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A ilha de 24 km que os mapas mostraram por 136 anos
Em 2012, um navio australiano parou sobre a ilha Sandy, no mar de Coral, e o sonar achou 1.400 metros de água.
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Mar aberto onde ficava a ilha Sandy
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O eco do sonar voltava fraco e atrasado, o som de um fundo muito distante. Em novembro de 2012, no mar de Coral, entre a costa de Queensland e a Nova Caledônia, o navio de pesquisa australiano Southern Surveyor avançava devagar sobre um ponto que a tela de bordo pintava de terra.
A tela mostrava a ilha Sandy, uma faixa estreita de uns 24 quilômetros de comprido, desenhada no meio do oceano. O Google Earth trazia a mesma ilha como uma mancha escura, e o atlas do The Times, publicado em Londres, também a registrava.
A carta náutica (o mapa que os navios usam para saber a profundidade) contava outra história. Naquele trecho, ela marcava água funda, sem recife e sem praia.
A bordo estava a geóloga Maria Seton, da Universidade de Sydney, que chefiava uma expedição de estudo do fundo do mar de Coral. A equipe desconfiou da diferença e decidiu passar por cima do ponto.
O navio cruzou a posição da ilha de ponta a ponta. Não havia areia, nem arrebentação, nem ave pousada. O ecobatímetro (o aparelho que mede a profundidade pelo tempo que o som leva para voltar do fundo) marcou cerca de 1.400 metros de água em todo o percurso, pelo registro divulgado pela Universidade de Sydney em novembro de 2012.
A notícia rodou o mundo em poucos dias. Uma ilha que aparecia em mapas havia mais de um século simplesmente não estava lá, e a pergunta seguinte era óbvia: de onde ela tinha saído?
A resposta pede três passos. Primeiro, onde exatamente os mapas punham a ilha e quem a registrou pela primeira vez. Depois, o que existe de fato naquele pedaço de mar, a 1.400 metros de profundidade e na superfície. Por último, como um contorno sem chão embaixo sobreviveu tanto tempo, copiado de carta em carta até chegar ao celular.
A trilha começa num navio baleeiro do século 19 e numa anotação de um capitão que via ondas quebrando onde não devia haver nada.
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I O mapa do dia
I, Um contorno sem dono no mar de Coral
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Do diário de um baleeiro ao polígono preto na tela.
A ilha Sandy, Sandy Island em inglês, ficava nos mapas a cerca de 19 graus de latitude sul e 159 graus de longitude leste. É um ponto a uns 1.100 quilômetros da costa australiana e a leste das ilhas Chesterfield, um arquipélago de ilhotas baixas que pertence à Nova Caledônia.
Pela posição, a ilha cairia dentro das águas administradas pela França, que governa a Nova Caledônia. O desenho mais comum era um fio alongado, de norte a sul, com uns 24 quilômetros de comprido e 5 de largura.
O registro mais antigo que se conhece saiu de um navio baleeiro. Em 1876, o Velocity, que caçava baleias no Pacífico Sul, anotou nessa região "heavy breakers", arrebentação forte, e pequenas ilhas de areia. A anotação foi encontrada pelo bibliotecário Shaun Higgins, do Museu de Auckland, na Nova Zelândia, em pesquisa publicada pelo museu em 2012.
A MARCA QUE ENTROU NA CARTA
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O Almirantado Britânico, o serviço da Marinha Real que desenhava as cartas náuticas do império, incluiu a ilha numa carta do mar de Coral de 1908, segundo o levantamento de Shaun Higgins. Dali ela passou para atlas e mapas de outras editoras.
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A marca foi mudando de fama nas décadas seguintes. Nos anos 1970, o serviço hidrográfico da França tirou a ilha das próprias cartas depois de não achá-la em sobrevoos e passagens de navio, segundo o artigo de Maria Seton e colegas publicado na revista Eos, da União Geofísica Americana, em 2013.
O corte francês não viajou. As cartas de outros países e os bancos de dados de litoral seguiram com o fio de areia, e foi num desses bancos que o Google buscou o contorno para o mapa digital.
O mesmo artigo da Eos rastreou o caminho. O contorno estava no World Vector Shoreline, um banco de litorais do mundo montado pelo serviço cartográfico militar dos Estados Unidos, e de lá entrou nos mapas digitais usados em navegação por satélite.
Na tela do Google Earth, a ilha aparecia como um polígono preto, sem foto de satélite por cima. O preto era o sinal do vazio: não havia imagem porque não havia terra a fotografar.
Os mapas mostram a posição, mas não mostram o que tem ali. A viagem do Southern Surveyor respondeu com o sonar, e a segunda parte desce até o fundo.
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II O que tem ali
II, O fundo que o sonar desenhou
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O Southern Surveyor era um navio de pesquisa do governo australiano, operado pela CSIRO, a agência nacional de ciência do país. Estava no mar de Coral para mapear o fundo e colher rochas que contam como a região se formou.
Na posição da ilha Sandy, o ecobatímetro desenhou uma planície funda, sem nenhum pico que chegasse perto da superfície. O ponto mais raso do trecho ficava perto de 1.300 metros, pelo registro da expedição de 2012.
UMA MONTANHA TERIA APARECIDO
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Para existir uma ilha ali, uma montanha submarina teria de subir 1.400 metros quase em linha reta. O sonar teria desenhado esse paredão na hora, e a tela de bordo mostrou só água funda de uma ponta à outra do percurso.
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Em volta há recifes de verdade. As ilhas Chesterfield e os recifes de Bampton, a oeste, são ilhotas de areia e coral que mal passam de poucos metros acima da maré, e costumam derrubar navios que chegam sem carta precisa.
Maria Seton explicou a surpresa em declaração divulgada pela Universidade de Sydney em 22 de novembro de 2012: "Ficamos desconfiados quando as cartas náuticas do navio mostraram 1.400 metros de profundidade numa área onde os nossos mapas científicos e o Google Earth mostravam uma ilha grande."
A equipe fotografou o horizonte vazio e publicou as imagens. O serviço hidrográfico da Austrália confirmou em seguida que suas cartas já não traziam a ilha.
Resta a pergunta sobre o Velocity: o que o capitão viu em 1876? O artigo da Eos de 2013 levanta a hipótese de uma jangada de pedra-pomes, a rocha vulcânica leve que flutua em placas depois de uma erupção submarina e pode parecer praia ao longe.
O fenômeno existe e foi visto na mesma região do Pacífico. Em agosto de 2012, a fragata HMNZS Canterbury, da Marinha da Nova Zelândia, atravessou uma jangada de pedra-pomes que o vulcão submarino Havre, nas ilhas Kermadec, tinha soltado semanas antes. A Marinha neozelandesa descreveu a placa como uma área de uns 400 quilômetros quadrados, clara o bastante para ser confundida com terra à noite.
Uma jangada assim flutua por meses, vai se partindo com as ondas e afunda quando as pedras se encharcam. Um baleeiro que passasse por uma delas veria arrebentação e areia clara, e na viagem seguinte não acharia mais nada.
Ninguém sabe com certeza. O diário do navio não traz desenho, medida nem data exata da observação, e não há como voltar ao mar de 1876 para conferir. A hipótese da pedra-pomes explica a ilha que some, mas nenhum registro da época a confirma.
A certeza está no fundo. O que falta explicar é como uma anotação de 1876 atravessou mais de um século de cartas, e a terceira parte segue o traço.
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