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O ar a 3.200 metros de altitude no paso de Los Libertadores entra gelado e seco, e a poeira de rocha moída range entre os dentes de quem desce do ônibus. A placa de metal que marca o limite chia com o vento. Vinte metros adiante, a água que escorre do talude já desce em direção ao outro oceano.
O Chile ocupa uma faixa comprida e estreita na costa oeste da América do Sul. O Instituto Geográfico Militar do Chile registra 4.270 quilômetros entre o extremo norte, na fronteira com o Peru, e o Cabo de Hornos, com largura média de 177 quilômetros entre a crista dos Andes e o Pacífico.
A largura muda pouco ao longo desse comprimento todo. O trecho mais largo fica na região de Antofagasta, com cerca de 445 quilômetros, e o mais apertado, na altura de Illapel, tem cerca de 90 quilômetros. Em quase toda a extensão do país, um carro cruza do limite cordilheirano até a praia numa manhã de estrada, sem parar para dormir no caminho.
O desenho desse corredor tem documento de origem. O Tratado de Limites assinado por Chile e Argentina em 23 de julho de 1881 mandou correr a fronteira pelas cumeeiras mais altas da cordilheira que dividem as águas, o divortium aquarum (a linha que separa as bacias que escoam para cada lado).
A frase carrega duas ordens dentro dela: seguir os pontos mais altos e seguir o divisor das bacias. Nos Andes do sul, os dois comandos apontam para lugares distintos, porque rios nascidos a leste dos picos cortam a cordilheira e vão desaguar no Pacífico. A disputa que nasceu dessa ambiguidade durou vinte anos e terminou num laudo arbitral britânico.
Vale começar pelo traço no mapa: onde ele arranca, onde termina e o que cabe entre a montanha e a arrebentação.
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I O mapa do dia
I, Um fio de terra entre a cordilheira e o mar
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Um corredor de 4.270 km preso entre dois muros.
O Chile continental se estende do paralelo 17°30' sul, no limite com o Peru, até o paralelo 56° sul, no Cabo de Hornos. Faz fronteira terrestre com o Peru ao norte, com a Bolívia no nordeste e com a Argentina a leste, por uma linha de aproximadamente 5.300 quilômetros, segundo o Instituto Geográfico Militar do Chile, uma das mais compridas do planeta.
A capital, Santiago, fica no meio dessa faixa, num vale encaixado entre a cordilheira dos Andes e a cordilheira da Costa, a cerca de 550 metros de altitude e a 100 quilômetros do porto de Valparaíso. Mais de um terço da população do país vive nessa bacia.
O território não termina no continente. A Ilha de Páscoa, Rapa Nui no idioma do povo que a habita, fica a cerca de 3.500 quilômetros da costa e é província da região de Valparaíso; o arquipélago Juan Fernández fica a 670 quilômetros.
O CORREDOR QUE NÃO ALARGA
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O comprimento de 4.270 quilômetros do Chile equivale à distância em linha reta entre Oslo, na Noruega, e o Cairo, no Egito, e o país atravessa 38 graus de latitude com largura média de 177 quilômetros: o território muda de clima a cada poucas horas no eixo norte-sul e quase não muda no eixo leste-oeste.
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O norte começa em deserto absoluto. O Atacama cobre cerca de 105 mil quilômetros quadrados, e a estação meteorológica de Quillagua, operada pela Dirección Meteorológica de Chile, registra médias anuais de chuva próximas de zero, o que a coloca entre os pontos habitados mais secos já medidos.
O centro concentra a agricultura. O Valle Central, entre Santiago e Concepción, recebe chuva de inverno e verão seco, o padrão que sustenta as vinhas do Maipo e do Colchagua.
O sul desmancha a linha da costa. A partir de Puerto Montt, o litoral vira um labirinto de fiordes, canais e ilhas: Chiloé, o arquipélago dos Chonos, a península de Taitao, e depois o Estreito de Magalhães, que separa o continente da Terra do Fogo e leva ao porto de Punta Arenas.
Desenhado o corredor, cabe olhar o que está guardado dentro dele.
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II O que tem ali
II, Gelo, salitre e cobre ao longo da linha
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A fronteira alta guarda o vulcão ativo mais alto do planeta. O Ojos del Salado, com 6.893 metros de altitude, fica sobre o limite entre Chile e Argentina, na altura da região de Atacama, e tem uma lagoa permanente perto do cume, a cerca de 6.480 metros.
O pico mais alto das Américas ficou fora do Chile. O Aconcágua, com 6.961 metros, se ergue inteiramente em território argentino, a poucos quilômetros a leste da linha, porque o divisor das águas passa a oeste dele.
O Servicio Nacional de Geología y Minería do Chile cataloga cerca de 90 vulcões considerados geologicamente ativos no país, entre eles o Villarrica e o Llaima, na região da Araucanía, os dois com erupções recentes.
O deserto do norte pagou a conta de duas guerras. O salitre, nitrato de sódio usado como fertilizante e na fabricação de explosivos, sustentou a economia chilena entre 1880 e 1920, com oficinas como Humberstone e Santa Laura, hoje sítio da Unesco, e foi o motivo econômico da Guerra do Pacífico, travada entre 1879 e 1883.
O QUE A GUERRA MOVEU NO MAPA
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O Tratado de Ancón, assinado com o Peru em 20 de outubro de 1883, transferiu Tarapacá ao Chile, e o tratado de paz com a Bolívia, assinado em 20 de outubro de 1904, fixou a posse chilena de Antofagasta e deixou a Bolívia sem costa própria, perda que a Bolívia levou à Corte Internacional de Justiça, que decidiu em 2018 não haver obrigação chilena de negociar saída ao mar.
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O mineral que sustenta o país hoje é outro. O Chile respondeu por cerca de um quarto da produção mundial de cobre em 2023, segundo o Mineral Commodity Summaries publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos em 2024, com as minas de Chuquicamata e Escondida no deserto do norte, as duas a mais de 2.000 metros de altitude.
O extremo sul guarda gelo continental. O Campo de Hielo Sur cobre cerca de 16.800 quilômetros quadrados repartidos entre Chile e Argentina, segundo o Instituto Nacional de Estadística chileno, e alimenta as geleiras Perito Moreno, do lado argentino, e Grey, dentro do parque Torres del Paine.
O GELO QUE AINDA NÃO TEM LINHA
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O acordo de limites assinado por Chile e Argentina em 16 de dezembro de 1998 resolveu a maior parte da fronteira sobre o Campo de Hielo Sul, mas deixou pendente um trecho de cerca de 50 quilômetros entre o monte Fitz Roy e o cerro Murallón, onde a demarcação segue sem traçado definitivo e os dois países publicam mapas oficiais com desenhos distintos nessa faixa.
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Descrito o que a linha atravessa, falta a razão de ela passar exatamente ali.
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