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A ilha de 1,3 km² que virou fronteira em 2022

Canadá e Dinamarca trocaram bandeira e garrafa na Ilha Hans por 38 anos, até riscarem uma linha no meio da rocha.

Ilha Hans vista do ar, a rocha de 1,3 km² no meio do estreito de Nares, entre Ellesmere e a Groenlândia.

Ilha Hans, rocha partida em duas em 2022

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O rotor do helicóptero ainda girava quando as botas afundaram no cascalho gelado da Ilha Hans. Era 1984, o ministro dinamarquês para a Groenlândia tinha voado de Copenhague até quase 81 graus de latitude norte, e trazia consigo um mastro, uma bandeira e uma garrafa de aguardente. Fincou o mastro num pedaço de rocha sem árvore, sem água doce, sem uma única construção e sem ninguém morando. Ao pé do mastro deixou a garrafa e um bilhete de uma linha: bem-vindo à ilha dinamarquesa.

A resposta canadense veio no mesmo formato, meses depois. Uma tripulação desembarcou, recolheu a bandeira vizinha, ergueu a folha de bordo no mesmo mastro e deixou uma garrafa de uísque canadense com outro bilhete: bem-vindo ao Canadá. Quando um navio ou um helicóptero de um dos dois países passava por perto nos anos seguintes, o ritual se repetia. Trocava a bandeira, trocava a garrafa, ficava a rocha.

O terreno em disputa tem 1,3 quilômetro quadrado. É pouco mais de um quilômetro de ponta a ponta, cinza, gelado nove meses por ano e batido por vento que corre pelo estreito de Nares, o corredor de água que separa o Ártico canadense da Groenlândia. Não há porto, não há jazida conhecida em terra, não há pista de pouso. Há cascalho, líquen e uma fenda que corta o platô no sentido norte-sul.

A origem do impasse é de papel. Em 1973, Canadá e Dinamarca assinaram um acordo que traçou uma das fronteiras marítimas mais longas do planeta, subindo pelo estreito por dezenas de pontos numerados. Ao chegar na ilha, os negociadores fizeram a linha parar na praia do lado sul e recomeçar na praia do lado norte. O trecho de terra entre os dois pontos ficou de fora do texto, sem dono declarado, e assim permaneceu por quase cinco décadas.

Em 14 de junho de 2022, os dois governos assinaram em Otava o acordo que partiu a ilha ao meio. O Canadá acordou naquele dia com uma fronteira terrestre com um país europeu, a primeira da sua história. A linha nova não foi inventada numa mesa: ela desce por uma feição que já estava no chão.

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I  O mapa do dia

Uma rocha no meio do canal congelado

Duas potências passaram 38 anos disputando 1,3 quilômetro quadrado de cascalho.

A Ilha Hans fica em torno de 80 graus e 49 minutos de latitude norte e 66 graus e 27 minutos de longitude oeste, dentro do canal Kennedy, o trecho central do estreito de Nares. Ao ocidente está a ilha de Ellesmere, território de Nunavut, no extremo norte do Canadá. Ao oriente está a costa noroeste da Groenlândia, território autônomo dentro do Reino da Dinamarca.

O canal ali tem cerca de 35 quilômetros de largura. A ilha ocupa aproximadamente o centro do vão, e a distância dela até cada margem cabe folgada dentro das 12 milhas náuticas de mar territorial que os dois países reivindicam a partir das suas costas. Foi essa posição, e não uma riqueza escondida, que produziu a briga: pela geometria do direito do mar, cada lado tinha argumento igualmente sólido para chamar a rocha de sua.

A superfície é um platô inclinado, sem cobertura vegetal além de líquen e musgo raro, com penhascos baixos no lado leste e uma rampa de cascalho no lado oeste, por onde os desembarques acontecem. O gelo marinho fecha o canal boa parte do ano e às vezes encosta na ilha, o que permite que urso-polar e raposa-do-ártico cheguem a pé sem que nada ali seja permanente.

O NOME QUE VEIO DE UM GUIA INUIT

O topônimo em uso internacional homenageia Hans Hendrik, viajante inuit da Groenlândia que serviu como guia, caçador e intérprete em expedições árticas americanas no século 19. Os inuit de Nunavut e da Groenlândia chamam a ilha de Tartupaluk, palavra que descreve a silhueta dela vista de cima, parecida com um rim.

Nenhum dos dois países jamais manteve pessoa, casa ou instalação fixa na Ilha Hans: em 38 anos de disputa, a ocupação se resumiu a visitas de horas, um mastro reposto de tempos em tempos e placas de metal parafusadas na rocha.

A caça e a pesca no entorno seguem sendo feitas por famílias inuit dos dois lados do canal, que cruzam o gelo desde muito antes de qualquer linha ser desenhada em carta náutica. Para elas, o estreito nunca funcionou como divisor, e sim como caminho.

O que sobrou de tudo é uma pergunta prática. Se ninguém mora ali e não há nada para extrair da superfície, por que dois países ricos gastaram quase quatro décadas insistindo?

 
 

II  O que tem ali

Trinta e oito anos de bandeira, garrafa e bilhete

A insistência tinha forma de ritual. A partir de 1984, cada visita oficial repetia o mesmo roteiro em três atos: retirar o símbolo do vizinho, plantar o próprio, deixar bebida nacional na base do mastro para quem chegasse depois. A imprensa dos dois países batizou o hábito de guerra do uísque, e o apelido pegou justamente porque nunca houve arma envolvida.

