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ED 015

A ilha que troca de país a cada seis meses

No rio Bidassoa, 6.820 m² de terra pertencem à Espanha de fevereiro a julho e à França no resto do ano, sem que ninguém se mude.

Vista aérea da ilha fluvial no meio do rio Bidassoa, entre a margem espanhola de Irun e a margem francesa de Hendaia.

A ilha sem morador no meio do Bidassoa

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No primeiro dia de fevereiro, dois oficiais de marinha se encontram na margem de um rio estreito, no extremo oeste dos Pirineus. Um deles é o comandante naval de uma cidade francesa. O outro comanda o distrito marítimo de uma província espanhola. Eles trocam algumas frases protocolares, assinam um papel e vão embora.

Não há tropa formada, não há hino, não há bandeira subindo em mastro. Nenhum morador precisa arrumar mala, porque não existe morador. Mesmo assim, no fim daquela conversa curta, um pedaço de território muda de país.

Seis meses depois, no primeiro dia de agosto, a mesma cena se repete ao contrário. O papel volta a ser assinado, a responsabilidade atravessa a água na direção oposta e a terra que era espanhola desde o inverno passa a ser francesa até o fim de janeiro.

A palavra técnica para o arranjo é condomínio. Em direito internacional, ela descreve o território sobre o qual dois ou mais Estados exercem soberania conjunta, sem que nenhum deles tenha o domínio exclusivo.

A maioria dos condomínios do mundo resolveu a convivência dividindo o espaço: uma metade para cada um, uma linha no meio, dois conjuntos de leis lado a lado. Este resolveu dividindo o calendário.

O território inteiro pertence a um país por seis meses e ao outro pelos seis meses seguintes, sem repartir um metro quadrado. É posse integral, alternada, com data marcada de entrada e de saída.

O arranjo funciona sem interrupção desde meados do século XVII, atravessou monarquias, repúblicas, duas guerras mundiais, ditaduras dos dois lados e a criação de um mercado comum europeu que apagou a fiscalização da fronteira ao redor.

E funciona justamente porque o objeto da disputa é pequeno, vazio e inútil do ponto de vista econômico. Não há casa, não há estrada, não há cais de embarque, não há nada para taxar, e a visita do público é proibida na maior parte do ano.

O que existe ali é um banco de areia consolidado, cercado de muro de pedra para não ser levado pela correnteza, com um punhado de árvores e um monumento no centro.

O mapa de hoje é essa ilha. Onde ela está, o que cabe dentro dela e por que dois países preferiram alternar a posse a simplesmente traçar uma linha no meio.

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I  O mapa do dia

O banco de areia entre Irun e Hendaia

Uma ilha fluvial de 6.820 m² com dois donos que se revezam.

O rio Bidassoa nasce no norte de Navarra, corre cerca de 70 quilômetros até o golfo da Biscaia e, no trecho final, deixa de ser um rio espanhol para virar a fronteira entre a Espanha e a França.

Nos últimos quilômetros, a margem esquerda é a cidade basca de Irun, na província de Guipúscoa. A margem direita é Hendaia, no departamento francês dos Pirineus Atlânticos. Entre as duas corre a água que separa os países.

No meio desse trecho existe uma ilha fluvial de 6.820 m², sem ponte, sem cais permanente e sem um único morador. Ela tem cerca de 200 metros no eixo mais longo e pouco mais de 40 metros na largura máxima.

Em espanhol ela se chama Isla de los Faisanes. Em francês, Île des Faisans. Em basco, Konpantzia. O nome dos faisões é provavelmente uma corruptela antiga, porque a ilha nunca foi conhecida por abrigar essas aves.

A distância até cada margem é de poucas dezenas de metros, e um barco a remo cruza esse braço de rio no tempo de umas poucas braçadas.

A ilha é plana, coberta de grama aparada e de algumas árvores altas. No centro dela há um monólito de pedra, erguido no século XIX, com inscrições em francês de um lado e em espanhol do outro.

O tamanho de hoje não é o tamanho original. Ao longo dos séculos, a correnteza e as cheias comeram as bordas do banco de areia, e o que sobrou é uma fração do que aparecia nos desenhos antigos.

A solução foi construir um muro de contenção em pedra em toda a volta, transformando a ilha numa espécie de tabuleiro elevado. Sem esse cinturão, o território teria simplesmente desaparecido do mapa, e com ele o condomínio.

A hidrografia local ainda complica a conta. O Bidassoa tem maré nesse trecho final e o nível da água sobe e desce todo dia, o que mexe com a linha de costa e alimentou séculos de discussão sobre onde exatamente termina cada país.

Para acabar com a dúvida, os dois lados combinaram no século XIX que a fronteira segue o talvegue, a linha imaginária que passa pelo ponto mais fundo do canal. A ilha, porém, ficou fora dessa regra.

Nenhum dos dois países aceitou vê-la cortada ao meio por uma linha no leito do rio. A saída foi tratá-la como um bloco único, com propriedade alternada, e o resultado é o menor condomínio internacional em vigor no planeta.

 
 

II  O que tem ali

Sem morador, com dois zeladores

A administração da ilha não está com prefeitura, com governo regional nem com ministério de relações exteriores. Ela está com a marinha dos dois países, na figura dos comandantes navais de cada lado.

Do lado espanhol, responde o comandante naval do Bidassoa, ligado a San Sebastián. Do lado francês, o comandante da marinha em Baiona. Cada um funciona como uma espécie de vice-rei temporário do território enquanto ele é do seu país.

