antártida e a terra mais próxima passa de 2.500 quilômetros. A passagem é o gargalo de um anel de água que não tem outro gargalo.

O fundo não ajuda a acalmar nada. A profundidade média fica na casa dos 3.400 metros, com trechos que passam de 4.800, e o relevo submarino é acidentado.

Um desses acidentes tem nome e importa muito. A Zona de Fratura Shackleton é uma cordilheira submarina que atravessa a passagem na diagonal, sobe do fundo abissal e chega a menos de mil metros da superfície em alguns pontos.

Quando uma corrente enorme esbarra numa cordilheira submersa, a água é obrigada a subir, se retorcer e formar redemoinhos. Boa parte da turbulência que o navio sente na superfície nasce nesse encontro entre o fluxo e o obstáculo lá embaixo.

Ao redor da passagem, o cenário completa o quadro. Ao norte, o arco das ilhas Malvinas e da Geórgia do Sul. Ao sul, o mar de Weddell, coberto de gelo boa parte do ano.

No meio, o Arco de Scotia, uma fileira curva de ilhas e cordilheiras submersas que liga, de forma quebrada, a ponta da América do Sul à ponta da Antártida. Ele é o restolho de uma conexão antiga, e guarda a chave do que aconteceu ali.

Nenhuma dessas ilhas, porém, chega a fechar o caminho. A água encontra brecha em todas as direções, e é justamente por isso que a maior corrente do planeta escolheu esse corredor.

 
 

II  O que tem ali

Cem milhões de metros cúbicos por segundo

A Corrente Circumpolar Antártica é o único fluxo de água que dá a volta completa no planeta. Ela corre de oeste para leste, empurrada pelos ventos que dominam a faixa entre os 40 e os 60 graus de latitude sul, e não tem começo nem fim.

O volume que passa pela Passagem de Drake é a medida oficial dessa corrente, porque ali o cinturão é mais estreito e mais fácil de instrumentar. Boias, cabos de fundo e satélites vigiam o corredor há décadas.

Os números do corredor cabem em poucas linhas:

Largura da passagem: cerca de 800 km

Profundidade média: cerca de 3.400 m

Ponto mais fundo: mais de 4.800 m

Volume transportado: mais de 100 milhões de m³ por segundo

Comparação com todos os rios do mundo somados: cerca de 100 vezes mais

Um número desses perde o sentido sem escala. A vazão do rio Amazonas na foz, a maior de qualquer rio, fica em torno de 200 mil metros cúbicos por segundo. A corrente que passa na Passagem de Drake carrega, a cada segundo, algo perto de 500 Amazonas.

A velocidade da água, porém, é modesta: menos de um metro por segundo na maior parte do corredor. O volume não vem de pressa, vem de profundidade, porque a corrente move a coluna inteira, do topo ao fundo abissal. É um rio de quatro quilômetros de altura.

Dentro do corredor, a água não é homogênea. Ela se organiza em faixas separadas por fronteiras térmicas, e a mais famosa é a Frente Polar Antártica, onde a temperatura da superfície cai vários graus numa distância de poucos quilômetros.

Navio que cruza a frente registra o degrau no termômetro em questão de horas. Ao norte dela, água de oito graus. Ao sul, água de dois, com neblina densa e o primeiro iceberg à vista.

A vida obedece à mesma divisão. Ao sul da frente, a água fria e rica em nutrientes sustenta o krill antártico, um crustáceo de poucos centímetros que forma cardumes visíveis do ar e alimenta baleia, foca, pinguim e lula.

Sobre a superfície, a passagem é a estrada dos maiores voadores do mundo. O albatroz errante, com envergadura que passa de três metros, aproveita o vento constante para planar por dias sem bater asa, e alguns indivíduos dão voltas completas no continente.

Para a navegação humana, o corredor tem história pesada. Antes do canal do Panamá, todo o comércio entre Europa e costa oeste das Américas dependia dessa curva no fim do mundo, e a expressão dobrar o Horn virou sinônimo de prova de marinheiro.

Hoje passam por ali navios de expedição, pesqueiros e barcos de pesquisa. O tráfego é pequeno, o clima é o mesmo, e a rota continua sendo a única maneira de chegar à Península Antártica sem avião.

 
 

III  Por que a linha passa ali

O corredor que se abriu e trancou o gelo

A Antártida nem sempre foi branca. Fósseis coletados na Península mostram floresta com faia austral, samambaia e até dinossauro em períodos mais antigos, num continente de clima temperado, cheio de vegetação.

A explicação começa na tectônica. Todos aqueles blocos de terra formavam o Gondwana, o supercontinente do hemisfério sul, e a Antártida ficava encostada na América do Sul, na África, na Austrália e na Índia.

O Gondwana se desmontou aos pedaços ao longo de dezenas de milhões de anos. A última conexão a se romper foi justamente a que ligava a ponta da América do Sul à Península Antártica, no lugar onde hoje o Arco de Scotia desenha uma curva quebrada de ilhas.

"O oceano Atlântico e o mar do Sul se encontram num campo largo e livre."

O Mundo Circunavegado por Sir Francis Drake, 1628.

A frase saiu do relato da viagem em que a esquadra inglesa, empurrada por uma tempestade para muito além do estreito de Magalhães, deu de cara com mar aberto onde os mapas prometiam continente. O nome do corredor vem daí.

A data da abertura ainda é discutida. As estimativas variam entre 50 e 30 milhões de anos atrás, dependendo do método, e a maioria dos trabalhos coloca a passagem funcionando como corredor profundo em algum ponto do Oligoceno.

O efeito da abertura, esse é bem menos controverso. Sem terra no caminho, a água pôde correr em círculo, e o cinturão circumpolar se fechou pela primeira vez.

Uma corrente que dá a volta no continente inteiro age como cerca térmica: ela impede que a água quente das latitudes tropicais desça até a costa antártica, e mantém o continente circulando no próprio frio. O isolamento não é de terra, é de temperatura.

O calendário geológico encaixa. Por volta de 34 milhões de anos atrás, na transição entre o Eoceno e o Oligoceno, o planeta atravessou um resfriamento brusco e a primeira grande calota de gelo se instalou sobre a Antártida oriental.

A ciência atual não credita tudo à passagem. A queda do gás carbônico na atmosfera ao longo do Eoceno é apontada como o outro motor do congelamento, e há debate ativo sobre qual dos dois puxou mais peso.

O que ninguém contesta é a conservação do resultado. A cerca de água impede o degelo por calor externo, e a calota antártica guarda cerca de 60% da água doce do planeta.

1. Localize o cabo Horn, no extremo sul da América do Sul, e desça em linha reta para o sul no mapa.

2. Pare nas ilhas Shetland do Sul, na ponta da Península Antártica. O vão entre elas e o Horn é a Passagem de Drake.

3. Agora gire o globo mantendo o dedo naquela latitude. Se ele não esbarrar em nenhuma terra na volta completa, você encontrou o cinturão.

A Passagem de Drake mostra uma inversão que o mapa esconde: o buraco no mapa, o pedaço onde não tem nada, foi o que mais mudou o clima da Terra. A ausência de terra ali vale mais que qualquer cordilheira.

"Que vãos abertos na sua vida estão fazendo mais trabalho que as suas paredes?"

 
 
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No texto, o volume de água que passa pela Passagem de Drake equivale a quantas vezes a vazão do rio Amazonas na foz?

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