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ED 024

A ilha que o mar fechou com a cobra dentro

A 35 km de Itanhaém, a subida do oceano há 11 mil anos trancou numa ilha de 43 hectares uma serpente que não existe em nenhum outro lugar.

Costão rochoso e mata baixa da Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo.

A costa rochosa da Queimada Grande

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Os barcos de pesca que saem do litoral sul de São Paulo passam ao largo de um morro verde plantado no meio do mar aberto e seguem em frente. Ninguém encosta. Não é superstição de pescador, é regra escrita: o desembarque naquele pedaço de rocha depende de autorização da Marinha e do órgão ambiental federal, e sai com contrapartidas que nenhum passeio de fim de semana consegue cumprir.

A lista de exigências diz muito sobre o lugar. Grupo autorizado costuma embarcar com profissional de saúde junto, soro antiofídico refrigerado a bordo, plano de resgate combinado antes da saída e roupa que cobre a perna inteira. O tempo em terra é contado. O caminho é feito em fila, com um bastão longo abrindo a frente e outra pessoa olhando a copa das árvores, porque o perigo ali nem sempre está no chão.

Do outro lado da água, a menos de uma hora de lancha, existe cidade, quiosque, avenida beira-mar e criança na areia. A distância entre as duas realidades é curta em quilômetro e enorme em qualquer outro sentido. Um trecho de canal separa uma praia de veraneio de um dos poucos pontos do planeta em que a autoridade pública tomou uma decisão simples: melhor que ninguém entre.

O farol que existe no alto do morro funciona sozinho há mais de um século, aceso e apagado por mecanismo automático, sem faroleiro para trocar de turno. É o único sinal humano permanente de uma ilha que a legislação transformou em unidade de conservação e a prática transformou em laboratório fechado.

O que trancou aquele lugar não foi decreto nem cerca. Foi água. Uma subida do nível do mar que terminou milhares de anos antes de qualquer navegador português avistar a costa brasileira, e que isolou ali dentro uma linhagem de serpente sem nenhuma chance de voltar para o continente.

O mapa de hoje é esse morro cercado: onde ele fica exatamente, o que sobrou vivo lá dentro e por que a linha que separa aquilo do resto do Brasil passa justamente ali.

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I  O mapa do dia

Quarenta e três hectares no meio do canal

Quarenta e três hectares fechados a chave.

A Ilha da Queimada Grande fica no litoral sul do estado de São Paulo, a cerca de 35 quilômetros da costa de Itanhaém, em mar aberto, sem nenhuma outra terra firme entre ela e a praia.

Administrativamente ela pertence ao município de Itanhaém. Geograficamente ela não pertence a nada: é um bloco isolado de rocha e mata, com uma irmã menor por perto, a Queimada Pequena, e nenhum outro vizinho no raio de vários quilômetros de água.

O tamanho surpreende quem só ouviu falar dela. São aproximadamente 43 hectares, algo em torno de 43 campos de futebol somados, com o ponto mais alto perto de 206 metros acima do nível do mar.

Não existe praia de desembarque, não existe cais e não existe fonte de água doce permanente: quem chega encosta a embarcação em costão de pedra batido por onda e sobe agarrado na rocha. A própria geometria da ilha já filtra visita casual antes de qualquer norma.

A cobertura vegetal é um mosaico. Cerca de um terço da superfície ainda guarda remanescente de Mata Atlântica de encosta, e o restante alterna capim alto, afloramento rochoso e mata baixa deformada pelo vento salgado que bate sem obstáculo dos quatro lados.

O nome carrega a explicação de parte desse mosaico. Houve tentativa antiga de queimar a mata da ilha para abrir plantação de banana, iniciativa que fracassou pelo terreno íngreme e pela falta de água, mas deixou a marca no batismo e na paisagem.

No alto, o Farol da Ilha da Queimada Grande entrou em operação em 1909 para sinalizar aquele trecho de costa. Ele foi automatizado ainda na década de 1920, e desde então a ilha não tem morador.

A camada legal veio muito depois. Além do controle da Marinha sobre o farol e o acesso, a área virou unidade de conservação federal, com visitação restrita a pesquisa autorizada e manutenção do sinal luminoso.

O resultado prático é uma raridade no Brasil litorâneo: um pedaço de território nacional a menos de uma hora de lancha de uma cidade de veraneio onde a regra padrão é não entrar. E o que justifica a regra está inteiro lá dentro.

 
 

II  O que tem ali

O farol vazio e a serpente que ficou

O motivo do fechamento tem nome científico, Bothrops insularis, e nome de mapa, jararaca-ilhoa. Ela vive naquela ilha e em nenhum outro ponto do planeta, o que faz de 43 hectares a área de distribuição total da espécie.

Um adulto costuma medir entre 70 e 90 centímetros e tem coloração amarelada ou marrom-dourada, mais clara que a da jararaca comum do continente. A diferença de cor não é detalhe estético, combina com o tronco e a folha seca por onde ela passa a maior parte do tempo.

