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ED 021

A faixa de mil quilômetros onde o pluviômetro fica vazio

Duas barreiras seguram a água antes que ela chegue ao norte do Chile, e o resultado é um chão que preserva múmias de sete mil anos.

Vista da pampa do deserto do Atacama, no norte do Chile, entre a Cordilheira da Costa e os vulcões dos Andes, sob céu sem nuvem.

A pampa do Atacama entre o mar e os Andes

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Em Quillagua, um povoado encostado na margem de um rio salgado no norte do Chile, existe uma estação meteorológica que já passou temporadas inteiras sem escrever um número diferente de zero. A média anual medida ali fica abaixo de meio milímetro, e há séries longas em que o instrumento simplesmente não teve o que anotar.

Meio milímetro é menos água do que evapora de uma xícara esquecida em cima da mesa numa manhã. Numa cidade brasileira de porte médio caem entre 1.200 e 1.800 milímetros por ano. A diferença não é de grau, é de ordem de grandeza: algo perto de três mil vezes.

Nessa faixa a secura não é estação nem ciclo, é regime permanente. Em alguns trechos o chão perdeu a capacidade de sustentar vida comum: em 2003, uma equipe publicou na revista Science que amostras de solo colhidas perto de Yungay não devolveram praticamente nenhum sinal de atividade microbiana, e que ensaios parecidos com os das sondas Viking não acharam matéria orgânica detectável.

Por causa desse resultado o lugar virou campo de treino de robô. Agências espaciais levam para lá protótipos de sonda marciana, brocas e sensores de vida, porque é o pedaço de Terra que mais se parece com o solo que essas máquinas vão encontrar em outro planeta.

A mesma ausência de água também guarda o que cai nela. As múmias Chinchorro, feitas por pescadores dessa costa, têm cerca de sete mil anos e são as múmias preparadas intencionalmente mais antigas conhecidas, milhares de anos mais velhas que as do Egito.

E o chão que não é lavado por chuva nenhuma acumula em camadas aquilo que em outro clima escorreria para o mar. Foi assim que uma crosta de sal empilhada na superfície virou o produto de exportação que sustentou um país inteiro e mudou fronteiras a bala.

O mapa de hoje é essa tira comprida espremida entre o oceano e a cordilheira. Onde ela começa e onde termina, o que existe dentro dela, e por que exatamente ali a água que abastece o continente todo não consegue chegar.

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I  O mapa do dia

A tira espremida entre o oceano e a cordilheira

Chuva em frações de milímetro por ano.

O Atacama ocupa o norte do Chile, num corredor comprido que corre paralelo ao Pacífico. Vai mais ou menos da fronteira com o Peru, na altura de Arica, até a região de Copiapó, o que dá perto de mil quilômetros de extensão no sentido norte-sul.

A largura é modesta. Entre o litoral e o pé dos Andes cabem em torno de 100 a 150 quilômetros, dependendo do trecho, e essa estreiteza é parte da explicação.

O terreno se organiza em três degraus paralelos. Primeiro a Cordilheira da Costa, uma muralha que em pontos como o Acantilado de Paranal cai direto no mar de mais de 500 metros de altura. Depois a Depressão Central, a pampa onde ficam as salinas e as ruínas industriais. Por último a Cordilheira dos Andes, com vulcões que passam dos 6.000 metros.

A altitude média do deserto não é de praia: San Pedro de Atacama fica a cerca de 2.400 metros, e o planalto de Chajnantor, ainda dentro do deserto, chega a 5.000 metros acima do nível do mar. É deserto alto, o que empurra as noites para perto de zero mesmo quando o dia passou dos 30 graus.

O balanço de água é o número que define o lugar. A média de chuva em boa parte da Depressão Central fica entre 1 e 3 milímetros por ano, e no núcleo hiperárido cai abaixo de 1 milímetro. Para efeito de comparação, o Saara recebe em média de 20 a 100 milímetros anuais, ou seja, é entre dez e cem vezes mais molhado.

Rio permanente que atravessa a faixa existe basicamente um, o Loa, que nasce nos Andes, faz uma curva em U e chega ao Pacífico perto de Tocopilla. É o mais comprido do Chile e corre onde nada mais corre.

A duração da secura é o outro extremo. Datações de superfície e de sedimento indicam aridez há pelo menos 10 a 15 milhões de anos, com hiperaridez firmada há uns 3 milhões, o que faz do Atacama o deserto continuamente seco mais antigo do planeta.

Nem toda a faixa é igual. A borda leste recebe alguma chuva de verão vinda do altiplano, o chamado inverno boliviano, e é ali que sobrevivem pastagem, lhama e oásis agrícola como Toconao.

Uma tira estreita, alta, velha e sem chuva parece um lugar vazio no mapa. Ela é o contrário: o chão sem água guardou coisas que nenhum outro chão consegue guardar.

 
 

II  O que tem ali

O sal que virou guerra e o céu que virou telescópio

O primeiro tesouro do Atacama estava na superfície, numa crosta dura chamada caliche. Dentro dela ficava o salitre, nitrato de sódio, matéria-prima de fertilizante e de explosivo, acumulado justamente porque nitrato é solúvel e chuva nenhuma passou por ali para dissolver o depósito.

Entre 1880 e 1920 essa crosta sustentou a economia chilena. Chegou a responder por perto da metade da receita do Estado e encheu a pampa de acampamentos operários com moeda própria, as oficinas salitreras.

O ciclo morreu numa bancada de laboratório: quando Fritz Haber e Carl Bosch fecharam o processo de fixar nitrogênio do ar, entre 1909 e 1913, o nitrato do deserto perdeu a exclusividade e a pampa esvaziou em poucas décadas.