O calendário do revezamento é fixo e não depende de negociação anual:

Área total: 6.820 m²

Sob soberania espanhola: de 1º de fevereiro a 31 de julho

Sob soberania francesa: de 1º de agosto a 31 de janeiro

Moradores permanentes: nenhum

Troca de comando: 2 cerimônias por ano

Nas duas datas, os oficiais se encontram, lavram uma ata e a soberania passa de um lado para o outro sem que nada mude fisicamente na ilha. É a mesma grama, o mesmo muro e o mesmo monólito, sob outra bandeira.

A manutenção prática, essa sim, é dividida na marra. A limpeza, a poda das árvores e o reparo do muro ficam a cargo das prefeituras de Irun e de Hendaia, que se alternam conforme quem está com a posse no momento.

O acesso do público é proibido durante quase todo o ano. Não há balsa regular, não há atracadouro aberto e não há placa convidando a visita. Quem quiser pisar ali precisa de autorização, e ela costuma sair apenas para visitas guiadas raras no verão.

A justificativa é prática e jurídica ao mesmo tempo. Um acidente ou um crime dentro da ilha exigiria decidir, na hora, qual polícia entra e qual código penal se aplica, e a resposta muda conforme o mês do calendário.

O detalhe que mais chama atenção é o que a ilha não tem. Não há energia elétrica, água encanada, endereço postal, número de telefone, imposto predial nem registro de imóvel em cartório de nenhum dos dois países.

Também não há bandeira permanente. Nenhum dos dois lados hasteia pavilhão fixo, porque metade do ano ele estaria no território do vizinho.

O que existe é a inscrição no monólito, colocada em 1861, lembrando o tratado que fez a fama do lugar e a conferência que aconteceu sobre aquela terra dois séculos antes.

A ilha é, no fim, um cartório a céu aberto. Ela não produz nada, não abriga ninguém e não defende nada. Serve para guardar a memória de um acordo e para provar, duas vezes por ano, que ele continua valendo.

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III  Por que a linha passa ali

O tratado de 1659 que nunca escolheu um dono

A ilha era ponto de encontro diplomático muito antes de ser condomínio. Como ficava exatamente no meio do rio de fronteira, ela oferecia o que nenhuma das duas margens conseguia oferecer: terreno em que nenhum rei estava recebendo o outro em casa.

Em 1526, foi ali que Francisco I da França, prisioneiro depois da derrota em Pavia, foi trocado pelos próprios filhos, entregues à Espanha como reféns no lugar do pai.

Em 1615, a mesma ilha serviu para a troca de duas princesas destinadas a casamentos cruzados entre as duas cortes, uma indo para o sul e a outra para o norte, no mesmo dia e no mesmo ponto do rio.

O uso decisivo veio em 1659. De agosto a novembro daquele ano, o cardeal Mazarino, pela França, e Luis de Haro, pela Espanha, se encontraram dezenas de vezes num pavilhão de madeira montado sobre a ilha para encerrar uma guerra que já durava vinte e quatro anos.

O acordo assinado ali em 7 de novembro de 1659 ficou conhecido como Tratado dos Pirineus. Ele redesenhou a fronteira dos dois reinos, entregou territórios à França no norte e no leste e selou o casamento entre Luís XIV e a infanta Maria Teresa.

"Os Pirineus, que antigamente dividiram as Gálias das Espanhas, serão também de agora em diante a divisão desses dois mesmos reinos."

Tratado dos Pirineus entre a França e a Espanha, artigo 42, 1659.

O artigo resolve a fronteira na escala da cordilheira e não desce ao detalhe do rio. Onde a serra acaba e a água começa, no trecho basco, o texto deixa margem para interpretação, e o local do próprio encontro ficou sem dono definido.

Reivindicar a ilha teria sido admitir que a conferência de 1659 aconteceu dentro do país do adversário, e nenhuma das duas cortes aceitava carregar essa leitura. O impasse era simbólico, e por isso mesmo não se resolvia com dinheiro.

A pendência atravessou dois séculos. Só em 1856, com o Tratado de Baiona, os dois países sentaram para fixar a fronteira metro a metro nos Pirineus ocidentais e chegaram ao trecho do Bidassoa.

A convenção assinada em seguida deu forma legal ao que a prática já fazia: propriedade comum da ilha, sem divisão física, com o exercício alternado da soberania em semestres definidos e a guarda entregue às autoridades navais.

1. Localize o golfo da Biscaia e desça até o ponto em que a fronteira franco-espanhola encontra o mar. O último rio antes do oceano é o Bidassoa.

2. Suba o rio um par de quilômetros, entre Irun e Hendaia. A mancha verde alongada no meio da água é a ilha inteira, do comprimento de dois campos de futebol enfileirados.

3. Olhe a data no calendário. Ela é quem responde de que país você está olhando, e a resposta muda no primeiro dia de fevereiro e no primeiro dia de agosto.

O arranjo sobrevive porque custa quase nada e evita uma conversa cara. Enquanto ninguém precisar da ilha para nada, dois países podem continuar sendo donos dela em turnos, e uma ata assinada na margem basta para manter a paz.

"Quantos acordos da sua vida continuam de pé só porque ninguém precisou testar de quem é a posse?"

 
 
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Em que data a ilha do Bidassoa passa a ser território francês?

ANo dia 1º de fevereiro
BNo dia 1º de agosto
CNo dia 7 de novembro, aniversário do tratado
DEm data sorteada a cada ano pelas duas marinhas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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