Ela não é uma serpente de chão: sobe em arbusto e em árvore e fica parada por horas em galho na altura do peito de uma pessoa, esperando pássaro pousar. É por isso que quem sobe a trilha olha para cima, e não só para baixo.

A história do bicho por metro quadrado ficou famosa e é falsa. As estimativas de população mais aceitas ficam na casa de alguns milhares de indivíduos na ilha inteira, densidade altíssima para uma serpente, mas longe da imagem de tapete de cobra que circula em vídeo de internet.

Quem mora e quem passa

A ilha não tem roedor terrestre nativo, e isso muda toda a cadeia. Sem rato disponível, o cardápio da jararaca-ilhoa é ave migratória que usa a ilha como parada de descanso em rota, principalmente durante as passagens sazonais.

O filhote resolve o problema de outro jeito enquanto não alcança presa emplumada. Registros de campo mostram juvenis se alimentando de lacraia e de outros invertebrados grandes, um cardápio de transição que o animal abandona quando cresce.

A vizinhança de escamas é curta. Além da jararaca-ilhoa, a ilha abriga uma serpente pequena e sem veneno do gênero Dipsas, especializada em molusco, e lagartos que aproveitam o costão. Fauna de ilha é sempre uma lista curta.

Um detalhe reprodutivo chama atenção dos pesquisadores. A população apresenta frequência incomum de indivíduos intersexuais, com características de macho e de fêmea no mesmo animal, algo raro em serpentes e associado ao isolamento e ao histórico populacional restrito da ilha.

A espécie está classificada em categoria de ameaça grave nas listas de conservação, e as pressões são conhecidas: coleta ilegal para tráfico de animais, incêndio em vegetação de ilha pequena, doença que se espalha rápido numa população fechada e qualquer supressão da mata que resta.

A conta é fria. Uma única temporada ruim em 43 hectares não tem para onde ser compensada, porque não existe população vizinha para repovoar o lugar. É por essa aritmética que a Marinha mantém a porta fechada, e não por medo de turista tomar uma picada.

Fica então a pergunta de fundo. Como um bicho vai parar sozinho num morro cercado de água, sem parente do outro lado e sem caminho de volta.

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III  Por que a linha passa ali

O mar subiu e fechou a porta

"A jararaca-ilhoa vive exclusivamente na Ilha da Queimada Grande, ao largo do litoral de São Paulo."

Serpentes do Brasil, Afrânio do Amaral, 1977.

A resposta começa num mapa que não existe mais. No auge da última glaciação, boa parte da água do planeta estava presa em geleira continental, e o nível do mar chegou a ficar cerca de 120 metros abaixo do de hoje.

Com o oceano nesse patamar, a linha de costa do sudeste brasileiro corria dezenas de quilômetros mais para dentro do que hoje é mar. O que chamamos de Queimada Grande era, naquele cenário, apenas um morro no meio de uma planície costeira colada ao continente.

Quando o gelo derreteu e o mar subiu, a água invadiu a planície, cobriu tudo que era baixo e parou no contorno atual: o topo do morro virou ilha e tudo que estava em cima virou prisioneiro, num corte que se completou há cerca de 11 mil anos. Nenhuma serpente atravessou nada, o chão embaixo dela é que sumiu.

A partir daquele dia, a população presa na ilha parou de trocar genes com a jararaca do continente. Duas linhagens que eram uma só passaram a evoluir separadas, cada uma sob pressão diferente, e a da ilha foi empurrada por uma pressão bem específica.

No continente, a jararaca come principalmente roedor: o bicho é mordido, foge alguns metros, morre por perto e a serpente segue o rastro pelo cheiro. Na ilha não existe roedor, e a presa disponível voa. Ave mordida que consegue levantar voo nunca mais é encontrada.

A seleção resolveu por potência. O veneno da jararaca-ilhoa é bem mais forte que o da parente continental na sua função de derrubar a presa rápido, porque só sobrevive melhor a linhagem que mata antes de o pássaro sair do galho. O tamanho menor do corpo e o hábito de subir em árvore completam o pacote insular.

Vale separar as duas linhas que passam ali, porque elas são de naturezas diferentes. Uma é geológica e antiga, desenhada pela água quando ela subiu e escolheu onde parar. A outra é jurídica e recente, desenhada em portaria, e existe só porque a primeira criou algo insubstituível.

1. Ache Santos no litoral de São Paulo e desça a costa até Itanhaém.

2. Saia da praia em direção ao mar aberto por cerca de 35 quilômetros, sem passar por nenhuma outra ilha.

3. Repare que não existe cadeia de ilhas ligando aquele ponto ao continente: o que existe é um morro submerso pela metade, e o pedaço seco é a ilha.

A Queimada Grande mostra que ilha não é só terra cercada de água, é tempo cercado de água. Onze mil anos depois do corte, o que ficou preso lá em cima virou o único exemplar de si mesmo no mundo inteiro, e a única defesa que sobrou para ele é a porta que continua fechada.

"O que na sua vida ficou do lado de dentro quando a maré subiu?"

 
 
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BLacraia e outros invertebrados grandes
CRoedor terrestre nativo
DLagarto de costão

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