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O primeiro tesouro do Atacama estava na superfície, numa crosta dura chamada caliche. Dentro dela ficava o salitre, nitrato de sódio, matéria-prima de fertilizante e de explosivo, acumulado justamente porque nitrato é solúvel e chuva nenhuma passou por ali para dissolver o depósito.
Entre 1880 e 1920 essa crosta sustentou a economia chilena. Chegou a responder por perto da metade da receita do Estado e encheu a pampa de acampamentos operários com moeda própria, as oficinas salitreras.
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O ciclo morreu numa bancada de laboratório: quando Fritz Haber e Carl Bosch fecharam o processo de fixar nitrogênio do ar, entre 1909 e 1913, o nitrato do deserto perdeu a exclusividade e a pampa esvaziou em poucas décadas.
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Humberstone e Santa Laura, duas dessas cidades abandonadas, viraram Patrimônio Mundial da Unesco em 2005.
O que ficou embaixo é mais valioso. O Salar de Atacama, uma bacia de cerca de 3.000 quilômetros quadrados de crosta salgada, guarda salmoura com uma das maiores concentrações de lítio conhecidas, e sozinho responde por uma fatia relevante da produção mundial do metal que abastece bateria.
Perto dali fica o cobre: Chuquicamata e Escondida, a maior produtora do mundo, estão na mesma faixa seca.
O ar do lugar virou produto também. Sem nuvem de chuva e com pouquíssimo vapor de água a 5.000 metros de altitude, o planalto de Chajnantor recebeu o ALMA, conjunto de 66 antenas de rádio que observa o céu em milímetro, faixa que vapor de água estraga.
Nos morros da Cordilheira da Costa estão os telescópios ópticos: Paranal, La Silla e o Extremely Large Telescope, em construção no Cerro Armazones. Sítio de telescópio se escolhe por noites limpas por ano, e ali passam de 300.
A vida que existe no meio disso bebe neblina, não chuva. A camanchaca é um banco de nuvem baixa que entra do mar e sobe as encostas, e dela vivem líquens, cactos e os tapetes de Tillandsia, plantas que se agarram na areia sem raiz funcional.
Gente copiou a planta. Em Chungungo foram instalados atrapanieblas, telas verticais que peneiram a camanchaca e escorrem a água para um tanque, capazes de render vários litros por metro quadrado em dia bom.
E de tempos em tempos o chão desmente a fama. Quando o El Niño empurra chuva anômala sobre a borda sul, sementes paradas anos no solo estouram todas juntas e pintam quilômetros de areia de rosa e amarelo, no episódio que os chilenos chamam de deserto florido.
Os números que sustentam o lugar cabem numa lista curta:
Extensão: cerca de 1.000 km no sentido norte-sul
- Chuva no núcleo hiperárido: abaixo de 1 mm por ano
- Idade da aridez: 10 a 15 milhões de anos
- Altitude de Chajnantor: cerca de 5.000 m
- Salar de Atacama: cerca de 3.000 km² de crosta salgada
- Noites limpas por ano nos observatórios: mais de 300
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Nada disso existiria se chovesse. A pergunta que sobra é mecânica: o que exatamente segura a água antes de ela chegar nessa tira de chão.
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