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A ilha que o mapa aumenta 14 vezes
No planisfério de Mercator a Groenlândia parece do tamanho da África, e a deformação foi o preço combinado para o rumo virar linha reta.
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O planisfério que estica o norte
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Num navio do século 16, o piloto encosta a régua na carta, liga o porto de saída ao ponto de chegada e lê o ângulo que a reta faz com o meridiano mais próximo. Trinta e dois graus. O número passa para o timoneiro, o leme fica ali, e a agulha da bússola não sai daquela casa até a terra aparecer no horizonte.
A manobra parece óbvia hoje, e não era. Sobre uma esfera, manter sempre o mesmo rumo de bússola não produz o caminho mais curto nem uma linha reta. Produz uma curva que gira em torno do polo em voltas cada vez menores, e nas cartas antigas essa curva saía torta no papel.
O efeito prático era chato de resolver a bordo. Quem confiava na régua desembarcava longe do porto, e quem não confiava corrigia o rumo no olho, com a costa fora de vista.
Existe um jeito de fazer aquela curva virar reta no desenho. O jeito é deformar o desenho, de propósito e com método.
A regra é simples de enunciar e brutal de olhar. Quanto mais longe do equador, mais o mapa afasta um paralelo do outro, na mesma proporção em que já esticou a largura daquela faixa do mundo. A forma de cada trecho de costa continua fiel. O tamanho de cada trecho de costa cresce.
No alto da prancha, o crescimento deixa de ser exagero e vira outra coisa. Uma ilha coberta de gelo, encaixada entre 60 e 83 graus de latitude norte, aparece com a mesma largura de um continente inteiro que fica sentado em cima da linha do equador. Lado a lado, empatam.
Nenhuma das duas manchas está errada de forma. Uma delas está inflada, e a inflada é sempre a que fica mais perto do polo.
O mapa de hoje é esse planisfério e a ilha que ele engorda. Onde ele foi impresso, o que existe de verdade embaixo da mancha branca e por que os paralelos se afastam exatamente daquele jeito.
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I O mapa do dia
O retângulo que não fecha nos polos
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Um mapa de parede impresso em 1569, desenhado para o navegador e nunca para o professor.
O planisfério que Gerardus Mercator imprimiu em 1569 saiu de 18 chapas de cobre e, montado na parede, mede 202 centímetros de largura por 124 de altura. O título em latim já avisa para que serve: nova e ampliada descrição da Terra, corrigida e adaptada ao uso dos navegantes.
Restam três exemplares completos conhecidos, guardados em Basileia, Roterdã e Paris. O que existia no acervo de Breslávia não atravessou a Segunda Guerra.
O desenho é um retângulo, e retângulo não tem onde colocar polo. A prancha de 1569 para de crescer perto dos 80 graus norte e dos 66 graus sul, porque o método empurra cada polo para o infinito.
A grade explica o resto. Os meridianos aparecem como retas verticais, paralelas entre si e igualmente espaçadas do começo ao fim do papel, quando no globo eles se fecham em dois pontos.
Para manter o ângulo certo em cada esquina de costa, o mapa estica a altura na mesma medida em que a largura foi esticada. A medida é a secante da latitude: no equador vale 1, aos 60 graus vale 2, aos 70 graus quase 3, aos 80 graus quase 6.
Área cresce ao quadrado dessa medida. Aos 60 graus, quatro vezes. Aos 70, mais de oito. Aos 80, mais de trinta.
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O planisfério não erra a forma de nada. Ele erra o tamanho de tudo, e erra mais quanto mais longe do equador o lugar estiver.
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A África atravessa o equador de ponta a ponta, dos 37 graus norte aos 35 graus sul. É a parte do mundo que o método deforma menos, e sai no papel quase do tamanho que tem.
A Groenlândia começa aos 59 graus e 46 minutos norte, no cabo Farvel, e termina aos 83 graus e 40 minutos, na ilhota Kaffeklubben. O centro dela cai perto dos 72 graus, onde o método multiplica a área por volta de dez vezes.
Daí vem o empate visual. No planisfério, a ilha e o continente ocupam manchas de largura parecida. No chão, a Groenlândia tem 2,17 milhões de quilômetros quadrados e a África tem 30,37 milhões.
A conta fecha em catorze. Catorze Groenlândias entram dentro da África, e ainda sobra um pedaço do tamanho da Estônia.
O mesmo efeito trabalha em toda a borda de cima do desenho. O Alasca parece o Brasil e cabe quase cinco vezes dentro dele. A Escandinávia inteira parece maior que a Índia e é quase três vezes menor.
Nada disto foi acidente de impressão. Cada milímetro a mais entre dois paralelos foi calculado para resolver um problema que nada tinha a ver com ensinar tamanho a ninguém.
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II O que tem ali
O que existe debaixo do gelo
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A Groenlândia tem 2.166.086 quilômetros quadrados, e perto de 80% desse chão está debaixo de uma calota de gelo que chega a 3 mil metros de espessura.
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É a maior ilha do mundo, e quase toda ela é uma coisa só: gelo empilhado ao longo de centenas de milhares de anos, com volume estimado em 2,9 milhões de quilômetros cúbicos.
O peso da pilha afundou o terreno. No miolo da ilha, a rocha embaixo do gelo está abaixo do nível do mar. Se a calota derretesse inteira, o que sobraria pareceria menos uma ilha e mais um anel de terra alta em volta de um mar interior.
E o mar de fora subiria perto de 7 metros em todo o planeta.
A parte livre de gelo é uma moldura estreita na costa, com cerca de 410 mil quilômetros quadrados, recortada por fiordes que somam mais de 44 mil quilômetros de litoral.
Nessa moldura mora todo mundo: cerca de 56 mil pessoas, das quais perto de 19 mil em Nuuk, a capital.
Não existe estrada ligando uma cidade à outra. A ilha inteira tem algo em torno de 150 quilômetros de via pavimentada, e o transporte entre povoados é barco, avião, helicóptero, moto de neve ou trenó puxado por cães.
O nome do lugar também é uma deformação, e é bem mais antiga que o mapa. Por volta do ano 985, um colono islandês banido por três anos foi parar naquela costa, achou pasto no fundo dos fiordes do sul e voltou para recrutar gente.
Ele batizou a terra de verde.
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"Ele disse que os homens se sentiriam muito atraídos a ir para lá, se a terra tivesse um bom nome."
Saga de Érico, o Vermelho, capítulo 2, texto islandês do século 13.
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A colônia nórdica durou perto de 500 anos no sul da ilha, com fazenda, igreja de pedra e gado importado, e se apagou no século 15, quando o clima esfriou e a rota de navios rareou.
Hoje a ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, com autogoverno desde 2009, moeda dinamarquesa e orçamento sustentado em boa parte por repasse anual de Copenhague.
Quem chega de avião entende o problema do mapa antes de pousar. A janela mostra branco, e branco não tem escala: sem cidade, sem estrada e sem árvore, nada informa de que tamanho é o que passa embaixo.
Foi mais ou menos assim que a ilha entrou na cabeça de quem só a viu no papel. Grande, vazia e do tamanho de um continente.
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