Humberstone e Santa Laura, duas dessas cidades abandonadas, viraram Patrimônio Mundial da Unesco em 2005.

O que ficou embaixo é mais valioso. O Salar de Atacama, uma bacia de cerca de 3.000 quilômetros quadrados de crosta salgada, guarda salmoura com uma das maiores concentrações de lítio conhecidas, e sozinho responde por uma fatia relevante da produção mundial do metal que abastece bateria.

Perto dali fica o cobre: Chuquicamata e Escondida, a maior produtora do mundo, estão na mesma faixa seca.

O ar do lugar virou produto também. Sem nuvem de chuva e com pouquíssimo vapor de água a 5.000 metros de altitude, o planalto de Chajnantor recebeu o ALMA, conjunto de 66 antenas de rádio que observa o céu em milímetro, faixa que vapor de água estraga.

Nos morros da Cordilheira da Costa estão os telescópios ópticos: Paranal, La Silla e o Extremely Large Telescope, em construção no Cerro Armazones. Sítio de telescópio se escolhe por noites limpas por ano, e ali passam de 300.

A vida que existe no meio disso bebe neblina, não chuva. A camanchaca é um banco de nuvem baixa que entra do mar e sobe as encostas, e dela vivem líquens, cactos e os tapetes de Tillandsia, plantas que se agarram na areia sem raiz funcional.

Gente copiou a planta. Em Chungungo foram instalados atrapanieblas, telas verticais que peneiram a camanchaca e escorrem a água para um tanque, capazes de render vários litros por metro quadrado em dia bom.

E de tempos em tempos o chão desmente a fama. Quando o El Niño empurra chuva anômala sobre a borda sul, sementes paradas anos no solo estouram todas juntas e pintam quilômetros de areia de rosa e amarelo, no episódio que os chilenos chamam de deserto florido.

Os números que sustentam o lugar cabem numa lista curta:

Extensão: cerca de 1.000 km no sentido norte-sul - Chuva no núcleo hiperárido: abaixo de 1 mm por ano - Idade da aridez: 10 a 15 milhões de anos - Altitude de Chajnantor: cerca de 5.000 m - Salar de Atacama: cerca de 3.000 km² de crosta salgada - Noites limpas por ano nos observatórios: mais de 300

Nada disso existiria se chovesse. A pergunta que sobra é mecânica: o que exatamente segura a água antes de ela chegar nessa tira de chão.

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III  Por que a linha passa ali

Duas paredes e uma corrente fria

"O vale de Copiapó, uma simples fita de verde no meio de um deserto."

Diário de um naturalista, Charles Darwin, 1839.

A primeira parede fica a leste e é de pedra. A umidade que evapora do Atlântico atravessa a Amazônia e chega ao continente pelo lado brasileiro, mas para alcançar o Chile precisa subir os Andes. Ao subir, o ar esfria, condensa e despeja a chuva na encosta boliviana e argentina.

Do outro lado desce ar já espremido. É o efeito de sombra de chuva, o mesmo mecanismo que seca a Patagônia argentina, só que aqui a barreira passa de 6.000 metros e a esponja fica praticamente vazia antes da descida.

A segunda parede fica a oeste e é de água fria. A corrente de Humboldt sobe do sul trazendo água gelada e provoca ressurgência na costa chilena, o que deixa a superfície do mar vários graus mais fria do que seria esperado nessa latitude.

Ar frio embaixo e ar mais quente em cima montam uma inversão térmica: a massa de ar marinha fica presa numa camada rasa, forma nuvem baixa e neblina, e não consegue subir o suficiente para virar chuva. É por essa razão que o litoral do Atacama vive encoberto de manhã e mesmo assim não molha o chão.

Por cima das duas paredes trabalha uma terceira coisa, invisível no mapa. O anticiclone do Pacífico Sul mantém sobre a região um movimento permanente de ar descendo, e ar que desce aquece e seca, o oposto exato da condição que gera nuvem de chuva.

Três mecanismos empilhados, e nenhum deles é falta de água por perto: o maior oceano do planeta encosta no deserto, e a maior floresta tropical fica do outro lado da cordilheira.

A linha política também foi desenhada pelo sal. Até 1879 essa faixa pertencia ao Peru e à Bolívia. A Guerra do Pacífico, disputada entre 1879 e 1883 em torno de imposto e concessão sobre o nitrato, terminou com o Chile anexando Tarapacá e Antofagasta.

O resultado dura até hoje: a Bolívia perdeu a saída para o mar, mantém uma marinha que navega no lago Titicaca e levou a questão a tribunal internacional, que em 2018 decidiu que o Chile não tem obrigação de negociar acesso soberano à costa.

1. Ache o litoral do Chile no mapa e suba até a fronteira com o Peru.

2. Desça o dedo por essa borda até a altura de Copiapó: toda a faixa entre o mar e a cordilheira é o deserto.

3. Repare que ela é estreita e comprida, encaixada entre duas cadeias de montanha paralelas, com o oceano de um lado e a mais alta do outro.

O Atacama mostra que proximidade da água não garante nada. O que decide se chove num lugar é o caminho que o vapor faz até ali, e nesse caminho existem duas paredes e uma tampa de ar quente que nenhuma nuvem atravessa.

"Onde na sua vida a fonte está perto e o caminho até ela é que está bloqueado?"

 
 
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AO processo de Fritz Haber e Carl Bosch para fixar nitrogênio do ar
BUma seca ainda mais severa que impediu a extração do caliche
CUm imposto chileno sobre a exportação de nitrato
DA descoberta de lítio no Salar de Atacama, que desviou o investimento

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