Do lado dinamarquês, o item deixado era aguardente. Do lado canadense, uísque de rótulo canadense. Os bilhetes acompanhavam a garrafa e diziam sempre a mesma frase de boas-vindas em nome do país da vez. Nenhuma das visitas durou mais que algumas horas, porque o clima do canal Kennedy não perdoa quem fica.

A disputa esquentou em 2004 e 2005. Uma expedição militar canadense desembarcou e ergueu a bandeira, o ministro da Defesa do Canadá pisou na ilha em julho de 2005, e o governo dinamarquês registrou protesto formal em Otava. No mesmo período, grupos de ativistas dos dois países compraram anúncios em buscadores para aparecer a quem pesquisasse pelo lugar, cada um afirmando a soberania da sua bandeira.

Ainda em 2005, os dois governos publicaram uma declaração conjunta em que se comprometiam a avisar o outro lado antes de qualquer nova visita e a continuar procurando solução. A frequência das trocas caiu, mas o mastro seguiu mudando de bandeira, e a garrafa seguiu sendo reposta.

Em 2018, Canadá, Dinamarca e Groenlândia montaram um grupo de trabalho conjunto com uma tarefa única: encontrar um desenho de fronteira que os três pudessem assinar, incluindo a Ilha Hans, o mar de Lincoln e um trecho pendente no mar do Labrador.

O grupo levou quatro anos. O resultado foi assinado em Otava em 14 de junho de 2022 pelas chefes da diplomacia dos dois países e pelo representante do governo groenlandês, e resolveu de uma vez os três pontos que sobravam da negociação de 1973.

"Este acordo manda uma mensagem clara de que fronteiras podem ser resolvidas sem conflito."

Mélanie Joly, ministra dos Negócios Estrangeiros do Canadá, declaração na assinatura do acordo de fronteira, Otava, 14 de junho de 2022.

O texto assinado também protegeu o uso antigo do lugar. Ele garante que caçadores e pescadores inuit continuem circulando livremente pela ilha inteira e pelo entorno, sem checagem de passaporte, independentemente do lado em que estiverem pisando.

Com a assinatura, a rocha deixou de ser terra sem dono e passou a ter duas metades com endereço. A escolha de onde exatamente passar a linha foi o detalhe mais interessante do acordo.

 

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III  Por que a linha passa ali

A fenda que fez o trabalho da caneta

O acordo de 2022 não cortou a ilha por uma reta de coordenadas nem pela linha média entre as duas costas. A divisória segue uma feição natural do terreno, uma fenda que atravessa o platô de norte a sul e é visível de qualquer foto aérea. O lado ocidental ficou com o Canadá, o lado oriental com o Reino da Dinamarca, numa proporção aproximada de seis para quatro em favor do lado canadense.

A escolha resolve dois problemas ao mesmo tempo. Uma fronteira que acompanha acidente de relevo é reconhecível no campo sem instrumento, e uma fronteira que já existe no chão dispensa marco construído, algo caro de manter num lugar onde o gelo empurra tudo que é fixado na rocha.

O acordo fez muito mais que dividir 1,3 quilômetro quadrado. Ele fechou o traçado no mar de Lincoln, ao norte, onde os dois países discordavam sobre como tratar duas ilhotas no cálculo da linha média, e definiu o limite pendente no mar do Labrador, ao sul. A fronteira marítima resultante entre Canadá e Reino da Dinamarca passou a ser uma das mais extensas do mundo entre dois Estados.

A consequência que mais chamou atenção é geográfica. O Canadá nunca havia tido divisa terrestre com nenhum país além dos Estados Unidos. Desde 14 de junho de 2022, ele tem 1.280 metros de fronteira em terra com o Reino da Dinamarca, e portanto com um Estado da Europa, cravados num platô de cascalho no Ártico alto.

1. Ache a Groenlândia no mapa e suba pela costa noroeste dela até o ponto em que o canal entre a Groenlândia e a ilha de Ellesmere fica mais estreito.

2. Repare que o corredor de água ali é contínuo, sem ilha grande no meio, o que faz qualquer mancha de terra saltar aos olhos.

3. Procure a mancha minúscula bem no centro do canal, na altura do paralelo 80 e meio. Aquele ponto é a Ilha Hans, e a fronteira passa por dentro dele.

Do ar, a metade canadense e a metade dinamarquesa são indistinguíveis: mesma rocha cinza, mesmo líquen, mesmo vento. A linha só existe no papel e na fenda que os negociadores decidiram seguir, e nenhum dos dois países mantém alguém ali para vigiá-la.

"Quantas fronteiras que você considera antigas foram assinadas depois que você nasceu?"

O texto integral do acordo, com as coordenadas dos pontos de divisa e o mapa anexo, está publicado na página de tratados do governo do Canadá e no site do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca. Reconfira a área de cada metade e a extensão da linha terrestre nessas duas páginas oficiais antes de repetir qualquer número desta edição.

 
 

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AUma votação entre famílias inuit que caçam na região
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CUma fenda natural que já cortava o platô de norte a sul
DUm sorteio conduzido pelas Nações Unidas

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